Assim vai a Espanha… “O PP está a utilizar a difusão de boatos e manipulações para criticar o governo”, por Miguel Muñoz

Seleção e tradução de Francisco Tavares

 

5 m de leitura

O PP está a utilizar a difusão de boatos e manipulações para criticar o governo.

Para além da última controvérsia sobre as palavras deturpadas de Alberto Garzón, nos últimos tempos o Partido Popular tem vindo a alimentar informações falsas. A quem cabiam as competências dos lares de idosos na pandemia, a riqueza de Irene Montero, a posição de Bruxelas ou o lucro com os testes de antigénios são alguns exemplos.

 

 Por Miguel Muñoz

Publicado por .es, em 15/01/2022 (original aqui)

 

O presidente nacional do PP, Pablo Casado, esta sexta-feira durante uma visita a uma exploração pecuária em Navas del Marqués (Ávila). – David Mudarra

 

O trabalho de oposição do Partido Popular (PP) contra o governo de Pedro Sánchez tem sido severo. O líder do PP, Pablo Casado, terminou o ano passado radicalizado contra o governo PSOE e Unidas Podemos apenas três meses depois de se apresentar como “homem de Estado”, concordando com a renovação de alguns órgãos constitucionais. Mas para além do tom, o PP alimentou uma série de manipulações ou diretamente boatos para atacar o governo central. Os últimos meses deram um bom relato disto, para além da última “controvérsia” desencadeada por palavras manipuladas do Ministro dos Assuntos do Consumidor, Alberto Garzón.

A gestão da pandemia e da própria crise do coronavírus levou a uma proliferação de notícias falsas. Para além das teorias negacionistas ou conspiratórias, promovidas principalmente por grupos de extrema-direita, uniram-se a nível local uma série de afirmações e mantras repetidas pela direita. Um dos mais virulentos teve a ver com a gestão e competências sobre os lares para idosos, os locais mais tragicamente afectados pela catástrofe sanitária.

Os meios de comunicação de direita e os políticos de direita têm vindo a repetir e a culpar o ex-vice-presidente do Governo e ex-ministro da Agenda 2030 e dos Direitos Sociais, Pablo Iglesias, pela sua responsabilidade nesta matéria. Logo desde os primeiros meses da pandemia, em Maio e Junho de 2020, diferentes dirigentes transmitiram este tipo de mensagens. Significativo foi um confronto dialéctico entre o secretário-geral do PP, Teo García Egea, e Iglesias, numa sessão de controlo realizada no Congresso. O dirigente do PP acusou-o de ser “o único responsável” por estes centros de idosos e Iglesias respondeu que estava a mentir de uma forma “desprezível”.

Este foi apenas um exemplo que foi repetido em diferentes esferas, mesmo até há algumas semanas atrás em televisões de âmbito estatal. O eurodeputado do PP José Manuel García Margallo também aderiu recentemente à divulgação do embuste, que foi categoricamente contestado em directo pelo antigo vice-presidente no programa Hora 25 na Cadena SER. Naqueles dias, este jornal publicou uma entrevista com Alberto Reyero, antigo Ministro das Políticas Sociais do governo [de Madrid] de Isabel Díaz Ayuso. “Dizer que Iglesias tinha competência sobre as residências é um embuste”, declarou sem rodeios, transferindo a responsabilidade para todo o Executivo da Comunidade de Madrid, da qual era membro até à sua demissão devido a diferenças com a gestão levada a cabo.

Outra questão recorrente que surgiu e que também está relacionada com membros do Unidas Podemos tem a ver com o aumento de património da Ministra para a Igualdade, Irene Montero. Tal como analisado no Público pelo activista digital Julián Macías, o embuste foi reavivado nos últimos dias através de uma pergunta parlamentar feita por Pablo Cambronero, membro do Grupo Misto, anteriormente de Ciudadanos. Diferentes meios de comunicação social e utilizadores de redes sociais replicaram informação que tinha sido manipulada e verificada por outros meios de comunicação social. A “notícia” foi replicada por diferentes dirigentes do PP, como por exemplo o seu chefe da comunicação online, que é muito activo no Twitter; e do Vox, como Hermann Tertsch.

 

Bruxelas como cartada selvagem e as mentiras sobre a lei mordaça

O PP de Casado também tem recorrentemente utilizado Bruxelas como um “recurso polivalente” para criticar diferentes medidas governamentais que, segundo as suas declarações, não seriam aceites na União Europeia. Um exemplo claro disto aconteceu há alguns meses, quando o debate público começou a concentrar-se na revogação ou não da reforma laboral aprovada por Mariano Rajoy em 2013.

O Partido Popular (PP) escudava-se atrás de uma posição supostamente fabricada de que as instituições europeias se recusariam a revogar a reforma. Nenhum documento ou declaração de Bruxelas contemplou esse ponto, embora o PP insistisse na sua mensagem. Na mesma linha, Casado passou meses a acusar o governo de Sánchez de “mentir” em Bruxelas para obter fundos europeus. “Vão apanhá-lo”, chegou ele a dizer. A concessão a Espanha, o primeiro país europeu a receber estas ajudas, desmantelou a sua estratégia catastrofista, embora o foco esteja agora numa alegada “distribuição a dedo” das ajudas, que o governo desmonta com dados.

Um exemplo inequivocamente claro deste tipo de manipulação e informações falsas transmitidas pelo PP tem sido a reforma da Lei de Segurança do Cidadão. O líder do PP adoptou os argumentos de algumas organizações policiais em que criticavam alguns pontos que não estavam incluídos na reforma lançada pelo governo. Alguns exemplos tinham a ver com a suposta retirada da presunção de veracidade dos agentes policiais, as gravações a polícias, a notificação prévia de uma manifestação ou a utilização de equipamento de controlo de motins, entre outros. Segundo o PP, a reforma desprotegeria os polícias, mas na maioria dos argumentos contra a reforma há uma clara falsidade ou deturpação.

 

Garzón, antigénios e orçamento

Os últimos dias foram dominados pela tremenda controvérsia montada em torno de algumas das palavras de Garzón. Um suposto “ataque” do Ministro do Consumo aos criadores de gado e à carne espanhola em declarações feitas ao jornal inglês The Guardian. A direita explorou esta questão, apelando à sua demissão por Sánchez, à sua reprovação no Congresso, visitando explorações de criação de gado e lançando campanhas em redes sociais com slogans como “mais criação de gado, menos comunismo”.

Mas o facto é que, como foi assinalado por todas as vias, a campanha contra Garzón baseia-se num embuste. Sobre algo que ele não disse. E serviu também para trazer para o debate público uma questão tão importante como a das macro-fazendas. Estas instalações revelaram inúmeras incoerências no PP, e também no PSOE. O PP chegou ao ponto de dizer que as macro-fazendas não existem apesar de se terem manifestado contra elas em várias ocasiões em locais como Castilla-La Mancha.

Ao mesmo tempo, também eliminaram tuites sobre o assunto, apesar de em cidades como Daimiel [governada pelo PP desde 2011] terem recentemente aprovado uma proibição deste tipo de exploração agrícola. As macro-fazendas, a propósito, existem e têm consequências ambientais, despovoamento e mal trato de animais.

Outro assunto posto em circulação esta semana tem sido o lucro que o governo tem com os testes de antigénios. O secretário-geral do PP afirmou numa conferência de imprensa que o governo de Sánchez estava “a lucrar bem” com a venda destes testes nas farmácias. A verdade é que os testes de antigénios estão isentos de pagamento de IVA e o governo não cobra qualquer receita por eles. O dirigente do PP ignorou este facto na sua comparência perante os jornalistas na sede nacional do seu partido. “Pergunto-me quanto é que o governo recolheu em impostos com os testes de antigénios. Uma boa pitada”, respondeu o próprio Egea.

Finalmente, esta semana o Partido Popular ajudou a espalhar mais uma falsa informação. Trata-se da entrada em vigor do Orçamento de 2022. Neste caso, utilizaram informações publicadas em El Confidencial, cujo título foi rectificado algumas horas mais tarde. A informação foi amplamente divulgada por vários dirigentes do PP, tais como a secretária adjunta de Política Sectorial, Elvira Rodríguez. O PP acusou o governo de incompetência e erro por supostamente não ter estabelecido uma data para a lei orçamental. Diferentes peritos rapidamente desmpntaram esta teoria, tal como o próprio Ministério das Finanças, num comunicado.

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O autor: Miguel Muñoz é redator do diário Público desde 2021. Anteriormente foi redator independente no Europa Press, em Cuarto poder e em El Diario. Foi também responsável de comunicação da Câmara Municipal de Madrid em 2018/19. É licenciado em Jornalismo pela Universidade Complutense de Madrid.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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