Pandemia Covid e as Crianças – 1. “Depois do desastre da Virgínia, é melhor os Democratas começarem a trabalhar”, por Michael Tomasky

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

1. “Depois do desastre da Virgínia, é melhor os Democratas começarem a trabalhar

Agora, mais do que nunca, precisam de se manter concentrados e aprovar a sua agenda. Mas será isso o que eles pensam?

 

 Por Michael Tomasky

Publicado por  The New Republic em 3 de Novembro de 2021 (After the Virginia Disaster, the Democrats Better Get to Work, ver aqui)

 

WIN MCNAMEE/GETTY IMAGES

 

Não há maneira de esquecer a derrota de Terry McAuliffe. É um desastre.

Sim, toda a eleição do governador da Virgínia pode ter a ver com uma frase que McAuliffe terá proferido num debate em Setembro. Glenn Youngkin mencionou o facto de McAuliffe ter vetado um projeto de lei que teria feito da Virgínia o primeiro Estado – antes do Mississippi, antes de qualquer um deles – a permitir aos pais bloquear o acesso dos seus filhos à leitura de livros com material sexualmente explícito.

McAuliffe vetou esse projeto de lei, é um facto. Ficou conhecido na comunidade como “O amado projeto lei” [“Beloved Bill”], porque grande parte do debate centrou-se em torno do célebre romance de Toni Morrison que a campanha de Youngkin apresentou num anúncio de ataque já na parte final da campanha. Os republicanos controlavam nessa altura a Assembleia legislativa do Estado e McAuliffe tomou uma posição admirável. “Esta legislação carece de flexibilidade e obrigaria a aplicar a etiqueta de ‘sexualmente explícito’ a uma obra artística com base numa única cena, sem outro contexto”, disse ele na sua mensagem de veto.

Então Youngkin levantou esta questão no debate, e da boca de McAuliffe saíram estas palavras: “Acho que os pais não deviam estar a dizer às escolas o que podem ensinar”.

E isso foi o que provocou a situação. Um dia depois, essas palavras tornaram-se um ataque publicitário, e McAuliffe foi forçado a jogar à defesa a partir desse momento. Youngkin, entretanto, percorreu os media, prometendo proibir a teoria racial crítica, que não é ensinada nas escolas. Outro anúncio, no final do ciclo eleitoral, apresentava uma mulher cujo filho alegou ter sido traumatizado pelo livro Beloved há alguns anos atrás. Esse filho, que se tornou um advogado no Comité Nacional Republicano, disse do romance: “Foi nojento e grosseiro…. Foi difícil para mim lidar com isso. Foi-me muito difícil de suportar. Desisti de continuar a lê-lo.”

Pobre rapaz. Sabe o leitor o que aqui é mais grosseiro e repugnante? A escravatura. Uma mãe de tal modo desesperada e indefesa que matou a sua filha para a salvar dos horrores da escravatura. É o que é retratado em Beloved. Coisas como esta aconteceram. Aconteceram na Virgínia. Um Estado, a propósito, que passou décadas a ensinar às suas crianças brancas a Causa Perdida [1] e que, em alguns lugares, fechou as suas escolas públicas em vez de as integrar.

Ouvi algumas pessoas na CNN no início da noite de eleições a falar sobre o sucesso de Youngkin em fazer a sua campanha na base da “educação”. Exatamente. A educação. Tratava-se de “educação” da mesma forma que a controvérsia sobre Colin Kaepernick se referia ao seu corte de cabelo. Isto era sobre a raça [2]. A educação era apenas a arena que provou ser a via mais útil a ser utilizada para que mais um republicano ganhasse uma eleição invocando o tema do medo racial.

Havia outras questões? Talvez. A pandemia desempenhou um papel de dimensão exagerada, tal como o fizeram os encerramentos de escolas, e as pessoas estavam apenas fartas e cansadas do vírus e culpavam Joe Biden por isso.

A falta [dos votos] de duas pessoas dos Democratas no Capitólio foi um factor [influenciador]. Se não fosse por já se sabe quem e já se sabe quem, dois projetos-leis transformadores teriam sido aprovados há cerca de um mês, e McAuliffe poderia ter passado as últimas semanas da campanha a alardear o dinheiro disponível para novas estradas, melhoramentos portuários e a chegada do ensino pré-primário universal. Mas dois senadores democratas egoístas impediram que isso acontecesse.

Portanto, este foi um conjunto particular de circunstâncias, uma verdadeira tempestade perfeita: o Congresso, a pandemia, os filhos do povo, uma má utilização de palavras profundamente infeliz, e a raça.

Ainda assim … Joe Biden venceu este estado por 10 pontos. Dez pontos. Isto não era suposto acontecer. E agora os Democratas vão entrar em pânico.

Por um lado, deviam. Esta é uma perda devastadora para os Democratas, e dá um enorme impulso aos republicanos para o próximo ano.

Mas, por outro lado, é melhor que aprendam as lições certas com isto. Aqui estão algumas delas.

Primeiro que tudo – não se podem deixar arrastar para um debate interminável no seio do partido sobre o que devem fazer em relação à teoria crítica da raça. Este é o tipo de coisa em que os democratas se deixam enrolar, vezes sem conta. Não o façam.

Este resultado na Virgínia é um desastre, sim, mas não significa que eles devam entrar em pânico sobre este novo tema importante. Em Julho, a Reuters-Ipsos fez uma sondagem sobre tudo isto e descobriu que as maiorias, independentemente das linhas partidárias, pensam que os estudantes do ensino secundário devem ser ensinados sobre a história da escravatura e do racismo. Entre os Democratas, 86% apoiavam o ensino sobre a escravatura, e 85% a história do racismo. Entre os republicanos, esses números foram de 73 e 58 por cento. Já vi outras sondagens semelhantes que se alinham com estas conclusões.

Por outras palavras, em contextos mais calmos do que as disputas eleitorais intensivas para governadores apresentadas nos meios de comunicação social, as pessoas têm opiniões sãs sobre este tópico. Isso não significa que os democratas devam andar por aí a fazer disto a sua questão central. Mas significa que não devem entrar em pânico em relação a isso. O que eles deveriam fazer sobre estas questões é simplesmente não proferir frases estúpidas nos debates. Basta dizer algo que pareça equilibrado e razoável e que atinja uma espécie de meio termo brando, e depois mudar de assunto. Li sobre casos em que o ensino antirracista passou dos limites. Não deveria ser assim tão difícil para os Democratas dizer algo como que apoiam um ensino completo e verdadeiro da história americana, mas que opõem à instrução que ensina que todos os brancos são cúmplices ativos dos pecados raciais deste país.

Mas depois disso, para que assunto deveriam mudar? Outra grande lição: não para falar de Donald Trump. Correr contra Trump quando Trump está na reforma (por agora) simplesmente não produz suficientes dividendos. É uma loucura, mas as memórias das pessoas são assim curtas. Trump não está a ocupar espaço no cérebro das pessoas da forma como outrora ocupou. E Youngkin não é nada como Trump em termos da sua personalidade. Trump poderá muito bem acabar por ser o nomeado pelo Partido Republicano em 2024, o que obviamente mudará o cálculo. Mas os Democratas vão provavelmente ter dificuldade em colocar Trump no boletim de voto em 2022.

Em vez disso, precisam de mudar o tema de debate para o que conseguiram fazer enquanto estão no poder. Mas é claro, primeiro têm de conseguir fazer. Se estamos preocupados com as ramificações da derrota de McAuliffe para as eleições intercalares, devemos preocupar-nos com o assustador paradoxo com que esta derrota os confronta: A derrota de McAuliffe pode aumentar a hipótese de Joe Manchin e/ou Kyrsten Sinema (ou agora talvez alguns moderados nervosos da Câmara) lançarem a toalha sobre a agenda de Biden, no preciso momento em que a aprovação dessa agenda se torna uma missão crítica.

Se aprovarem essa agenda este ano, ainda há tempo para a pandemia diminuir e para a inflação descer. Mas os Democratas precisam de compreender que tudo isto poderia ter sido evitado. A sua única hipótese de não viverem uma repetição no próximo mês de Novembro é começar a trabalhar.


Notas

[1] N.T. Diz-nos Wikipédia : “A “Causa Perdida” (em inglês chamado de Lost Cause, ou ainda Lost Cause of the Confederacy) é uma ideologia negacionista e pseudo-histórica, que defende que a causa dos Estados Confederados durante a Guerra Civil Americana foi heroica, justa e não foi centrada na questão da escravidão”.

[2] N.T. A controvérsia incidiu sobre os protestos de Kaepernick quando era jogador de futebol americano que se ajoelhava quando tocava o hino americano em protesto contra a brutalidade policial contra cidadãos afroamericanos (ver wikipedia aqui).


O autor: Michael Tomasky [1960-], jornalista norte-americano, é editor do The New Republic e editor chefe de Democracy. É correspondente especial de Newsweek/The Daily Beast e colaborador de The American Prospect e de The New York Review of Books. Estudou Ciências Políticas na Universidade de Nova Iorque. É autor de Left for Dead: The Life, Death, and Possible Resurrection of Progressive Politics in America (1996), e de Hillary’s Turn: Inside Her Improbable, Victorious Senate Campaign (2001).

 

 

 

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