CARTA DE BRAGA – “de fugas e votos” por António Oliveira

Título do ‘Diario 16’ daqui ao lado, já num dia de Fevereiro passado, mas que ainda continua, como vamos vendo assinalado (das mais diversas forma, com ou sem pessoas, com ou sem instituições) ontem, hoje, agora e, se calhar amanhã, em televisões, jornais, relatórios, estudos, apontamentos e crónicas de entendidos – ‘Multimillonarios y grandes empresas evaden impuestos por casi 500.000 millones al año. Los poderes no democráticos consiguen que los sistemas fiscales de los países estén programados para fallar y que les permitan dejar de pagar los impuestos que les corresponden’.

E, logo depois, vêm alguns números de estarrecer – as perdas fiscais de África e América Latina, equivalem a 20,4% e 52,5% dos respectivos orçamentos para a saúde, os países europeus causaram 36% das perdas fiscais do mundo, os states, um paraíso fiscal também, perderam o equivalente ao salário de mais de um milhão de enfermeiros, vencendo o salário médio americano. 

E o artigo termina afirmando ‘Las Islas Caimán, el Reino Unido, o Luxemburgo, los Países Bajos y los Estados Unidos, todos paraísos fiscales, son los cinco lugares más responsables de los déficits fiscales del mundo’, pois os governos programaram um sistema fiscal global, para priorizar os desejos do multimilionários e das grandes corporações, em relação às necessidades dos cidadãos. 

Convém não esquecer que a globalização e o ‘salto’ tecnológico, vieram ajudar e beneficiar a consolidação do poder financeiro do capitalismo que dando origem ao aumento da precaridade e do desemprego, potenciou o ‘esfrangalhar’ das relações e ligações sociais, donde saíram também os pavores de uma enorme incerteza, bem demonstrado pelos Pandora Papers

São inúmeras as vozes que se levantam contra esta situação, mas não vão além de uma poucas páginas em alguns, mas poucos jornais, ao mesmo  tempo que os ‘zégomes’ encharcam os ecrãs de tolices, pois, como garante o filósofo e cronista Parra Montero, ‘Estamos a habituar-nos de forma deprimente, a aceitar quantas mentiras difundem, como também nas redes sociais, os ‘ignorantes sabetudo’, a que até se chamam influencers’.

E acrescenta ‘Essa forma de contar a história a embalar e afogar-nos com contos, não passa de uma retórica maniqueia, em que numa parte estão os bons e, na outra, os maus, obrigados ao silêncio do medo e, estamos a criar o hábito de calar a raiva e a ira, atitudes e respostas legítimas, ao descontentamento pelo actuação do poder, na actual situação’.

Aliás, numa sociedade em que tudo se pode comprar e vender (até as consciências como é sabido, a ver  jornais e televisões!) a posse e retenção de riqueza, principalmente do dinheiro, já pressupõe e indica a maior das diferenças, tal como a mercantilização favorece a sua expansão, porque a necessidade da posse torna a pobreza muito mais cara. Por outro lado, a compra e venda de consciências, é o ponto de partida para outra consequência bem mais grave, a corrupção! 

Tudo a aumentar o custo da pobreza, pois o cidadão normal, o votante, normalmente endividado, tem também de suportar a sobranceria da elite da meritocracia, que se julga merecedora de tais privilégios, muitas vezes afiançados pelos media, televisões, rádios e até por votos! Está em questão um regime estatuído, onde tudo joga a favor das classes possidentes, porque as outras não contam, só por não serem capazes de ultrapassar a mediocridade em que a mergulharam. 

Apetece chamar para aqui Mark Twain, o escritor norte-americano e fonte inesgotável de frases plenas de inteligência, muitas vezes de bom humor, por ser a melhor maneira de terminar esta Carta, ‘Se votar fizesse alguma diferença, eles não nos deixariam fazer isso’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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