“JESUS, O LÍDER SUPREMO“, de EUGENE V. DEBS (1)

 

Jesus, The Supreme Leader, por Eugene V. Debs

Coming Nation(2) , Março de 1914

Tradução e selecção por Júlio Marques Mota

Revisão de João Machado

 

Num ensaio de 1914, Eugene V. Debs declarou Jesus como “o supremo líder revolucionário do mundo” e “tão real e convincente como John Brown, Abraham Lincoln, ou Karl Marx”. Republicamos esse texto na íntegra como nosso presente de Natal para os nossos leitores. (original na Revista Jacobin)

El Greco, Cristo a expulsar os vendilhões do Templo (perto de 1570), Minneapolis Institute of Arts (Crédit : The William Hood Dunwoody Fund / US Department of State via Flickr)

 

Pouco importa se Jesus nasceu em Nazaré ou em Belém. As fontes são contraditórias sobre isto mas a questão não tem qualquer consequência.

O que conta, pelo contrário, é que Ele nasceu num estábulo e foi embalado numa manjedoura. Este facto por si mesmo, sobre o qual não há dúvida, certifica de forma conclusiva o carácter proletário de Jesus Cristo. Se os seus pais não fossem pessoas pobres trabalhadoras – se fossem cambistas, usurários, comerciantes, advogados, escribas, padres, ou outros parasitas – não teria saído do ventre da sua mãe e vindo ao mundo numa cama de palha num estábulo, entre jumentos e outros animais.

Jesus foi divinamente gerado? Sim, o mesmo que qualquer outra criança nascida no mundo. Ele era de origem milagrosa, como toda a humanidade. O relato bíblico da sua “imaculada conceção” é um belo mito, mas pouco mais milagroso do que a conceção de todas as outras crianças.

Jesus não era divino porque ser menos humano do que os seus semelhantes, mas pela razão oposta, a de ser supremamente humano, e é nisto que consiste a sua divindade, a sua plenitude e perfeição como ser intelectual, moral e espiritual.

As crónicas do seu tempo e dos seus últimos dias estão cheias de histórias contraditórias e absurdas sobre ele e ele tem sido desfigurado e distorcido por sacerdotes astutos para servir os seus fins nefastos e por idólatras ignorantes para dar caução piedosa ao seu fanatismo cego e superstição selvagem, mas não há nenhum mito impenetrável em torno da personalidade de Jesus Cristo. Ele não era um ser lendário ou uma figura alegórica, mas como Bouck White e outros nos mostraram, um Homem de carne e osso na plenitude dos seus incomparáveis poderes e na plenitude da sua consagração transcendente.

Para mim Jesus Cristo é tão real, tão palpitante e convincente como um personagem histórico como John Brown, Abraham Lincoln, ou Karl Marx. Ele continua a sê-lo, apesar de dois mil anos de emasculação teológica para destruir a sua personalidade revolucionária, e é hoje a maior força moral do mundo.

A vã tentativa de distorção persistiu através de vinte séculos de interpolação, interpretação e falsificação pela classe dominante para fazer aparecer Jesus como o conservador divinamente mandatado da paz e da tranquilidade dos oprimidos, em vez do mestre revolucionário proletário e semeador do turbilhão social – a vã tentativa de prostituir o nome e os ensinamentos e o exemplo do Cristo martirizado ao poder de Mammon(3), o próprio poder que o tinha assassinado a sangue frio, demonstra o seu génio transcendente e proclama a imortalidade da sua obra.

Nada se sabe de Jesus Cristo enquanto rapaz, exceto que aos doze anos os seus pais o levaram para Jerusalém, onde confundiu os doutores eruditos com as perguntas que lhes fez. Não temos conhecimento de quais eram estas perguntas, mas tendo em conta o seu humilde nascimento, a sua pobreza e sofrimento, em contraste com as riquezas de Jerusalém que agora deslumbravam a sua visão, e à luz da sua carreira subsequente, não nos resta mais do que fazer conjeturas sobre a natureza do interrogatório a que o rapaz inquisitivo submeteu os presunçosos doutores no templo.

Há apenas escassos relatos dos feitos de Jesus até que, com um pouco mais de trinta anos, ele entrou no seu “ministério” público e iniciou a campanha de agitação e revolta que tinha planeado e sonhado durante todos os anos da sua ardente adolescência. Ele pertencia à classe trabalhadora e foi leal para com ela até à hora da sua própria morte. Ele detestava e denunciava o explorador rico e cruel tão apaixonadamente quanto amava e simpatizava com as suas pobres e sofredoras vítimas.

“Não falo de todos vós; sei quem escolhi”, foi o que anunciou, consciente de classe aos seus discípulos, todos eles do proletariado, e não havia aí nenhum explorador ou cidadão desejável entre eles. Não, nem um só! Era um movimento da classe trabalhadora que ele estava a organizar e uma revolução da classe trabalhadora para a qual ele estava a preparar o caminho.

“Dou-vos um novo mandamento: amai-vos uns aos outros tal como eu vos tenho amado “. Esta foi a substância e o cerne de todas as suas súplicas, de todas as suas pregações, e de todos os seus ensinamentos – amai-vos uns aos outros, sede irmãos, fazei causa comum, ficai juntos, vós que trabalhais para enriquecer os parasitas e estais acorrentados, e assim sereis livres!

Estas palavras foram dirigidas por Jesus não aos cambistas, aos escribas e aos fariseus, aos ricos e aos respeitáveis, mas sim aos esfarrapados indesejáveis da sua própria classe escravizada e sofredora. Este apelo era ao seu espírito de classe, à sua lealdade de classe, e à sua solidariedade de classe.

Séculos mais tarde, Karl Marx incorpora o seu apelo no seu famoso Manifesto e hoje em dia ele resplandece em letra de fogo como a palavra de ordem da revolução mundial: “Trabalhadores de todos os países uni-vos: não têm nada a perder a não ser as suas próprias correntes. Tendes um mundo a ganhar”.

Durante o breve período de três anos, abraçando todo o período da sua vida ativa, desde que começou a agitar o povo até que “o manto escarlate e a coroa de espinhos lhe foram colocados e ele foi crucificado entre dois ladrões”, Jesus dedicou todo o seu tempo e toda a sua incomparável capacidade e energias aos pobres que sofriam, e teria sido estranho que eles não o tivessem “ouvido de bom grado”.

Ele próprio não tinha uma morada fixa e, tal como a multidão miserável e heterogénea a quem pregou e por quem derramou o seu grande coração, ele era um pobre vagabundo sobre a face da terra e “não tinha onde repousar a sua cabeça”.

O comunismo puro foi o evangelho económico e social pregado por Jesus Cristo, e todos os atos e afirmações que lhe possam ser atribuídos de forma adequada afirmam-no de forma conclusiva. A propriedade privada era para as suas elevadas mente e alma um sacrilégio e um horror; um insulto a Deus e um crime contra o homem.

A base económica da sua doutrina de fraternidade e amor é claramente demonstrada no facto de que sob a sua liderança e ensino todos os seus discípulos “venderam as suas posses e propriedades e as distribuíram para todos, segundo as necessidades de cada um”, e que eles “tinham todas as coisas em comum”.

“Diariamente, estavam de comum acordo no templo, e partindo o pão de casa em casa, comiam a carne com alegria e simplicidade no coração”.

Este foi o início do poderoso movimento que Jesus lançou para o derrube do império dos Césares e a emancipação das massas esmagadas e miseráveis devido à desgovernação bestial dos tiranos romanos.

Este foi sobretudo um movimento da classe trabalhadora e foi concebido e criado com a única finalidade de destruir o domínio de classe existente e estabelecer o povo humilde como o único e legítimo herdeiro da terra.

“Felizes são os humildes, pois herdarão a terra”.

Três curtos anos de agitação pelo incomparável Jesus foi suficiente para distinguir o movimento proletário que ele tinha inaugurado como a mais formidável e portentosa revolução nos anais dos tempos. O infeliz agitador não podia sobreviver por muito tempo à sua estupenda travessura. O objetivo e o resultado inevitável do ensino e da agitação deste louco era demasiado evidente para admitir por mais tempo a dúvida.

Os senhores da desgovernação estremeceram na sua riqueza roubada, e depois foi por eles passada a ordem de que se devia “apanhar” o vagabundo que tinha agitado o povo contra eles. Os protótipos de Peabody, McPartland, Harry Orchard, et. al.(4), estavam todos prontos para a sua baixa e pérfida atuação e as suas trinta moedas de prata estavam manchadas de sangue. O sacerdote dos adoradores de Mammon(3) deu a entender que o Nazareno estava a espalhar uma religião falsa e que os seus ensinamentos perniciosos iriam corromper o povo, destruir a igreja, desenraizar a velha fé, perturbar a família, destruir o lar e derrubar a sociedade.

Os descendentes diretos de Caifás e Judas e os fariseus e cambistas de antigamente continuam a papaguear as mesmas miseráveis falsidades para servir os mesmos fins miseráveis, com a única diferença de que o bando de piedosos pervertidos pratica agora a sua degenerescência em nome do Cristo que traíram e venderam em crucificação há vinte séculos atrás.

Jesus, depois do julgamento mais grotesco e da mais chocante farsa em termos de justiça, foi pregado na cruz às portas de Jerusalém e os seus seguidores sujeitos a perseguição, tortura, exílio e morte. O movimento que ele tinha inaugurado e animado pelo seu espírito revolucionário indestrutível persistiu, no entanto, através do fogo e do massacre, durante três séculos e até que a classe dominante, reconhecendo a futilidade dos seus esforços para o erradicar, basicamente traiu-o, fingindo converter-se aos seus ensinamentos e reverência pelo seu fundador assassinado, e daí em diante o Cristianismo passou a tornar-se a religião, assim chamada, da classe dominante pagã e o Cristo morto foi metamorfoseado do mestre revolucionário que foi ignominiosamente morto, de um mártir da sua classe, em uma abstração piedosa, uma inofensiva divindade teológica que morreu para que John Pierpont Morgan(5) pudesse “ser lavado no sangue do cordeiro” e incontáveis ​​gerações de escravos traídos e iludidos fossem mantidos cegos pela superstição e pelo contentamento na sua pobreza e degradação.

Jesus foi a mais grandiosa e bela das almas humanas – coroada pelo sol e inspirada por Deus; um homem de estatura forte, de sangue vermelho e coração de leão, mas carinhoso e afável como a nobre mãe que o dera à luz.

Ele tinha a majestade e a postura de um deus, a visão profética de um vidente, o grande e amoroso coração de uma mulher e a inocência e simplicidade não afetadas de uma criança.

Este foi e é o Cristo martirizado da classe operária, o evangelho inspirado das massas oprimidas, o líder revolucionário supremo do mundo, cujo amor pelos pobres e pelos filhos dos pobres santificou todos os dias de sua consagrada vida, iluminou e santificou para sempre a negra tragédia de sua morte, e deu aos séculos a sua inspiração divina e o seu nome imortal.


(1) – Para ler uma biografia de Eugene V. Debs clique em Eugene V. Debs – Wikipedia

(2) – <em>The Coming Nation</em> (marxists.org)

(3) – Demónio, geralmente relacionado com a avareza e a concupiscência.

(4) – Indivíduos ligados a actos violentos em episódios relacionados com a repressão e a luta de classes nos Estados Unidos.

(5) – (1837-1913) Fundador de J. P. Morgan & Co. uma das maiores instituições bancárias e financeiras mundiais.


Para ler no original clique em:

Eugene Debs on “Jesus, the Supreme Leader” (jacobinmag.com)

1 Comment

  1. O comentário de José Veiga Torres:

    “O texto é belo, sem dúvida, com belíssima intenção, mas tem debilidades factuais, compreensíveis pelo intuito militante do autor. O conceito de proletário, tal com se concebia em 1914, e como se concebe ainda hoje, não parece que possa aplicar-se a Jesus e sua família, no contexto social do seu tempo. Jesus e seu pai putativo eram artesãos, economicamente autónomos. Os exegetas tendem a classificá-los como de uma espécie de classe média baixa. O nascimento numa manjedoura é simbólico. O nascimento deu-se numa casa (cf.Mt.2,11) e não numa gruta, nem num curral, como a imaginação posterior recriou. Jesus só não nasceu numa hospedaria porque não teve vaga, pela grande afluência de gente, em Belém, onde iam recensear-se. Um proletário não teria recursos para uma hospedaria. Os seus discípulos também não eram proletários. Os primeiros eram pescadores, também autónomos, depois surgiram de outras profissões. Mateus, por exemplo, era um cobrador de impostos. É impróprio, e até um anacronismo, considerar a revolução de Jesus como uma revolução de classes, era mais profunda e mais larga que isso. Sem dúvida que a sua revolução implicaria integrar também a luta contra as desigualdades económicas e sociais. Mas era muito mais…e, sobretudo, por meios próprios e pacíficos, pela alteração dos sentimentos e dos comportamentos. Por isso, Jesus não deixava de conviver com usurários (ex. Zaqueu), cambistas (ex. Mateus), doutores, pontífices, e até com ricos (família de Lázaro, José de Arimateia, Nicodemos). Nunca quis ser lider, nem ser tratado por lider, como tentavam fazê-lo. A sua revolução era igualitária, comunitária, não hierárquica. Jesus foi muito claro para com os discípulos: “sabeis como os que se dizem governadores das nações têm poder sobre elas, e os seus dirigentes exercem poder sobre elas a sua autoridade. Mas entre vós não deverá ser assim..” “quem quiser ser o primeiro deve tornar-se o servo de todos” (Mc.10.42-45). Como se constatou, pela história das comunidades cristãs dos dois primeiros séculos, o projeto de Jesus conduzia à formação de comunidades não hierárquicas, cuja convivência tinha por objetivo a auto-conversão dos comportamentos e das relações, tendentes à conversão fraterna das sociedades, não apenas nos seus aspetos materiais, mas para além disso…um dos seus aspetos fundamentais era a participação ativa, pelo direito à palavra, por parte de qualquer membro da comunidade (o que as Igrejas depois não consentiram nem consentem), uma exigência da dignidade de cada um, e do direito de cada um de partilhar na construção comum.”

    Breve Biografia
    José Veiga Torres é natural de Viana do Castelo. Professor jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, é diplomado pela VI secção da “ École des Hautes Études en Sciences Sociales” e doutorado pela Universidade de Paris VII (Sorbonne Nouvelle).

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