Naquele dia resolvi ir dar uma volta até às grutas, umas covas num monte não muito longe da minha casa, para ver aquilo sozinho, sem ninguém a dizer-me ‘não te metas aí’ ou ‘tem cuidado que não há luz nenhuma’ e outros avisos bem intencionados, mas tão sonoros que se deviam ouvir a quilómetros!
Não sou espeleólogo, mas sou curioso e gosto daquela encosta, onde também há muita arruda, salva e outras plantas silvestres com um cheiro delicioso. Quase a chegar, também há umas macieiras de rainetas; chego-me, apanho e consigo descascar uma, tirar-lhe a casca quase acastanhada e arrepiar-me com a acidez que até me embota os dentes, mas sabe-me bem àquela hora; olho para o relógio e são dez e cinco da manhã.
Estico as pernas, ajeito-me melhor no murete de pedras afagadas à pressa e olho em volta para ver os pássaros que, ali, naquela encosta, parecem encontrar o seu paraíso, misturando voos e saltos, aterragens rápidas à cata ou a apanhar algum qualquer bichito, quando reparo que da encosta em frente, do outro lado da estrada, desce um homem, trazendo nas mãos uma caixa de madeira, não maior do que a gaveta do móvel da minha cozinha, mas com um enorme cuidado para ela não se voltar.
Já não era novo, andaria pelos sessenta anos, estaca e olha também à volta, só nessa altura dá conta de mim, ajeita o chapéu, atravessa a estrada e vem sentar-se ao meu lado. Nada diz, mas estende-me a caixa e faz sinal para tirar uma ameixa, pequena e vermelhusca e, quando a tiro, ‘Não há mais nenhumas como estas, apanhadas daquele lado, onde batem os ventos do mar. Estão maduras agora e que lhe saiba bem!’
Comi, devido à insistência, mais umas três ameixas, fantásticas, se calhar pelos tais ventos do mar, uma benção do tempo e da natureza. Pousou a caixa de madeira no muro, entre os dois e puxou um cigarro de uma caixa de lata, ofereceu-me, disse-lhe que já me tinha deixado disso, ‘Fez bem!’ e ali ficámos os dois, eu ajeitado no murete e ele a puxar as fumaças com um ar tão tranquilo, que nenhum club ou restaurante poderia proporcionar.
Esqueci-me das grutas umas dezenas de metros atrás de mim, por aqueles momentos na companhia do Senhor Ninguém, já me valerem e salvarem o dia, mesmo que eu não fizesse absolutamente mais nada.
E quando acabou o fumo do cigarro, voltaram os aromas das plantas silvestres, com a arruda à frente, ele estende-me a mão e pergunta ‘Quer ficar com a caixa?’ a que respondo ‘Se for por aquele caminho, por onde o senhor desceu, talvez as ache também, mas vou ficar por aqui mais um bom bocado. Obrigado pela sua gentileza!
Aperta-me a mão com força e ‘É impressionante a ligação entre o nosso corpo e as plantas, as árvores e a natureza! Pena é que não venha mais gente por estes lados, mesmo só para apanhar e comer rainetas!’
Levantei-me, demo-nos um abraço e voltei a sentar-me, não fui às grutas e, quando me levantei para ir embora, já passavam trinta minutos das duas da tarde! Nunca mais vi o Senhor Ninguém, que me veio à lembrança por ser o tempo das ameixas.
E recordei esta estória quase ridícula, por ter lido também um texto que citava Mário Quintana, ‘Nesses tempos de céus de cinzas e chumbos, nós precisamos de árvores desesperadamente verdes’.
E lembrei-me do que afirmou Edgar Morin há um pouco mais de um mês a uma revista em língua portuguesa, ‘O problema da felicidade está subordinada ao que chamo “O problema da poesia da vida”; a meu ver a vida está polarizada entre a prosa -as coisas que fazemos por obrigação- para sobreviver, e a poesia -o que nos faz florescer, amar, comunicar. E é isso que é importante’, tão importante como uma arruda e uma revoada de pássaros na encosta de um monte.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor