CARTA DE BRAGA – “de algoritmos e cães” por António Oliveira

 

Numa das últimas conversas com o jornalista Peter Hafner, entre 2014 e 2016 na sua casa em Leeds, o sociólogo Zygmunt Bauman, reafirmou os diversos perigos que estavam ligados à palavra ‘progresso’, perigos que foram a base de toda a sua imensa bibliografia, por noutros tempos ter sido um palavra que soava alegre e já então a considerar preocupante. 

Bauman resumia toda a sua preocupação com uma espécie de parábola, ‘Na fábrica do futuro só haverá dois seres vivos, um homem e um cão; a função do homem será a de alimentar o cão; a do cão, garantir quer o homem não toca em nada’. 

E terminou essas conversas, garantindo que partiria insatisfeito por ‘Nunca ter encontrado uma resposta convincente para a pergunta Como poderemos renovar o mundo?, que motivou todo o meu trabalho’ e a transformou também, na herança que deixou aos seus discípulos. 

Dizia o sociólogo que num futuro tão incontrolável, até a palavra ‘utopia’ teria perdido todo o seu encanto, o encanto necessário para fomentar os sonhos. 

Aliás e seguindo Daniel Innerarity, ‘O ser humano é o único no reino dos seres vivos a saber que há futuro, mas isso não implica que saiba o que fazer com esse saber. A transformação que as sociedades democráticas necessitam, virá da abertura de considerar o futuro como mais um espaço interessante de acção, se aprendermos a libertar-nos da tirania do curto prazo’.

Convém não esquecer que a filosofia, a ciência e a tecnologia, são também instrumentos criados pelo homem para se compreender a si mesmo, para entender o mundo e tentar viver melhor, regenerando a realidade do mundo que o rodeia. 

Mas Bauman ainda avisou ‘Quando uma quantidade cada vez maior de informação se distribui a uma velocidade cada vez mais rápida, a criação de sequências narrativas, ordenadas e progressivas, vai sendo paulatinamente mais difícil. A fragmentação ameaça tornar-se hegemónica e terá consequências nos modos de nos relacionarmos com o conhecimento, com o trabalho e com o estilo de vida, em sentido amplo’.

Daqui aos sistemas de governo onde as decisões sejam tomadas por sistemas automatizados, algorítmicos, não parece que a distância seja muito grande e, recordando e ajuntando o que afirma Daniel Innerarity, ‘A extensão de sistemas de decisão conduzidos por dados e algoritmos, significa que as máquinas apoiam os humanos nas suas decisões e, inclusivamente os substituem, em parte ou completamente’.

E depois de uma série de questões sobre a questão política desta eventual tomada de posições, acaba por perguntar ‘É congruente com a democracia, este tipo de governança?

Não  acredito que, ainda no meu tempo, tenha de me confrontar com estas questões, mas se for, gostaria de escolher a ‘marca’ do cão!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

Leave a Reply