Pós-covid: palcos e honras ou dignidade e salários apropriados para os trabalhadores essenciais? – 2. Observações sobre o artigo de Victor Hill, “Um novo modelo económico?”. Por Francisco Tavares

 

Nota de editor:

Publicamos uma mini-série de 4 textos, ocasionada a propósito do texto, de Victor Hill, “Um novo modelo económico?” (ver aqui). É um texto que denuncia alguns males do capitalismo atual no Reino Unido mas que padece, como diz Júlio Mota, dos limites de uma análise feita no quadro do sistema que produz os problemas que se pretende resolver. O segundo texto, que publicamos hoje, é uma observação crítica de Francisco Tavares sobre o artigo de Victor Hill e o terceiro é um comentário crítico de Júlio Mota a ambos os textos. O quarto, e último, texto mostra o que se está a passar nos Estados Unidos com o fenómeno dos salários baixos, em particular com os trabalhadores que foram louvados e aplaudidos a propósito da pandemia Covid, e que justamente foram apontados como trabalhadores essenciais. Como diz a autora, Molly Osberg, estes trabalhadores não parece que estejam dispostos a aceitar “a lógica cínica que lhes deu palcos e honras em vez de dignidade e de um salário apropriado”.

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2. Observações sobre o artigo de Victor Hill, “Um novo modelo económico?”.

 Por Francisco Tavares

Em 20 de Outubro de 2021

 

 

Este interessante artigo de Victor Hill (mais um…) – Um novo modelo económico? -, deixa algumas, talvez importantes, pontas soltas. A perspetiva que deixa é: a economia britânica necessita salários elevados e qualificação e requalificação da sua mão-de-obra. E os riscos que isso traz são preocupantes: aumentos de preços, ruptura das cadeias de abastecimento, queda/colapso do nível de vida. Que consequências políticas?

Curiosamente diz, colocando-o na boca de terceiros (ministros do Governo) “o Reino Unido não é uma economia de comando e controlo; e a escassez de mão-de-obra, juntamente com a escassez de bens, é melhor regulada pelas leis da oferta e da procura do que por um decreto ministerial”. Mas tenta clarificar a sua própria posição sobre o assunto: “O governo britânico não é suposto fazer gestão da cadeia de abastecimento… (…) Esse tipo de coisas é muito melhor deixado aos peritos…”. Reconhece que para pagar salários mais elevados é necessário aumentar a produtividade e, consequentemente, o investimento. Mas é aqui a porca do mercado torce o rabo. É necessário que o governo tenha um papel ativo, mas Hill não menciona este facto: quem vai investir em “estruturas de acolhimento de crianças” ou na “democracia digital (… acesso a banda larga super-rápida)”?

A questão do acolhimento de crianças (creches, ensino pré-escolar) é certamente muito importante e terá impacto não só na formação mas também na taxa de natalidade. Falta saber até que ponto. Esta é uma questão que toca a reposição da população e não parece que o Reino Unido consiga fazê-lo com a taxa atual (1,56).

Quanto à democracia digital: certamente de acordo quanto ao objetivo. Mas, apesar da divulgada baixa taxa de desemprego no RU (4,9%), quantos cidadãos/famílias haverá que não têm sequer conta bancária? Este é o tipo de indicador (taxa de desemprego) que pode esconder uma realidade bem mais grave. Segundo um relatório de Fevereiro de 2020 da fundação Joseph Rowntree, a pobreza afeta no Reino Unido 14 milhões de cidadãos (21% da população!).

Na linha da sua defesa de que a escassez de mão-de-obra e de bens é melhor regulada pelas leis da oferta e da procura do que por decreto ministerial (o “isto não é uma economia de comando”) e preferindo não usar a expressão “mundo empresarial”, Hill saca do seu saco de prestidigitador a UK plc [1], como que representando o conjunto da comunidade empresarial. Desde logo, as ‘plc’ (“public limited companies”), que são empresas privadas, apenas representam 5% dos 2 milhões de sociedades de responsabilidade limitada, a que haverá que acrescentar os 3,5 milhões de empresas em nome individual. E, diz Hill, “é, agora claro, pós-Brexit…” que esta comunidade empresarial “não tem estado a cuidar suficientemente da sua força de trabalho

A preocupação é certamente justa, mas é claro só agora??? pós-Brexit??? Não são as causas bem anteriores, com a aplicação de políticas segundo o lema, defendido por Hill, da regulação pelas leis da oferta e da procura (políticas em tudo idênticas às aplicadas pela União Europeia), por exemplo pelos governos de Tony Blair, Gordon Brown, David Cameron, Theresa May ?

Fala do “instinto natural dos empresários britânicos [contratarem] mão-de-obra barata, estrangeira, que pode ser despedida como e quando os empresários o desejem”, como se isso fosse uma marca exclusiva britânica. Referência ao sistema que regula este “instinto”: nenhuma.

Faz referência ao ”vício” dos empresários em práticas do “just-in-time” que domina a gestão empresarial do mundo de hoje, mas como será possível condicionar essa prática, sobretudo em abastecimentos essenciais (energia, por exemplo), sem uma intervenção do governo?

Ao dizer, com algum saudosismo, que “os alimentos produzidos internamente deveriam ter prioridade sobre as importações por razões de quilómetros percorridos pelos alimentos, bem-estar animal e os benefícios para a saúde de comer consciente e sazonalmente, como faziam os nossos antepassados”, mais parece que Hill está desejoso de subir as pautas tarifárias do Reino Unido. E que acontecerá com os principais destinos de exportação do RU, nomeadamente a UE e os Estados Unidos?

A propósito da escassez de mão-de-obra nos matadouros acena com uma pérola: “Pelo menos os matadouros estão agora autorizados a recrutar prisioneiros em serviço em Norfolk – um ganho para todos”.

Diz Victor Hill: “É bem possível que precisemos de mudar para um novo modelo de salários mais elevados, melhores qualificações dos trabalhadores e melhor automatização. Mas não é claro como é que isso pode ser conseguido sem que se produzam graves transtornos a curto e médio prazo, em termos de aumentos de preços e ruturas da cadeia de abastecimento”.

Sem dúvida, tem razão Hill: é preciso mudar para um modelo que tenha salários mais elevados e melhores qualificações dos trabalhadores. Se depois disso haverá rupturas de abastecimento, estará por ver. O que sabemos é que essas rupturas se deram mas com baixos salários. Os eventuais aumentos de preços estarão ligados a haver ou não aumento da produção e da produtividade.

E acrescenta: “Na semana passada, o Secretário de Negócios, Kwasi Kwarteng MP, acusou as empresas britânicas de “resistirem à transição” de um modelo de baixos salários e de elevada imigração para um modelo de salários elevados e de mão-de-obra mais qualificada”, naquilo que parece ser uma concordância de Hill com o que diz o Secretário Kwarteng. É curiosa a comparação: Baixos salários/elevada imigração versus Elevados salários/Mão-de-obra mais qualificada”. Recorde-se que a imigração foi um dos temas líder na votação favorável ao Brexit.

Hill não coloca a pergunta, mas eu coloco-a: pode o Reino Unido dispensar a imigração? Anotemos: desemprego em 4,9%, taxa de natalidade 1,6 (por mulher), bem abaixo do nível de reposição. Ou seja, com mais qualificação ou sem ela, o Reino Unido necessita imigração, e bem elevada. E os mais qualificados, enquanto o sistema existente não se altere, onde os vai buscar o Reino Unido? Mais do que provavelmente a mão-de-obra qualificada de países menos desenvolvidos, vendo estes países desvanecer-se o investimento que fizeram.

Embora debruçando-se sobre a situação na Alemanha, sobre esta escassez de mão-de-obra que atinge países europeus, vale a pena ler o artigo de Thomas Schnee, Cuidados aos idosos, primeira vítima da bomba demográfica alemã.

E afinal uma das medidas apoiadas por Hill, seria precisamente uma intervenção do governo sobre o mercado, neste caso o mercado laboral: o governo deveria ter aumentado o salário mínimo para 15 libras/hora, em vez das anunciadas 9,42 libras/hora. Além do desejado objetivo de uma economia de salários elevados, Hill defende que este aumento seria uma medida “à Thatcher”, varreria as empresas que não podem pagar salários decentes. Só não explica quantas desapareceriam, e quantas pessoas seriam afetadas. Diz simploriamente: “O seu pessoal deveria ser qualificado e reafectado”. Por artes mágicas, certamente! Requalificado em quê? Reafetado a quê?

À final, Hill reconhece que os riscos de um colapso do nível de vida são elevados.

Nem uma palavra sobre a livre circulação de capitais e suas consequências (já para não falar dos paraísos fiscais britânicos).

Em resumo, o texto de Victor Hill é sem dúvida importante, por um lado, como denúncia da atual sobreexploração da mão-de-obra no Reino Unido e, por outro, quanto à necessidade de uma mudança de paradigma, nomeadamente na formação de mão-de-obra qualificada e transição para uma economia de salários elevados. Mas, dentro dos limites ideológicos em que se movimenta, deixa demasiadas interrogações sobre como chegar lá, escondendo, nomeadamente, o importante papel que a imigração desempenhará e a inevitável intervenção do governo nos comandos dessa mudança de paradigma. Sob pena do agravamento daquilo a que temos assistido nestas últimas semanas no sistema de abastecimento do Reino Unido.

Afinal que novo modelo económico é o de Victor Hill?

 

Nota

[1] PLC designa uma “public limited company”. Refere-se a uma empresa privada cotada em bolsa com características específicas que a diferenciam de uma simples empresa privada cotada em bolsa. Por exemplo, tem de ter obrigatoriamente dois sócios, dois diretores, apresentação de contas 6 meses após o fecho do ano fiscal, obrigatoriedade de designar um secretário geral plenamente qualificado (ver aqui).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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