CARTA DE BRAGA – “chuingas, Kant e Einstein” por António Oliveira

O Luís é um rapaz desempoeirado e fino, nem tem dobras em cima do cinto, trabalha numa empresa imobiliária, trata só com clientes top e, quando tem tempo, aparece na pastelaria frequentada por um grupo de amigos, para tomar um café e saber das últimas na área da cultura, pois os tempos que vai arranjando são diminutos e nem lhe dão para fazer uma soneca sem limites, tanto antes como depois do trabalho.

E naquele dia, uma terça feira que continuava a ser apenas um prolongamento do tédio da segunda (Mau dia para o negócio, dizia amiúde) chegou a mancar da perna direita, pelo menos assentava mal o pé no chão, cumprimentou com um ‘Olá’ breve, depois levantou a cadeira onde se foi sentar, no canto mais afastado da esplanada, olhou bem a parte de baixo, baixou-se a espreitar por baixo da mesa e sentou-se sem apoiar o pé no chão.

-‘O que se passa contigo’ perguntou um dos amigos que já ali estava.

O Luís sentou-se virado para o lado onde não havia gente, descalçou o sapato, tirou um pedaço de cana do bolso, abriu um lenço de papel que pôs em cima dos joelhos bem juntos e começou a raspar, quase raivosamente, a parte de baixo do sapato entre o salto e a sola. 

-‘Estou convencido que alguma maldição me caiu em cima! Já a terceira vez que, na última semana, sou agredido por um chuinga!

Não disfarçámos o riso, mas o Luís continuou, ‘A primeira, ao ajeitar a cadeira onde me sentei no restaurante; fiquei com um colado na mão; dois dias depois, no bar do Tó, ao cruzar a perna debaixo da mesa, fiquei com outro pegado nas calças e hoje, depois de sair da paragem e virar para aqui, dei conta de o sapato ter ficado a querer agarrar-se ao chão! Três vezes em seis dias, é muito azar ou alguém me rogou uma praga!’ 

-‘Foi por isso que arranjaste essa máquina anti pastilha elástica?’ perguntou o mesmo amigo, apontando para o pedaço de cana, por entre o riso de todos os que ali estávamos. 

-‘Não, encontrei-o no chão a meia dúzia de metros aqui da entrada. Até parece que de propósito, para me compensarem de todas estas chatices’.

O Luís é (foi) apenas um exemplo do que vamos encontrando, cada vez com mais frequência, em qualquer situação da vida comum e li, já nem sei onde, que enquanto não houver uma conduta pessoal estritamente limpa, tudo o resto não passa de uma tonteira, uma espécie de redução e negação daquela regra de ouro comum a todas as sociedades e até religiões, ‘não faças ao outro o que não queres que te façam a ti’.

Trata-se apenas de assumir e compensar as falhas na educação, um procedimento que devia começar na família, para continuar depois na escola, aquele somatório de aulas, centros de estudos e actividades, (transformada numa espécie de centro de dia, enquanto os pais não voltam a casa depois do trabalho), para dar forma a um processo moroso e complicado de humanização, por também não poder haver humanidade no indivíduo, sem se cuidar da sua inclusão real na sociedade.

A única verdade do futuro, é a juventude de hoje, assim como a forma como os jovens são preparados, para o poderem enfrentar pois, nas palavras de Manuel Castells, ‘O sistema educativo no mundo inteiro, está muito atrasado no que se refere à evolução da tecnologia, do trabalho e da cultura, apesar do esforço quotidiano de muitos professores, no meio das dificuldades que encontram’.

Aliás e, de acordo com Kant, ‘A educação é uma arte, cuja prática necessita ser aperfeiçoada por várias gerações. Cada geração, de posse dos conhecimentos das gerações precedentes, está melhor aparelhada para exercer uma educação que desenvolva todas as disposições naturais, na justa proporção e em conformidade com a finalidade daquelas e, assim, guie toda a humana espécie a seu destino’.

E quando se vê o abandono ou a depreciação das Humanidades nos programas escolares, só temos de reconhecer como são sábias estas palavras daquele enorme pensador, mas, por não me parecer muito próprio misturar pastilhas elásticas e Kant, ainda lhe ajunto mais outras, agora de ditas Einstein, Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Em relação ao universo, ainda não tenho certeza’.

Bom Ano e sem pastilhas elásticas ‘pegadas’ ou largadas à toa!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

 

2 Comments

  1. Amigo, gosto de ler o que escreves…Escreves muito bem, em escrita escorreita e por mais banal ( ?) que possa ser o assunto, sempre lhe misturas, mais ou menos , recados de pedagogia…Bem hajas!

  2. E os meus agradecimentos pela tua s vossa fidelidade
    e apreciações.
    Um Ano Novo tão completo como os vossos anseios e
    um abraço amigo
    A.O.

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