CARTA DE BRAGA – “dez e cinco da manhã” por António Oliveira

Naquele dia resolvi ir dar uma volta até às grutas, umas covas num monte não muito longe da minha casa, para ver aquilo sozinho, sem ninguém a dizer-me ‘não te metas aí’ ou ‘tem cuidado que não há luz nenhuma’ e outros avisos bem intencionados, mas tão sonoros que se deviam ouvir a quilómetros!

Não sou espeleólogo, mas sou curioso e gosto daquela encosta, onde também há muita arruda, salva e outras plantas silvestres com um cheiro delicioso. Quase a chegar, também há umas macieiras de rainetas; chego-me, apanho e consigo descascar uma, tirar-lhe a casca quase acastanhada e arrepiar-me com a acidez que até me embota os dentes, mas sabe-me bem àquela hora; olho para o relógio e são dez e cinco da manhã.

Estico as pernas, ajeito-me melhor no murete de pedras afagadas à pressa e olho em volta para ver os pássaros que, ali, naquela encosta, parecem encontrar o seu paraíso, misturando voos e saltos, aterragens rápidas à cata ou a apanhar algum qualquer bichito, quando reparo que da encosta em frente, do outro lado da estrada, desce um homem, trazendo nas mãos uma caixa de madeira, não maior do que a gaveta do móvel da minha cozinha, mas com um enorme cuidado para ela não se voltar.

Já não era novo, andaria pelos sessenta anos, estaca e olha também à volta, só nessa altura dá conta de mim, ajeita o chapéu, atravessa a estrada e vem sentar-se ao meu lado. Nada diz, mas estende-me a caixa e faz sinal para tirar uma ameixa, pequena e vermelhusca e, quando a tiro, ‘Não há mais nenhumas como estas, apanhadas daquele lado, onde batem os ventos do mar. Estão maduras agora e que lhe saiba bem!

Comi, devido à insistência, mais umas três ameixas, fantásticas, se calhar pelos tais ventos do mar, uma benção do tempo e da natureza. Pousou a caixa de madeira no muro, entre os dois e puxou um cigarro de uma caixa de lata, ofereceu-me, disse-lhe que já me tinha deixado disso, ‘Fez bem!’ e ali ficámos os dois, eu ajeitado no murete e ele a puxar as fumaças com um ar tão tranquilo, que nenhum club ou restaurante poderia proporcionar.

Esqueci-me das grutas umas dezenas de metros atrás de mim, por aqueles momentos na companhia do Senhor Ninguém, já me valerem e salvarem o dia, mesmo que eu não fizesse absolutamente mais nada.

E quando acabou o fumo do cigarro, voltaram os aromas das plantas silvestres, com a arruda à frente, ele estende-me a mão e pergunta ‘Quer ficar com a caixa?’ a que respondo ‘Se for por aquele caminho, por onde o senhor desceu, talvez as ache também, mas vou ficar por aqui mais um bom bocado. Obrigado pela sua gentileza!

Aperta-me a mão com força e ‘É impressionante a ligação entre o nosso corpo e as plantas, as árvores e a natureza! Pena é que não venha mais gente por estes lados, mesmo só para apanhar e comer rainetas!

Levantei-me, demo-nos um abraço e voltei a sentar-me, não fui às grutas e, quando me levantei para ir embora, já passavam trinta minutos das duas da tarde! Nunca mais vi o Senhor Ninguém, que me veio à lembrança por ser o tempo das ameixas.

E recordei esta estória quase ridícula, por ter lido também um texto que citava Mário Quintana, ‘Nesses tempos de céus de cinzas e chumbos, nós precisamos de árvores desesperadamente verdes’.

E lembrei-me do que afirmou Edgar Morin há um pouco mais de um mês a uma revista em língua portuguesa, ‘O problema da felicidade está subordinada ao que chamo O problema da poesia da vida; a meu ver a vida está polarizada entre a prosa -as coisas que fazemos por obrigação- para sobreviver, e a poesia -o que nos faz florescer, amar, comunicar. E é isso que é importante’, tão importante como uma arruda e uma revoada de pássaros na encosta de um monte.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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