PALCO 92 – PERSONALIDADES DO ANO – por Roberto Merino

 

 

 

Fim de ano. Jornais e revistas, nacionais e internacionais, elegem as Personalidades do Ano, meritórias ou não, elas, as escolhidas representam às vezes o melhor ou o pior do ano que finda. Cada um de nós poderá fazer a sua revisão do ano e escolher – e, com certeza, a eleição não será nunca unanimemente consensual para todos.

Faltou nestas crónicas falar do Prémio Nobel da Paz, este ano entregue a dois jornalistas internacionais que se destacaram pelo seu trabalho em prol da Paz da Verdade e da Justiça, eles são; Maria Ressa, das Filipinas, e Dmitry Muratov, da Rússia, trabalham como jornalistas nesse ambiente, eles receberam o Prémio Nobel da Paz pelo seu trabalho, que simboliza a atividade de centenas de jornalistas em grande perigo físico, riscos legais ou dificuldades econômicas. Como disse o Comitê do Nobel, recompensar esses jornalistas “visa a ressaltar a importância de se proteger e se defender” a liberdade de expressão e informação. Por seus esforços para salvaguardar a liberdade de expressão, que é uma pré-condição para a democracia e uma paz duradoura”

O primeiro Prémio Nobel da Paz foi concedido em 1901 ao francês Fréderic Passy. “Por ser um dos principais fundadores da União Interparlamentar   e também o principal organizador do primeiro Congresso Universal de Paz” e ao suíço Henry Dunant, pelo seu papel na fundação do Comité Internacional da Cruz Vermelha.

“O prémio é considerado o mais controverso dos Nobel e suas escolhas são muitas vezes alvo de críticas. Por exemplo, apesar de ter sido indicado cinco vezes, Mahatma Gandhi jamais o ganhou. Após o seu assassinato em 1948, o Comitê considerou premiá-lo postumamente, porém acabou por não o fazer e, em vez disso, não atribuiu o Prêmio naquele ano, justificando que “não havia candidato vivo apropriado”.

Na longa lista dos premiados, poucos são os jornalistas ou homens de letras associados a esta premiação. Entre eles, Norman Angell (1872–1962) em 1933, por ter escrito A Grande Ilusão e “por ser um apoiante da Liga das Nações, bem como um influente jornalista e educador pela Paz em geral”

O Prêmio Nobel da Paz de 1935, para o jornalista alemão Carl von Ossetzky, lembra-nos que o jornalismo sempre enfrentou esse perigo, especialmente quando a verdade afecta os poderosos. Ossetzky foi preso pelo regime nazi por revelar detalhes sobre o rearmamento da Alemanha nos anos 20, violando compromissos internacionais. E também alertou para o crescente antissemitismo e militarismo. Resultado: os nazis prenderam-no e torturaram-no.

Liu Xiaobo (1955-2017) em 2010, crítico literário, escritor, professor, intelectual e activista pelos direitos humanos, também foi galardoado. O  Comitê Nobel Norueguês justificou-o “pela sua longa e não violenta   luta pelos direitos humanos fundamentais na China.”

Os prémios Nobel celebram este ano o 120.º aniversário desde as primeiras atribuições, em 1901.

Maria Ressa, 58 anos, “usa a liberdade de expressão para expor o abuso de poder, o uso da violência e o crescente autoritarismo” nas Filipinas, onde dirige o Rappler, um órgão de comunicação social digital que se dedica ao jornalismo de investigação e que cofundou em 2012. O Comité Nobel destacou, em particular, o papel de Ressa e do Rappler na denúncia da “controversa e assassina campanha antidroga do regime” do Presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte”.

Dmitry Muratov, 59 anos, é um dos fundadores do jornal independente Novaja Gazeta, criado em 1993, do qual é chefe de redação há 24 anos.  Para o Comité Nobel, trata-se do “jornal mais independente da Rússia, com uma atitude fundamentalmente crítica em relação ao poder”.  “O jornalismo livre, independente e baseado em factos serve para proteger contra abusos de poder, mentiras e propaganda de guerra”, disse Berit Reiss-Andersen do Comité Nobel.

Finalmente acabarei por lembrar um episódio marcante sucedido na década 70. A morte do jornalista norte-americano Bill Stewart durante a guerra civil que tomou conta da Nicarágua nos anos 70 e derrubou a ditadura de Anastásio Somoza, dando passo a uma junta formada por sandinistas e liberais que assumiu o poder. “Um dos momentos mais dramáticos da cobertura foi a morte do jornalista norte-americano no dia 20 de junho de 1979. Ao tentar cobrir os combates, o correspondente da rede ABC aproximou-se da região dos conflitos com uma bandeira branca e um intérprete. Um soldado da Guarda Nacional mandou o repórter  ajoelhar-se, abrir os braços, deitar-se de bruços e matou-o com tiros de metralhadora. A cena da execução foi gravada pela câmara da equipa norte-americana e foi ao ar no mundo inteiro”. Está ainda patente no Youtube para a memória da ignomínia!

Todos os anos assistimos a ataques a jornalistas e à imprensa, e foi nesse sentido que a Comissão da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e o Ministério de Negócios Estrangeiros de Portugal promoveram no ano de 2019 o seguinte documento, que citamos, sobre a Segurança dos jornalistas: “O número de assassinatos de jornalistas segue uma tendência cada vez mais preocupante. Depois de se homenagearem as vítimas e a sua coragem, surgem questões cada vez mais insistentes. Como proteger o direito de todos os cidadãos a uma informação fiável e o direito dos jornalistas a fornecer essa informação sem temerem pela sua segurança?… A sociedade e o Estado têm o dever de criar e de manter as condições necessárias a estes direitos fundamentais”.

https://unescoportugal.mne.gov.pt/pt/temas/promover-a-liberdade-de-expressao/seguranca-dos-jornalistas

A todos os jornalistas de Portugal, aos amigos dos Argonautas, aos meios de comunicação, aos seus colaboradores e seguidores desejamos um Bom Ano de 2022, sem notícias falsas, sem assassinatos, sem mortes e em paz!

Notas finais: Desmond Tutu – Prémio Nobel da Paz de 1984, o Bispo do sorriso de braços abertos deixou-nos este ano: “Figura líder unificadora na campanha para resolver o problema do apartheid na África do Sul. (…) Pela atribuição do Prêmio da Paz deste ano, o Comitê gostaria de direcionar a atenção à luta não-violenta pela libertação a qual Desmond Tutu pertence, uma luta na qual sul-africanos negros e brancos se unem para tirar seu país do conflito e da crise.”

    • Os versos do poema inicial pertencem à Ode ao pão do livro Odas Elementares de Pablo Neruda (1904-1973). Em tempos de fuga, refugiados e muros vergonhosos o pão de cada boca, sagrado, consagrado, representa (como disse o poeta) o produto da mais longa e dura luta humana!

 

 

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