Pandemia Covid e as Crianças – 3. “Uma pequena negligência pode dar origem a grandes males”, por Robert Williamson

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

3. “Uma pequena negligência pode dar origem a grandes males”

A reflexão sobre as suas profundas raízes mostra-nos que somos tão fortes quanto o é o nosso elo causal mais fraco

 

 Por Robert Williamson

Publicado por  em 2008 (ver aqui)

 

“For want of a nail, the shoe was lost.

For want of a shoe, the horse was lost.

For want of a horse, the rider was lost.

For want of a rider, the battle was lost.

For want of a battle, the kingdom was lost,

And all for the want of a horseshoe nail.”

 

“Por falta de um prego, a ferradura perdeu-se.

Por falta de uma ferradura, o cavalo perdeu-se.

Por falta de um cavalo, o cavaleiro perdeu-se.

Por falta de um cavaleiro, a batalha perdeu-se

Por falta de uma batalha, o reino perdeu-se,

E tudo pela falta de um prego numa ferradura”.

 

Benjamin Franklin incluiu uma versão deste provérbio, precedida pelas palavras “Uma pequena negligência pode gerar grandes males”, em Poor Richard’s Almanack em 1758, quando as colónias americanas estavam em disputa com o Parlamento inglês. Durante a Segunda Guerra Mundial, este provérbio foi emoldurado e pendurado na parede da Sede de Abastecimento Anglo-Americano em Londres para lembrar a todos a importância de peças de reparação aparentemente triviais e a reposição de inventários.

Como lição quanto às capacidades de resposta para as questões atuais, estou a utilizar por empréstimo este antigo provérbio, que remonta ao ano de 1390 e tem sido utilizado por uma variedade de fontes [1], desde Benjamin Franklin e rimas infantis até aos filósofos e poetas, todos os quais comunicaram a mesma intenção: Somos apenas tão fortes como o é o nosso elo mais fraco.

É altamente improvável que alguém alguma vez tenha pensado, ao ver o seu cavalo sem uma ferradura, que o reino acabaria por cair por causa de um prego em falta numa das suas ferraduras. No calor da batalha, muito poucas pessoas notariam sequer o trabalho do “humilde ferreiro” apressado a ferrar cavalos. Poucos apreciariam o valor de uma ferradura devidamente ajustada, fixada com pregos quando o cavalo está em pleno galope, exceto o ferrador. No entanto, quando a catástrofe acontece, um recuo de 20 anos dá-nos a visão de forma muito mais clara da importância que assume o prego bem ou mal colocado na ferradura ou mesmo a falta dele e a culpa é do ferrador.

Há exemplos históricos da vida real da verdade que está por detrás deste provérbio. Considerem isto: No dia mais sangrento da história americana – 17 de Setembro de 1862 – a Batalha de Guerra Civil de Sharpsburg (também conhecida como Antietam) resultou em quase 23.000 mortos. Depois de atravessar o rio Potomac para Maryland em 9 de Setembro de 1862, o General Confederado Robert E. Lee dividiu o Exército de 45.000 homens da Virgínia do Norte e especificou a localização de cada grupo em despachos escritos (Ordem Especial nº 191) para entrega aos vários comandantes. Estes despachos foram entregues por mensageiros a cavalo aos respetivos comandantes, exceto um que foi acidentalmente deixado cair do bolso do mensageiro quando este parou no caminho para satisfazer as suas necessidades. Infelizmente para o General Lee, este despacho foi encontrado por um soldado da União apenas alguns dias depois, num envelope enrolado à volta de três charutos perto de uma cerca. Este despacho secreto extraviado chegou ao Comandante do Exército da União, George B. McClellan, dando-lhe a ele e ao seu exército de 90.000 homens a localização exata do seu inimigo, conduzindo a uma vitória estratégica da União… pela falta de um cavaleiro…, pela falta de uma mensagem.

É importante lembrar que este tipo de reflexão sobre as causas profundas é tipicamente visto a posteriori. É altamente improvável que alguém tivesse podido prevenir que os charutos num envelope de mensagem teriam levado a planos militares frustrados e à perda de uma batalha de Guerra Civil.

Os pregos de ferradura não se colocam por si-mesmos, por isso vamos voltar ao provérbio original e explorar o que se terá passado nos dias anteriores ao evento do “prego” ser colocado na ferradura. (As minhas desculpas a Ben Franklin e a outros antes dele).

Por falta de um aprendiz, o ferreiro perdeu-se.

Por falta de um ferreiro, a oficina de ferrador perdeu-se.

Por falta de uma oficina, o martelo perdeu-se.

Por falta de um martelo, o prego perdeu-se.

Por falta de um prego, a ferradura perdeu-se.

Por falta de ferradura, o cavalo perdeu-se.

Por falta de cavalo, o cavaleiro perdeu-se.

Por falta de um cavaleiro, a mensagem perdeu-se.

Por falta de uma mensagem, a batalha perdeu-se .

Por falta de ganhar uma batalha, a guerra perdeu-se .

Por falta de ganhar a guerra, o reino perdeu-se,

Tudo isto pela falta de um aprendiz.

A questão que aqui deve ser salientada é que embora o prego seja verdadeiramente importante, o aprendiz que está em formação para aprender a ferrar corretamente o cavalo com todas as competências e conhecimentos de um ferreiro é de longe o elemento mais importante de um sucesso sustentável. O sucesso do reino reside nos aprendizes em formação! Pense nesta questão um pouco mais a fundo… no que está antes do aprendiz. E se a sociedade nos tempos dos guerreiros montados a cavalo não valorizava o trabalho dos ferreiros “humildes” e a geração mais jovem já não era encorajada a tornar-se mais capaz na atividade de ferreiro ? Como é que os cavalos seriam devidamente ferrados? Poderiam os cavalos desempenhar as suas tarefas com ferraduras mal adaptadas, com pregos mal postos ou mesmo com falta de alguns deles? Será que os cavaleiros em batalha se perderiam? O significado mais profundo deste provérbio é este: O resultado final depende inteiramente da capacidade funcional de cada componente, de cada elemento ou preparação. Um processo é apenas tão forte e fiável como o seu elo mais fraco.

Este provérbio tem um significado poderoso no mundo empresarial de hoje. A maioria das pessoas hoje reconhece que o objetivo de qualquer empresa mecanizada e intensiva em capital é a entrega consistente e segura de bens ou serviços altamente valorizados aos clientes, ao menor custo e ao máximo lucro possível. Sem equipamento e processos fiáveis, a vantagem competitiva perde-se, qualquer que seja o tipo de atividade empresarial considerada no que se refere ao capital intensivo. Assim, analisemos este ancestral provérbio alargado e vejamos então como ele se enquadra no sistema produtivo atual em termos de manutenção e de fiabilidade.

O aprendiz representa um estudante empenhado, jovem, motivado e capaz – o assistente e o estagiário. O ferreiro, bem mais velho, representa um mecânico ou técnico qualificado que também mantém a oficina como um local de trabalho bem organizado e bem munido do material necessário à sua atividade. O martelo representa as ferramentas adequadas utilizadas durante o trabalho com o prego, um parafuso que mantém o motor em alinhamento. A ferradura representa o motor de uma bomba crítica. O cavalo representa a máquina ou unidade de equipamento, e o cavaleiro representa a linha de produção ou o processo de fabrico sob controlo. Depois, a mensagem (ou declaração de missão: produzir a tempo, com alta qualidade, com baixo custo…) guia-nos para o sucesso numa batalha por entregas atempadas aos clientes. A guerra em que a maioria das nossas atividades empresariais se encontra é pela quota de mercado. E, claro, o reino é o atividade  da empresa que apoia investidores e empregados e beneficia a comunidade. Portanto, aqui está a antítese moderna do provérbio do prego na ferradura que vem dos séculos passados:

Como era um aprendiz, o seu companheiro mecânico era altamente qualificado. Graças a este mecânico altamente especializado, a oficina era também eficiente, bem organizada e bem equipada.

Por causa da oficina ser eficiente, bem organizada e abastecida, havia sempre ferramentas e peças disponíveis.

Por causa da existência de ferramentas e peças, os parafusos foram apertados pelo mecânico altamente qualificado.

Por causa dos parafusos bem apertados, o motor foi alinhado.

Por causa do motor alinhado, o equipamento permaneceu fiável.

Por causa do equipamento fiável, o processo de produção foi eficaz.

Por causa do processo de produção ser eficaz, a missão é possível.

Por causa do compromisso partilhado com a missão, as entregas ao cliente foram realizadas a tempo.

Por causa das entregas pontuais aos clientes, a empresa aumentou a sua quota de mercado.

Por causa de ter ganho quota de mercado a empresa aumentou os seus lucros

Tudo por causa do aprendiz.

 

A verdade é que temos descuidado o encorajar das gerações mais jovens de hoje em dia na procura ativa e deliberada de aquisição de competências e conhecimentos aplicáveis em carreiras essenciais para a criação ou para a manutenção e ou viabilização dos processos produtivos de que a sociedade precisa. De facto, a maioria dos professores, conselheiros, pais e estudantes não têm ideia de quão gratificantes e financeiramente estimulantes poderiam ser as carreiras em manutenção industrial e fiabilidade com um a dois anos de formação técnica adequada que se seguiria à finalização do ensino secundário. Consequentemente, devido a esse descuido, as aulas de oficina, artes industriais, educação profissional, e aulas de preparação para a carreira são poucas e distantes nas escolas públicas do nosso país – um reino em risco!

Para destacar o agravamento da desarticulação da educação profissional que começou nos anos 60, partilharei uma das minhas citações favoritas e altamente apropriadas de John W. Gardner, detentor da Medalha Presidencial da Liberdade de 1964, como um ponto para reflexão:

A sociedade que despreza a excelência no trabalho dos canalizadores como uma atividade humilde e que tolera a mediocridade da filosofia [ou da política] porque é uma atividade exaltada não terá nem bons canalizadores nem uma boa filosofia [ou política]. Nem as suas canalizações nem as suas teorias irão resistir à dureza do tempo.

E por último, outra das memoráveis citações de Gardner de há mais de 40 anos:

Hoje em dia, muita educação é monumentalmente ineficaz. Com demasiada frequência, estamos a dar flores já cortadas aos jovens quando deveríamos estar a ensiná-los a cultivar as suas próprias plantas.

 

Devemos fazer tudo o que pudermos para ajudar a nossa juventude, os nossos executivos, os nossos líderes, os nossos educadores, os nossos políticos, e as nossas agências governamentais a perceberem o caminho sem saída que a nossa nação está a percorrer.

As empresas de capital intensivo geram verdadeiramente riqueza original e são um dos blocos de construção mais críticos da economia da nossa nação. A garantia da capacidade de produzir eficientemente e eficazmente depende do equipamento. O equipamento fiável depende do nosso pessoal – aplicando as suas competências e os seus conhecimentos – fazendo as coisas bem feitas desde a primeira vez.

Por causa da falta de um prego, o reino foi perdido. Pela falta de um aprendiz, perde-se toda uma indústria, [por causa de uma indústria perde-se uma nação].

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Nota

[1] N.T. Segundo a Wikipedia, podem encontrar-se referências a este provérbio, sob diversas formas, desde o século 13 (aqui).

 

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O autor: Robert Williamson é consultor, dono da Strategic Work Systems, Inc., autor premiado, e educador de Sistemas Estratégicos de Trabalho para a produção moderna. Os seus 30 anos de experiência com o lado humano das operações de fabrico e melhoramento da manutenção abrangem bem mais de 250 empresas e instalações fabris nos Estados Unidos, Jamaica, Canadá, América do Sul e Arábia Saudita. Durante mais de uma década estudou as corridas NASCAR como modelo para melhorar a forma como as pessoas trabalham em conjunto e concentrar-se na melhoria do desempenho do equipamento.

Foi eleito para a Câmara Municipal de Columbus (Carolina do Norte) em Novembro de 2017.

Três anos de trabalho com o governo local começaram com o desenvolvimento da nova Política de Desenvolvimento Económico e Plano Estratégico do Condado de Polk (NC) (Outubro de 2013 a Agosto de 2014), e depois, estabelecendo muitos novos processos de trabalho de desenvolvimento económico regional e do condado. Este pequeno condado encontra-se no novo caminho para a prosperidade económica, dada a sua qualidade de vida, a proximidade a economias em crescimento, o novo Centro Equestre Internacional de Tryon, e os Jogos Equestres Mundiais previstos para a Primavera de Moinho em 2018. Consultoria com o desenvolvimento de iniciativas estratégicas da indústria transformadora e de processos de produção: Novas tecnologias, mudanças geracionais no local de trabalho, e um mercado global dinâmico, melhoria da fiabilidade tanto dos bens físicos como humanos nas empresas norte-americanas.

Para além de consultoria, ensino e apresentações de conferências, escreve a coluna Uptime para a revista MAINTENANCE TECHNOLOGY, agora no seu 30º ano (2017) (ver artigos em http://www.maintenancetechnology.com)

O estudo das corridas de NASCAR nos bastidores desde o início dos anos 90 e das tripulações das boxes desde 2005 tem proporcionado conhecimentos significativos que funcionarão na indústria. Melhorar o desempenho e a fiabilidade é muito MAIS do que implementar programas e iniciativas. A sua busca de 100% de fiabilidade oferece enormes benefícios para a Manutenção Produtiva Total (TPM) e PAS-55 e para o desenvolvimento e implementação da proposta ISO-55000 Asset Management – especialmente as mudanças culturais necessárias.

Especializado em: Desenvolvimento de culturas de trabalho baseadas no desempenho e na fiabilidade no fabrico, mineração, aeroespacial, exploração e produção de petróleo e gás.

É licenciado em Formação de Professores de Tecnologia de Comércio pela Universidade Ferris State e pós-graduado em Administração de Ensino Técnico Profissional pela universidade de Michigan.

 

 

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