FRATERNIZAR – Poder e Fragilidade – QUAL DOS DOIS SALVA A HUMANIDADE? – por MÁRIO DE OLIVEIRA

 

Por nascimento, somos todas, todos a máxima Fragilidade, nenhum Poder. Embora o BI ou, como agora se diz, Cartão de Cidadão teime em garantir que somos filhas, filhos de Fulano e de Fulana – o nome do pai, primeiro, o da mãe, segundo – a verdade é que é da mulher que nascemos, não do homem. Como também é dentro da mulher que vivemos os nossos primeiros 9 meses, os mais decisivos, ainda que a idade de cada qual só se comece a contar a partir do dia do nosso natal, não do dia da nossa concepção. Não me digam que são pormenores sem importância, porque a importância da Vida revela-se nos pormenores. O Poder que há milénios está ao comando do mundo e da Humanidade sabe disso – mas o que é que ele não sabe, se até o Saber é Poder? – e por isso faz tudo para que as coisas nos sejam assim ensinadas e apresentadas, quando elas são exactamente o contrário.

É, pois, mais do que manifesto que da natureza humana faz parte a Fragilidade, não o Poder, que é o que há de mais estranho e absurdo para a Vida-Consciência que somos. De modo que só a Fragilidade nos pode salvar, nunca o Poder. E quem diz salvar, diz libertar-humanizar-fraternizar e Mesas compartilhadas-viveres históricos religados uns aos outros, na máxima variedade de povos, de falares, de culturas e de tradições.

Nestes últimos 5 meses, tenho a graça de viver cada dia muito próximo de Diogo Alexandre, filho do Vento, como todos os nascidos de mulher, elas e eles, e, no caso dele, também da Cristina e do Isidro, tal como a sua irmã Francisca, já a caminho dos 12 anos. Tudo nele, como em todas as meninas, todos os meninos da mesma idade, em todo o mundo, é Fragilidade, nenhum Poder. Entregue a si próprio, poucas horas sobreviveria. Graças aos cuidados da mãe, do pai, da irmã, da avó e demais pessoas vizinhas e amigas, Alexandre desenvolve-se de dentro para fora, cada dia um pouco mais, rumo à sua própria autonomia e independência. Mas mesmo esta só é possível, graças à existência dos demais com os quais todas, todos estamos inevitavelmente em relação. Pois somos essencialmente relação. Deixados inteiramente sós, cada uma, cada um de nós pereceria em pouco tempo, porque a total solidão mata!

O Evangelho de Marcos, 10, 13-15, finalmente desencriptado, como o meu Livro, ‘Do mítico Cristo-da-fé ao Jesus histórico’, Seda Publicações, já no-lo apresenta, bem como aos outros três, João, Mateus e Lucas, este em 2 Volumes, narra-nos um episódio por demais eloquente e que nós, formatados que vivemos pela ideologia e teologia do Poder, as mesmas de todas as religiões e igrejas, não valorizamos, para desgraça nossa. Importa sublinhar, antes de o transcrever, que os 4 Evangelhos em 5 Volumes não fazem parte da Bíblia e são Livros profanos, não sagrados, e do que há de melhor e mais belo na literatura mundial. Urge, por isso, resgatá-los da Bíblia, dos templos e das liturgias e escutá-los em Oficinas de Leitura, por exemplo.

Eis, ‘Apresentam-lhe [a Jesus] uns pequeninos para que os toque; mas os discípulos repreendem os que os trazem. Ao ver isto, Jesus fica indignado e diz-lhes, Deixai vir a mim os pequeninos e não os afasteis, porque o Reino de Deus [= Sociedade alternativa à do Poder] pertence aos que são como eles. Em verdade vos digo, Quem não recebe o Reino de Deus como um pequenino não entra nele. Depois, toma-os nos braços, abençoa-os e faz-lhes uma festa nos cabelos.’

Imediatamente depois, desta espantosa revelação, Marcos refere o conhecido episódio do homem rico que quer viver para sempre, mas sem repartir a sua iníqua riqueza acumulada e concentrada, entenda-se, sem se tornar Fragilidade e Religação com os demais. Escuta das boas, ditas com os verbos mais exigentes que saem da boca de Jesus histórico, ‘Vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e tens um tesouro no céu [= a Terra sem Poder]; depois vem e segue-me.’

Como vemos, há Poder e há Fragilidade. O Poder é um estranho que mata e destrói o Humano nas mentes de todos os nascidos de mulher em que se alojar. Só mesmo a Fragilidade diz com a nossa matriz original, por isso, só ela nos salva e salva a Terra, organismo vivo. O mais trágico, porém, é que, contra a nossa própria natureza, somos concebidos, nascemos, crescemos, vivemos e morremos no mundo do Poder e do Saber. Quando, afinal, só a Fragilidade e a Sabedoria ou a Arte de Cuidar da Vida, dizem com a nossa matriz original. Vamos pela Fragilidade e pela Sabedoria, não pelo Poder e o Saber, ou perecemos. Escolher é preciso.

 

 

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