O conspirador -Ross Perrot e o Estado. Por John Ganz

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 Por John Ganz

Publicado por  Unpopular Front em 24 de Setembro de 2021 (The Conspiracist – Ross Perot and the State, original aqui)

 

“O executivo do Estado moderno é apenas um comité para gerir os assuntos comuns de toda a burguesia”, escreveu Karl Marx no The Communist Manifesto. Claro, há mais do que isso, certo? Bem, agora não sei. Vou partilhar um pouco mais da pesquisa que fiz sobre Ross Perot para o meu livro. Quando comecei a trabalhar neste capítulo, esperava mostrar Perot apenas como uma espécie de figura excêntrica e engraçada nas margens da vida política. Certamente não esperava que fosse tão revelador sobre o próprio núcleo do governo e da sociedade americana.

A candidatura de Ross Perot à presidência em 1992, embora apresentada como um desafio populista, surgiu após uma longa proximidade com os órgãos centrais do poder executivo. Como devem lembrar-se do meu anterior texto sobre a questão POW/MIA [n.t. prisoner of war/missing in action], isto começou na administração Nixon. O negócio de Perot, a Electronic Data Systems [EDS], exigia clientes extremamente grandes para ter lucros e apresentar o tipo de crescimento que justificava o preço das suas ações enormemente inflacionado no mercado. (Negociava a cerca de 100 vezes os lucros, fazendo parte de um entusiasmo de finais dos anos 60 pela tecnologia). O número de clientes que precisavam e podiam pagar o tipo de serviços de processamento de dados que a EDS fornecia era relativamente pequeno: eram as grandes empresas bem como os governos estaduais e o governo federal.

Perot teve muitos problemas em competir por clientes empresariais, mas teve muito sucesso com os governos estaduais que precisavam de ajuda no processamento de dados após a aprovação de Medicare e Medicaid em 1965. Ele saiu-se tão bem com os contratos governamentais, em parte porque não competiu de modo nenhum: usou a manipulação, os favores e acordos por informação privilegiada para obter contratos sem que houvesse propostas. Embora a maior parte disto não fosse tecnicamente ilegal, atraiu a ira dos reguladores federais, que ficaram consternados ao saberem que da sobrefaturação massiva e do deficiente trabalho que a EDS estava a realizar. A EDS tornou-se o alvo de investigações e auditorias federais. Perot precisava claramente de uma classe mais elevada de apoio político.

Em 1968, o Presidente da PepsiCo apresentou Perot a Richard Nixon, e tiveram uma reunião sobre o que os serviços informáticos poderiam fazer para as campanhas políticas modernas. Perot disponibilizou funcionários da EDS à campanha de Nixon. (Ele deduziu isso dos seus impostos, claro.) Basicamente, todo o conjunto executivo da EDS apoiou generosamente a campanha Nixon. Perot, contudo, não o fez, mas fez grandes promessas e entrou no conselho de administração da Fundação Nixon. Com Nixon na Casa Branca, Perot tinha uma linha direta com os conselheiros mais próximos do Presidente, com pessoas como H.R. Haldeman, John Ehrlichman, e Henry Kissinger. Perot encaixava bem na imaginação ideológica da presidência Nixon: ele era da zona ocidental dos Estados Unidos, “um homem feito por si-mesmo” e não fazia parte do establishment Oriental tão desprezado por Nixon. Este era precisamente o tipo de americano médio que Nixon pensava representar e que deveria estar no comando.

Perot utilizou as suas ligações à Casa Branca para fazer desaparecer as investigações federais sobre as práticas comerciais da EDS. E então ele começou a exigir contratos federais. Em troca, ajudou a administração Nixon nas relações públicas para o falhado esforço de guerra, comprando anúncios em jornais e TV para a campanha “Go Public” POW/MIA [n.t. prisoner of war/missing in action]. Mas Perot rapidamente teve as suas próprias ideias sobre como as coisas deviam ser feitas. Os seus espetáculos – como voar para o Laos com um avião cheio de presentes para prisioneiros de guerra – começaram a exceder as necessidades de Nixon e a chamar a atenção para si próprio. Também não estava a cumprir todas as suas promessas: 50 milhões de dólares por anúncios nunca se materializaram, nem a sua contribuição para a Biblioteca Nixon. Mesmo com Perot a abandonar Nixon, a Casa Branca continuou a ajudar os seus negócios. Finalmente ficaram fartos dele quando ele ofuscou a Casa Branca com as suas próprias celebrações pelo regresso dos prisioneiros de guerra. De repente, o novo Secretário da Saúde, Educação e Bem-Estar, Caspar Weinberger, foi o modelo de probidade e expulsou Perot do seu gabinete quando este exigiu mais contratos.

Quando apareceu no escritório da Weinberger, Perot estava com alguns problemas comerciais. A antiga firma de corretagem da F.I. Dupont parecia que estava prestes a afundar-se e arrastar toda a Wall Street para baixo com ela. A administração Nixon convenceu Perot a fazer um investimento na Dupont para a apoiar. Isto tornou-se num sério desastre, com Perot a derramar uma tonelada da sua fortuna na firma. Durante o mesmo período de tempo, a EDS perdeu a maioria dos seus grandes clientes empresariais. Perot tinha perdido alguma da proteção política que o ajudou com as auditorias e as multas governamentais tinham recomeçado a aparecer. Assim, Perot voltou-se novamente para leste, não para D.C. e Nova Iorque desta vez, mas para a periferia do império americano: o Irão do Xá. A EDS fez contratos de cerca de 90 milhões de dólares em negócios com o Irão, mas claro que para o fazer teve de subornar a família Pahlavi e o Ministério da Saúde e Bem-Estar Social iraniano. Note-se que isto não foi muito diferente das suas práticas comerciais nos EUA, embora talvez um pouco mais descaradas.

Isto passava-se agora no final dos anos 70 e sabemos o que aconteceu no final dos anos 70 no Irão. O povo ficou farto da corrupção do regime do Xá. Houve uma enorme agitação no país e, para tentar apaziguá-lo, o Xá fez esforços para limpar a corrupção. Os ministros que Perot tinham subornado foram presos, assim como alguns funcionários da EDS. Para consternação do Departamento de Estado, Perot tentou organizar um esquadrão paramilitar, liderado por um antigo Boina Verde chamado “Bull” Simons que conheceu durante os anos do Vietname, para retirar os funcionários da prisão. O plano foi em vão.- A revolução tratou disso: uma grande multidão libertou todos da prisão em que os homens da EDS estavam, e eles apenas caminharam para o hotel Hyatt em Teerão e foram expulsos do país. Perot encomendou então um livro do escritor de thriller Ken Follett que apresentava toda a fuga como sendo planeada pelos seus comandantes. Isso foi transformado numa minissérie de TV nos anos 80, tendo como estrela principal Burt Lancaster e Richard Crenna como Perot, o que embelezou ainda mais a história, com muitos combates e explosões.

Este tipo de confusão entre Hollywood e a realidade era típico da era Reagan, e Perot deu um grande contributo para isso, mas vou deixar isso para o livro. Havia mais aventuras paramilitares. Direi apenas que Perot conhecia bem um Tenente Coronel Oliver North.

Pessoalmente, penso que o que o episódio de Perot revela de forma assustadora é a estreita relação entre o sector privado e os mais altos níveis do governo dos EUA e a vulnerabilidade do nosso sistema de governo sobre a dimensão do que nele é imensamente corrupto. A história de Perot também revela coisas interessantes sobre a nossa política externa e como ela interage com os negócios. Creio que Perot também mostra a predominância do sector privado sobre o Estado: Perot desafiou as administrações presidenciais e normalmente conseguiu o seu intento. Até levou a cabo a sua própria política externa, primeiro contra a vontade da Casa Branca com Nixon e depois com o Departamento de Estado com Carter. O poder do governo era bastante limitado na sua capacidade de o controlar. Os presidentes preferiram tentar cooptar e cooperar com ele: depois de ser tão chato para Nixon, Reagan colocou-o no seu Foreign Intelligence Advisory Board, onde, adivinhem, se tornou novamente um verdadeiro chato.

Mas talvez a coisa mais crucial que a história de Perot revela seja o poder da propaganda na política americana. A campanha de relações públicas em nome dos prisioneiros de guerra acabou por se transformar num culto nacional e num reservatório duradouro de poder político. Perot passou a maior parte da sua vida profissional mesmo no centro do establishment do poder americano, e, ainda, de alguma forma criou a impressão de que era um populista marginal ao sistema político americano, entrando nele para desmantelar o sistema de políticos enriquecidos pela política e pela corrupção. O facto a salientar é que Ross Perot era o sistema. Tornou-se um conspirador, acreditando em todo o tipo de fantasias paranoicas e considerava que o governo estava a conspirar para manter a questão POW/MIA em segredo (embora ele tivesse acesso aos mais altos níveis dos serviços de inteligência sobre o assunto). Mas ele era o verdadeiro conspirador o tempo todo, manipulando os gabinetes de estado para os seus próprios fins.

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O autor: John Ganz é editor e escritor independente. Licenciado em História pela Universidade de Michigan e mestre em Belas-Artes pela Universidade de Columbia. Dirige o sítio Unpopular Front.

 

 

 

 

 

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