Ainda os Planos de Recuperação e Resiliência da União Europeia e dos Estados Unidos no contexto das Democracias em perigo: 6ª parte – Acompanhando o decurso da batalha entre democratas e republicanos nos Estados Unidos – 6.2. “Manchin e Sinema podem estar a condenar os Democratas em 2022”. Por Harold Meyerson

 

Nota de editor:

Dissemos em Outubro passado, ao apresentar a 5ª parte desta série:

“A batalha em curso nos Estados Unidos mantém em suspense o resultado que sairá da luta entre os apoiam os planos de Biden (a maioria do partido democrata) e aqueles que os querem ver fracassar (os republicanos e alguns democratas). De entre estes últimos, salientam-se Dianne Feinstein, Kyrsten Sinema e Joe Manchin. Tendo em conta a margem estreita de que goza Joe Biden, corre-se o risco do programa de Biden-Sanders ficar prisioneiro destes senadores altamente comprometidos com o capital financeiro, com Wall Street, pelo que iremos assistir em Washington a uma intensa batalha a dois níveis, entre Republicanos e Democratas e entre Democratas Progressistas e Democratas conservadores. A estes senadores e fora do plano da decisão política juntam-se as manobras do establishment político conservador dos democratas, entre os quais estão homens de peso como Larry Summers, Jason Furman, homens que foram pilares das políticas de compromisso desenhadas por Clinton e Obama e que eleitoralmente levaram à vitória de Trump e dificultaram a vitória de Joe Biden.

Iremos pois assistir a uma batalha de grande importância para os Estados Unidos e para o mundo, batalha esta que procuraremos acompanhar de perto.

Dado o clima de incerteza existente neste momento quanto ao desfecho dessa batalha, com esta 5ª parte manteremos esta série em aberto para acolher notícias sobre a evolução que ocorrerá. “

Enquanto os democratas de matriz conservadora e neoliberal, na racionalidade que lhes é própria, fazem campanha contra os programas de recuperação de Biden, como é o caso de Summers e outros, enquanto senadores como Joe Manchin, Sinema e Feinstein bloqueiam as iniciativas da esquerda democrata no Senado, impondo cortes sobre cortes e abrindo caminho a uma vitória de Trump nas eleições intercalares, o mercado financeiro na “racionalidade” que lhe é própria, começa a preparar a estrutura financeira para alimentar a campanha que poderá levar de novo Trump à Casa Branca.

Na 6ª parte desta série (que permanecerá em aberto), apresentamos textos sobre a luta que decorre neste momento no Capitólio dos Estados Unidos e fora dele, entre Democratas e Republicanos, e também no seio dos próprios Democratas, como é o caso do projeto de lei Build Back Better aprovado pela Câmara dos Representantes em 19 de Novembro e que agora transita para o Senado.

 


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

6.2. Manchin e Sinema podem estar a condenar os Democratas em 2022

 

 Por Harold Meyerson

Publicado por  em 26 de Outubro de 2021 (Manchin and Sinema May Be Dooming the Democrats in 2022, original aqui)

 

Obrigar Biden a curvar-se às suas exigências enfraquece-o a ele e ao seu partido, nas eleições intercalares

Não tenho conhecimento de nenhuma sondagem que tenha feito a pergunta “Acha que o Presidente Biden está a ser gozado por dois senadores?” mas penso que um grande número de americanos, se questionados, responderiam afirmativamente a esta pergunta. Claro que não é apenas Biden, mas todo o Partido Democrata, de alto a baixo, que está a ser sacudido pelos Senadores Manchin e Sinema-e é todo o Partido Democrata que provavelmente pagará um preço por isto nas eleições intercalares do próximo ano.

Já aqui estivemos antes. Durante os dois anos iniciais da sua presidência, Barack Obama empenhou-se no que na altura parecia ser uma sucessão interminável de negociações com republicanos e senadores democratas centristas sobre a sua proposta de Lei de Cuidados Acessíveis. No final, os republicanos rejeitaram-na categoricamente seja sob que forma fosse, mas talvez a determinação por parte de dois senadores democratas em particular – o presidente do Comité de Finanças Max Baucus de Montana e Joe Lieberman de Connecticut – em fazerem cortes no projeto de lei tenha sido ainda mais problemática. E foi o que se verificou com Obama e os seus colegas democratas a serem forçados a ceder à exigência de Baucus e Lieberman para que não se estabelecesse uma opção pública que pudesse competir com as empresas privadas de seguros de saúde centradas no lucro e a recusarem a cobertura total.

Como escrevi na atual edição impressa do Prospect, o tempo desempenha um papel crucial na avaliação pública das autoridades eleitas e dos seus programas. Um programa que é lento a lançar e lento a fornecer os seus benefícios ao público não costuma beneficiar os seus autores nas eleições que se seguem à sua promulgação. Da mesma forma, um presidente que proclama um programa audacioso, e passa meses a ser compelido a cortar nesse programa devido à resistência obstinada de um punhado de legisladores que têm o controlo sobre o procedimento legislativo da sua aprovação, não sai incólume desse processo. Obama certamente não saiu incólume, embora a sua incapacidade de persuadir alguns renegados nominalmente democratas a apoiar o bem público em detrimento dos seus doadores da indústria seguradora tenha sido apenas uma das razões pelas quais os democratas foram bombardeados nas intercalares de 2010, perdendo ambas as casas do Congresso no processo.

A minha preocupação é que Joe Biden fique preso na mesma dinâmica que atormentou Obama, com as suas sondagens a caírem precipitadamente à medida que os dois renegados democratas, de forma semelhante, estavam cada vez mais sob a influência dos seus doadores (e da economia inumerada) do que no interesse público e passaram a prevalecer sobre o presidente e o resto do partido, ao fazerem recuar uma mudança há muito esperada para melhorar a sorte da maioria dos americanos. De facto, Biden declarou publicamente que com apenas 50 democratas no Senado, um só senador ou, neste caso, dois – têm efetivamente poderes presidenciais. O facto que Manchin tenha obrigado os seus colegas democratas a reduzir para metade as suas propostas (ou se ele não ceder sobre os 1,5 milhões de milhões de dólares, reduzidas assim a três sétimos), e Sinema tenha rejeitado um aumento das taxas de impostos sobre os ricos e as empresas, diminuíram claramente a aparência e a realidade do poder de Biden, quer seja essa a sua intenção ou não.

É certo que há também outros fatores a explicar a erosão do apoio público de Biden, como houve com o de Obama, e há uma possibilidade distinta de que quando os projetos de lei sobre infraestruturas e Build Back Better forem finalmente aprovados, e os seus programas prontamente (uma esperança) implementados, Biden recuperará. Mas tal como Baucus e Lieberman desempenharam um papel no arrastamento para baixo de Obama e na entrega do Congresso aos republicanos, também Manchin e Sinema parecem prontos a ter um efeito similar sobre a destino de Biden e dos seus colegas do Congresso.

Por vezes, a tragédia repete-se como tragédia.

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O autor: Harold Meyerson [1950-] é um jornalista estado-unidense, colunista de opinião e socialista. É editor geral do The American Prospect e foi colunista de opinião do The Washington Post de 2003 até 2015, quando foi despedido por este último. Alguns especulam que o despedimento foi motivado politicamente e relacionado com a época eleitoral de 2016 e a ascensão de Bernie Sanders. Em 2009, o Atlantic Monthly nomeou-o um dos “comentadores mais influentes da nação”, como parte da sua lista “The Atlantic 50”. Filho de líderes de longa data na Califórnia do Partido Socialista da América, foi activo na década de 1970 no Comité Organizador Socialista Democrático. Editor executivo da L.A. Weekly de 1989 a 2001. Os seus artigos  também apareceram no The New Yorker, The Atlantic, The New Republic, The Nation, e New Statesman. É o autor de Who Put The Rainbow in The Wizard of Oz?, uma biografia do letrista da Broadway Yip Harburg, e os seus artigos foram republicados em vários livros, nomeadamente o volume do Brookings Institution no livro Bush v. Gore. De 1991 a 1995, Meyerson acolheu o espectáculo semanal “Real Politics” na estação NPR KCRW em Los Angeles. Convidado frequente em programas de televisão e rádio, incluindo “The Four O’Clock Report” com Jon Wiener no KPFK em Los Angeles. Sendo um reconhecido socialista democrático, foi vice-presidente honorário do Comité Político Nacional dos Socialistas Democratas da América, até que tais posições foram abolidas em 2017.

 

 

 

 

 

 

 

 

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