A propósito da divulgação de um texto de Victor Hill sobre a COP26: Uma incursão sobre a problemática esquerda, direita – “Obama, o pretendente”, por Ryan Cooper

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Obama, o pretendente

Obama não era um defensor moderado das normas. Ele era um cobarde.

 

 Por Ryan Cooper

Publicado por  em 24 de Novembro de 2020 (original aqui)

 

Illustratação | Getty Images

 

Como socialista, tenho uma confissão a fazer: Em 2008, fui voluntário de campanha para Barack Obama. Apoiei-o sobre Hillary Clinton nas primárias democráticas desse ano pela razão óbvia – ela tinha apoiado a Guerra do Iraque, e ele não – mas trabalhei para ele porque li o seu livro de 1995 Dreams from My Father. Pareceu-me ser um excelente escritor e uma pessoa invulgarmente profunda, especialmente para um político. Talvez ele não fosse capaz de resolver todos os problemas, mas certamente tentaria, e pelo menos seria uma lufada de ar fresco. Finalmente, alguém em quem votar em vez de escolher o mal menor com os dentes cerrados – e com as massivas maiorias democráticas no Congresso que se seguiram à sua eleição, poucas coisas se interpuseram no seu caminho.

Doze anos depois daquele episódio menor de andar a bater à porta e de fazer de banco telefónico na zona rural do Colorado, parece cada vez mais possível que o período subsequente de dois anos, de 2009-2010, seja a última vez que o Partido Democrata controla tanto a presidência como as duas casas do Congresso, o Senado e a Câmara dos Representantes. Os Democratas terão de ganhar duas eleições em Janeiro na Geórgia para poderem controlar um Senado empatado no próximo ano, e se não o fizerem, um futuro de redefinição e manipulação de circunscrições eleitorais cada vez mais extremo e de supressão judicial de votos poderá tornar impossível aos Democratas voltarem a ganhar.

O que é que correu mal? Obama tenta enfrentar os fracassos múltiplos da sua presidência em A Promise Land, as suas novas memórias que descrevem a sua ascensão ao poder e os primeiros anos da sua presidência, mas, em última análise, o livro é escorregadio e pouco convincente. A América anda às voltas com discursos políticos desagradáveis e indecentes, de autêntica cloaca, em parte porque Obama teve a oportunidade de resolver muitos problemas antigos e não esteve à altura da ocasião, um facto que o antigo presidente continua teimosamente a não querer ver ou incapaz de ver.

Uma Terra Prometida é um livro de loucura. Por um lado, a graciosa eloquência de Obama está lá (embora um pouco mais forçada do que em Dreams), e as suas discussões sobre a sua vida familiar e as suas relações com os seus colaboradores mais próximos são genuinamente calorosas. Ao contrário de praticamente todos os livros escritos pelos políticos, esta é obviamente a sua própria obra. Uma e outra vez Obama apregoa um pouco de história ou política com um toque firme e confiante – sobre a cómica mas alarmante ascensão de Sarah Palin, sobre as origens acidentais e a história racista da regra do fecho de debate, também dita de obstrução, no Senado (filibuster) ou mesmo sobre as bases da economia keynesiana.

Mas, por outro lado, Obama noutros lugares evoca uma ingenuidade política e uma passividade que ronda o incompreensível. A bem da brevidade, permitam-me abordar apenas as três decisões políticas mais importantes da sua presidência: o resgate de bancos de 2008, o estímulo da Lei de Recuperação de 2009, e a sua política de execução de hipotecas.

O plano de resgate dos bancos, ou Troubled Asset Relief Package (TARP), foi aprovado antes da tomada de posse de Obama, mas ele ainda foi fundamental na sua aprovação. Nessa altura, o Presidente Bush era enormemente impopular e tinha-se retirado em grande medida da governação, e o Secretário do Tesouro Hank Paulson tinha assumido a liderança na abordagem da crise financeira. Desesperado por obter apoio político e isolado no seu próprio partido, que mesmo então sucumbia à loucura conspiratória que ainda hoje mantém, Paulson recorreu a Obama e aos Democratas para obter ajuda através do Congresso, uma vez que os Democratas controlavam ambas as câmaras.

Obama apresenta uma síntese bastante preciso sobre a forma como a crise aconteceu, e de facto menciona que tinha sentido na pele como é que os bancos tinham sido irresponsáveis durante os anos da bolha financeira. Obama obteve um empréstimo para aquisição de habitação sem qualquer inspeção e “comigo a fornecer apenas três meses de recibos de pagamento e um punhado de extratos bancários”, observa ele. Também observa corretamente que os Republicanos eram hipócritas ridículos por criticarem o pacote TARP quando as suas próprias políticas favoritas de desregulamentação tinham em grande parte ajudado a criar a crise.

No entanto, por ele próprio admitiu, Obama era absurdamente crédulo em relação a Paulson – que era, deixem-me sublinhá-lo, um Republicano de toda a vida e o antigo chefe da infame firma de Wall Street, o banco de investimento Goldman Sachs – quando este veio pedir ajuda. Obama limitou-se a concordar alegremente com o plano de Paulson, que naturalmente, dado o seu passado e a sua política, era basicamente o que os bancos teriam escrito para si próprios – um enorme cheque em branco. “Com problemas tão graves, eu faria o que fosse necessário, qualquer que seja a política, para ajudar a administração a estabilizar a situação”, escreve Obama. “Se eu queria ser presidente, disse a mim mesmo, precisava de agir como tal”.

Aparentemente, nunca ocorreu a Obama que uma abordagem responsável da crise teria exigido que fizesse política em vez de agir de forma magnânima para com um banqueiro conservador de Wall Street. Obama também não considerou a ideia de que poderia ter usado a sua influência para melhorar a ajuda de resgate, porque os Democratas tinham a maioria dos votos. Reed Hundt, um antigo coletor de fundos de Obama levou o economista da Administração, Austan Goolsbee, a admitir  no seu livro A Crisis Wasted, que poderiam ter conseguido mais concessões. “Poderíamos ter forçado mais reduções nas execuções de hipotecas. Podíamos ter imposto condições mais rigorosas à distribuição de dividendos e às compensações aos executivos”, disse Goolsbee. Eles apenas pensaram que seria irresponsável usar essa influência para extrair concessões.

Na realidade, foi irresponsável não utilizar esta oportunidade única para reduzir a rentabilidade dos bancos e, portanto, reduzir a medida do seu poder, para que o sistema bancário pudesse ser reestruturado em vez de ser apenas remendado. Como já argumentei longamente, isto teria sido mais justo e melhor em todo o fundo do problema, porque teria permitido que todas as más dívidas habitacionais fossem eliminadas através da nacionalização e da falência, em vez de ter de dependerem de créditos enormes e impopulares (a seguir, falaremos um pouco mais sobre este tema)

Páginas à frente, Obama queixa-se amargamente de que os vigaristas de Wall Street estavam todos a pagarem-se a si próprios enormes bónus como recompensa por se terem feito explodir a eles mesmos e à economia, tudo isto enquanto ainda chupavam das tetas do governo, e depois queixavam-se quando eram criticados levemente por estarem o fazê-lo.  Tem-se vontade de saltar estas páginas e atirar o livro ao chão. O que esperava Obama desta gente?

Uma dinâmica semelhante mantém-se na secção de estímulos do livro. Obama dá uma explicação lúcida de como o colapso financeiro tinha prejudicado a economia, e como esta poderia ser corrigida com estímulos: “Uma vez que a retoma da economia fosse iniciada, o governo poderia então fechar a torneira e recuperar o seu dinheiro graças ao aumento das receitas fiscais resultantes do relançamento da economia”. Ele observa também que se o governo não interviesse para deter o ciclo de colapso, os Democratas seriam responsabilizados por ele, na qualidade de governo.

No entanto, a discussão sobre o tamanho do estímulo é tratado em apenas algumas frases. Quando a conselheira económica Christina Romer mencionou numa reunião inicial que provavelmente deveria ser mais de um milhão de milhões de dólares, o Chefe de Gabinete da Casa Branca Rahm Emanuel – que Obama persuadiu pessoalmente a aceitar o cargo – imediatamente retorquiu que isso era impossível. “Esse valor está fora de questão”, disse Emanuel, afirmando que o público em geral e os Democratas conservadores não iriam tolerar um número tão grande. O máximo que eles conseguiriam obter era: “sete, talvez oitocentos mil milhões, no máximo… e  mesmo isto já é muito “. Joe Biden acenou com a cabeça, e aparentemente esse foi o fim da conversa.

Qualquer que seja a razão que se possa escolher, esta foi uma decisão política extremamente má, que autenticamente derrete o cérebro. Aqui temos o determinante mais importante do sucesso futuro de Obama e do seu partido – a força da economia – e eles nem sequer tentaram tornar o estímulo tão grande como o buraco que era suposto preencher, muito menos incluir uma margem de erro no caso de os dados económicos estarem a subestimar a dimensão do colapso (foi subestimado e em muito). Em vez disso, dois tipos fizeram conjeturas  sobre o que poderia ser conseguido através do Congresso, e foi isso. O conselheiro David Axelrod previu mesmo sombriamente que depois levariam uma banhada nas próximas eleições intercalares. O quê?

No entanto, Obama passou por cima de inúmeros detalhes importantes sobre este debate. Acontece que Larry Summers, a sua escolha para liderar o Conselho de Conselheiros Económicos, já tinha impedido Romer de apresentar a sua recomendação de estímulo real, que era cerca de $1,8 milhões de milhões de dólares. Hundt conta no seu livro que várias pessoas (incluindo ele próprio) tentaram convencer a Administração de várias ideias astuciosas que teriam reforçado o efeito de relançamento da economia sem aumentar os custos. Poderiam ter iniciado um banco de infraestruturas verdes que poderia emprestar 10 dólares por cada dólar levantado pelo banco nos mercados ou ainda ter atuado na base da janela orçamental de 10 anos, incluindo aumentos de impostos que só entrariam em vigor anos mais tarde, ou poderiam ter refinanciado a dívida estatal e local com a taxa de juro de base do governo federal. A equipa de Obama rejeitou abertamente todas estas ideias.

Além disso, muitos desses Democratas conservadores de que Emanuel se queixava (a maioria dos quais perderia os seus lugares na onda republicana de 2010) tinham sido lá colocados pelo próprio Emanuel. Como Ryan Grim detalha no seu livro We’ve Got People, como chefe do Comité da Campanha Democrata do Congresso em 2005-6, Emanuel escolheu a dedo os candidatos conservadores para as circunscrições eleitorais chave e tentou impedir que os progressistas ganhassem as eleições primárias. Depois tentou criar uma profecia autorrealizável de que só os conservadores poderiam ganhar esbanjando neles o dinheiro e excluindo os progressistas. Mas na realidade, foi apenas um grande ano para os Democratas, porque Bush era tão impopular, e Emanuel poderia ter conseguido mais lugares se tivesse estado disposto a apoiar os progressistas – muitos dos seus favoritos perderam, enquanto outros progressistas ganharam, apesar de campanhas pouco convincentes, e outros ganharam com muita dificuldade. Emanuel era o tipo que Obama aparentemente pensava não poder dispensar.

Em suma, o Partido Democrata como um todo tinha estado a criar enormes bloqueios ao seu próprio sucesso, apontando depois esses bloqueios como uma razão pela qual não podia fazer nada.

Mas mesmo isso não explica as diferentes abordagens de Obama ao salvamento da banca e ao estímulo à economia. No primeiro caso, quando Paulson disse que precisava de um cheque em branco de 700 mil milhões de dólares para refinanciar os bancos, Obama fez duramente pressão sobre o Congresso para obter os votos a seu favor – argumentando junto dos Democratas céticos que haveria uma depressão se Paulson não conseguisse o que queria. Depois, quando esse projeto de lei falhou, o colapso do mercado que daí resultou proporcionou uma alavancagem suficiente para fazer passar uma versão modificada.

Mas quando se tratou do estímulo – cuja dimensão insuficiente criou de facto uma depressão moderada durante quase toda a presidência de Obama – os membros da administração não se entendiam no interior do Partido antes mesmo de levarem qualquer coisa ao Congresso. Obama não tentou convencer os Democratas moderados, ou o público, ou a imprensa, de que ficar aquém das expectativas levaria ao desastre económico, ou que era completamente absurdo opor-se a um projeto de lei simplesmente porque “wahh, o número em jogo é demasiado grande”. (Por exemplo, a perceção de uma crise grave colocou tanto o público como os democratas moderados por detrás da Lei CARES multi-milhões de milhões de dólares, em Março). Nem sequer ameaçou replicar o cenário TARP – vetando qualquer coisa que ficasse aquém do que era necessário para o relançamento sustentado da economia e depois utilizar a reação dos mercados e os indicadores económicos para intimidar o Congresso a ir em frente e em grande.

Isso leva-me finalmente à política de execução das hipotecas. Aqui, o livro de Obama é um livro enganador. Ele diz que os seus dois principais programas, Home Assistance Mortgage Program (HAMP) e o  Home Affordable Refinance Program (HARP)” reduziriam os pagamentos mensais da hipoteca dos proprietários elegíveis a um máximo de 31% dos seus rendimentos”, e “ajudariam os mutuários a refinanciar a sua hipoteca a taxas mais baixas, mesmo que as suas casas estivessem subcapitalizadas”, respetivamente. A aplicação destas medidas seria sujeita a fortes condições de recursos, mas o “objetivo era visar vários milhões de famílias que se encontravam no limite: aquelas que viviam nas suas casas e tinham feito o que na altura parecia ser uma compra responsável, mas que agora precisavam de apoio para saírem da situação dramática que estavam a viver”. escreve ele.

Ou Obama não tem ideia de como os seus programas de habitação funcionavam realmente, ou está a mentir com todos os dentes que tem na boca . Como anteriormente expliquei em detalhe, o que a política de habitação de Obama realmente fez foi transferir furtivamente as enormes perdas hipotecárias subprime dos bancos para o governo e para os proprietários das casas. As duas principais estratégias, executadas pelo Secretário do Tesouro Timothy Geithner, foram parar uma reforma legal que permitiria  às pessoas depreciar o valor da sua hipoteca para o valor real da casa em situação de falência (ou “cramdown”), e de não incluir quaisquer reduções do principal da hipoteca no programa HAMP (Home Affordable Modification Program), apesar de este ser o apoio mais eficaz para os proprietários da casa e explicitamente autorizado no resgate dos bancos. Não por acaso, o programa era de tal maneira um pesadelo tão Kafkiano que muitos que dele precisariam não participaram, e aqueles que participaram foram muitas vezes enganados e levados à execução hipotecária pelos detentores corruptos de créditos hipotecários (que ficaram em grande parte impunes).

Esta estratégia emergiu naturalmente do fracasso original do pacote TARP em lidar com a má dívida. Autorizar as declarações de falência ou as reduções de capital teria permitido deixar passar uma enorme quantidade de anulações de dívida que teria feito um grande buraco nos balanços dos bancos. As execuções hipotecárias fariam uma coisa semelhante, mas apenas lentamente – e muitas pessoas que estavam debaixo de água sobre as suas hipotecas continuariam a pagar-lhes se tivessem dinheiro para isso. Basicamente, a Administração convenceu-se de que os bancos não podiam suportar as perdas, e temiam que a Fox News levantasse um  escândalo sobre o resgate dos proprietários das casas, pelo que deixaram cerca de 10 milhões de pessoas serem expulsas das suas casas e muitos mais ficaram obrigados a pagar hipotecas inflacionadas até aos anos 2030.

Mais uma vez, temos citações de pessoas bem informadas na matéria a admitir e a confirmar esta realidade. O objetivo de tudo isto era “encher de espuma a pista de aterragem” para os bancos, disse Geithner a Elizabeth Warren –  espalhando no tempo as execuções hipotecárias em vez de as impedir. Havia “750 mil milhões de dólares de capital negativo em habitação – o montante que as hipotecas excediam o valor das casas”. Alguém teria de comer esse dinheiro”. De certeza que os bancos não podiam aceitar 750 mil milhões de dólares de perdas e de certeza que o governo não estava disposto a dar 750 mil milhões de dólares em subsídios aos proprietários de casas em situação de não poderem arcar com os custos, para não dizer nada sobre a raiva que iria gerar entre os proprietários de casas que não estavam em situação de falência “, disse Goolsbee a Hundt.

Pior ainda, Obama nem sequer menciona o escândalo da falsificação de documentos sobre hipotecas, (em inglês robosigning). Verificou-se que os bancos tinham falsificado praticamente todos os seus documentos durante o período da bolha especulativa e, por isso, quando chegou a altura de executar a hipoteca de alguém, eles não tinham os documentos certos. Assim, eles simplesmente falsificaram-nos aos milhões. Os bancos dispuseram de andares inteiros cheios de pessoas a cometerem fraude documental centenas de vezes por dia – mas em vez de usar essa situação  para obter uma verdadeira ajuda aos proprietários das casas, o Departamento de Justiça de Obama, em vez disso, deixou sair os bancos com uma multa modesta, aparentemente por medo de que os processos judiciais causassem instabilidade financeira.

É difícil saber o que fazer ou dizer de tudo isto. Definitivamente, Obama está a ser desonesto, quer com o leitor, quer consigo próprio, em alguns casos. O seu historial sobre execuções hipotecárias é tão horrível que não pode ser defendido pelos seus méritos. Foi moralmente abominável e politicamente idiota.

Mas, em última análise, existe aqui um verdadeiro problema de ideologia. Obama e todos os seus funcionários superiores representaram o culminar da tradição neoliberal no Partido Democrata, que defende que o mercado auto-regulador deve governar a sociedade. Porque isto é impossível, a solução então equivale a dizer que a governação deve ser ousada e agressiva se e só se estiver a proteger as instituições do mercado. Uma crise financeira significa que os bancos devem receber um cheque em branco e enfrentar poucas ou nenhumas consequências, mesmo quando cometem crimes à escala industrial, mas um pacote de estímulos à economia deve ser pequeno e tímido. A reforma dos cuidados de saúde deveria ser hesitante e funcionar através de estruturas de mercado. O bem-estar social deveria idealmente acontecer através de créditos fiscais invisíveis que exigem que as pessoas trabalhem para os obter.

Quando se trata de governar em nome do povo, portanto, os Democratas moderados como Obama tentam fazer o mínimo possível. Como argumenta o especialista em infraestruturas Alon Levy, a maioria dos Presidentes de Câmara e governantes democratas demonstram uma “total indisponibilidade para fazer qualquer coisa”, porque “ser um moderado nos Estados Unidos significa ser extremamente tímido e tecnologicamente conservador”. Como Hundt escreve, “Obama podia fazer quase tudo o que quisesse sobre a crise. Os seus conselheiros sofriam de um arrebatador desconforto com esse poder”.

Esta timidez surge na discussão de A Promised Land sobre o início do New Deal de Franklin Roosevelt. Obama repete a mentira conservadora de que quando se verificou um pânico bancário durante o Inverno de 1932-33, “FDR fez questão de rejeitar os esforços de Hoover para conseguir a sua ajuda”, de modo a poder culpar Hoover pela gravidade da situação. Afirma também que a economia voltou a crescer nos meses que se seguiram à tomada de posse de FDR apenas graças a um “golpe de sorte”, porque ele ainda não tinha posto em prática quaisquer políticas.

Como o historiador Eric Rauchway prova cuidadosamente, isto é história do lixo. A verdade é exatamente o oposto – foi Hoover quem tentou explorar o pânico bancário para levar FDR a abandonar o New Deal, e, inversamente, a restauração do crescimento foi graças aos movimentos rápidos de Roosevelt para reparar os bancos e reformar a moeda, que começaram poucos dias depois de tomar o poder. Mas é possível compreender porque é que alguém que está de tal modo convencido de que é quase impossível fazer alguma coisa se apoderava da narrativa de que Roosevelt era um cínico sortudo.

Tudo isto destrói a autojustificação de Obama como sendo demasiado respeitosa das normas e tradições para tomar medidas sérias. Ele considera e rejeita algumas das opções mais radicais acima, argumentando que coisas como “nacionalização dos bancos, ou alargamento das definições dos estatutos criminais para processar os executivos bancários … teria exigido uma violência à ordem social, uma dilaceração das normas políticas e económicas, que quase certamente teria piorado as coisas”.

Na verdade, deixar 10 milhões de pessoas serem expulsas das suas casas para salvar um bando de banqueiros ricos dos seus próprios erros, isso constituiu uma violência estupenda para a ordem social. Deixar os banqueiros escapar com uma linha de montagem de produção de fraude documental foi uma severa quebra de normas políticas e económicas. Não teria sido uma “extensão” dos estatutos processar os milhares de crimes de Wall Street – pelo contrário, deixar os bancos sair com multas irrisórias criou um buraco no Estado de direito. Não preserva as nossas santas normas e instituições estar a querer mover o céu e a terra para salvar os parasitas financeiros assassinos de empregos e depois deixar John Q. (o desesperado [1]) proprietário de casa a torcer-se ao vento e ao frio. A falsa afirmação de que fazê-lo teria piorado as coisas é diretamente a Retórica da Reação.

Ainda estamos a pagar pelo falhanço de Obama na sua tarefa mais importante. Um Partido Republicano cada vez mais lunático aproveitou-se desse fracasso para tomar o controlo do Congresso, e acabou por eleger Donald Trump, que está atualmente a tentar anular a eleição que perdeu. Certamente parece pouco provável que o vice presidente de Obama, Joe Biden, vá tolerar a ação extrema agora necessária para preservar a democracia americana.

Obama teve uma oportunidade de ouro para voltar a unir o país após uma desastrosa presidência republicana e um breve momento de impotência de Wall Street. Não o fez porque não conseguia suportar a acção radical que era necessária para curar as feridas da nação e reparar o contrato social, e em vez disso inventou muitas desculpas para ficar de braços cruzados e nada fazer.

O nome para qualificar uma pessoa assim é cobarde.

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Nota

[1] N.T. Referência ao protagonista do filme drama John Q., um pai e marido a cujo filho é diagnosticado um coração dilatado e que descobre que não pode receber um transplante porque o seguro HMO não o cobre, e por isso decide assaltar o hospital e forcá-los a fazer o transplante (ver Wikipedia aqui).


O autor: Ryan Cooper é correspondente nacional em TheWeek desde 2014. O seu trabalho tem aparecido no Washington Monthly, The New Republic, e no Washington Post. É licenciado em Química pelo Reed College.

 

 

 

 

 

 

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