CARTA DE BRAGA – “de lagares e recordações” por António Oliveira

Naquele tempo, aquele a que volto com frequência, o tempo da minha juventude e dos dias passados na aldeia da minha bisavó, era normal encontrar nos caminhos do vale do Mondego, mais ao final da tarde, começo da noite e aos fins de semana, as carroças puxadas por bois ou muares, carregando gente até à porta dos lagares, e alguns havia por ali. 

O mesmo acontecia noutros caminhos em volta da cidade, principalmente a partir do final de Dezembro, naquele tempo com muito frio e muita neve, vendo toda aquela gente bem embrulhada em montes de roupa quente, alguns até com cobertores de papa, para à chegada, começarem a tratar da limpeza e do ajeitar das coisas para a moagem da azeitona porque, diziam os ditados antigos, ‘Deus dá a azeitona e o lagareiro o azeite’.

Aprendi depois, sempre dito daquela maneira simples e sábia do conhecimento com séculos, ‘Quem colhe antes do Natal, azeite deixa no olival’, mas parece-me que tudo isto está a desaparecer, pois os olivais tradicionais são maioritariamente de baixo rendimento e, se não forem as cooperativas e alguns particulares, parece também que toda esta riqueza irá cair nas mãos das grandes corporações, levando-nos a assistir aos últimos momentos de um mundo económico, social e cultural, já irremediavelmente condenado a desaparecer. 

Digo do campo do olival tradicional, a maior parte dos terrenos agrícolas deste país, propriedade de uma classe etária já para lá dos sessenta, em que ‘o fazer o azeite’ ainda é uma tarefa familiar, onde impera o romantismo do amor à casa, do reviver as lagaradas ou as tibornadas de juntar família e amigos, os mesmos que lhe ficam depois com os garrafões do azeite e ainda com os do vinho novo.

Talvez seja por isso, por também estar a desaparecer o tal romantismo que ainda mantém o apelo da casa, que vemos aumentar as plantações dos paus direitos de crescimento rápido, só três ou quatro anos até serem enviados para as fábricas de papel, onde nem o mau cheiro permite haver, ali ou próximo, lagaradas ou tibornadas, até mesmo porque ‘Olival que bem parece, devagar cresce’.

E assistimos a isto tudo como assistimos ao desaparecimento dos pássaros (por andarão agora os bandos de pardais, de pintassilgos e as revoadas de estorninhos, que se viam antigamente?) pois, como no ‘Ensaio sobre a cegueira’ escreve Saramago, ‘Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, cegos que vêem, cegos que, vendo, não vêem’, mas uma cegueira informativa, manipulada e manipulável, num sistema onde reina o pensamento único, que quer fazer de todos nós, cidadãos monitorizados e regulamentados, onde a visão já nem é a base do pensar, tanto para isso como para a leitura e outras minudências. 

Mas não esqueço nunca as palavras do filósofo e escritor Pascal Bruckner, ‘A partir dos sessenta tens a mesma paixão, mas cometes menos erros e, sabendo que a vida é efémera, a aproveitas e entendes o que dizia o poeta, Ama o que nunca voltarás a ver duas vezes. Conheces-te melhor, mas a saúde é mais frágil’.

Tudo isto por Janeiro já ir adiantado e porque, como já aqui deixei escrito uma vez, ‘O meu lugar real são as minhas recordações, as minhas experiências, os meus risos e as minhas lágrimas! É o único sítio onde sempre se pode regressar em paz!

E onde ainda há pardais, pintassilgos e os tais bandos de estorninhos que nos espantavam pelos belos desenhos e figuras que deixavam nos céus!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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