De acordo com um estudo da Agência Europeia do Meio Ambiente, já datado de Maio do ano passado, o ruído mata cerca de dez mil pessoas cada ano. Ainda de acordo com aquele estudo, também ficou demonstrada a relação profunda entre a descida do rendimento escolar e o aumento do risco de dislexia, por o ruído ser uma agressão grave para o bom rendimento cognitivo.
São afirmações do neurocientista Michel Le Van Quyen, investigador das enormes vantagens do silêncio, um ‘bem’ que estes tempos parecem desprezar, ‘por vivermos num mundo submetido à economia da atenção, sugestões, distracções, bombardeio de informação e apelos nas redes sociais, tudo a provocar uma sobrecarga cognitiva no cérebro e, quando a pressão é excessiva, o cérebro desliga, bloqueia e, por isso, acontecem as “brancas” em qualquer exame’.
Lembrei-me destas anotações, ao ler a crónica intemporal de um colunista, a contar que todos os dias saía a ‘passear’ um livro, sacado da estante ‘ao calhas’, sem nenhuma razão, para depois o abrir ao acaso, ‘para o livro lhe contar o que quiser e, até ao momento, não me defraudou uma única vez. Inspira-me e faz-me companhia; é a única coisa que lhe peço, ingenuamente e sem me aperceber disso, como peço a um livro de poesia’.
Anotei também esta frase pelo significado e pela simbologia e, ao pensar bem nela, fui ter ao ‘velhinho’ Aristóteles, por salientar que o conhecimento nascia do espanto e da admiração que as coisas estranhas nos poderiam provocar e, por isso, se questionou sobre a origem do mundo.
Espanto que também se abateu sobre mim quando, um dia, fui falar com uma senhora que tinha um quarto para alugar, em Lisboa, já lá vai mais de meia centena de anos, numa das avenidas que dava ligação à marginal.
Era uma senhora com talvez uns setenta anos, mas mais antiga pelo modo de vestir e de se apresentar, convidando e apelando, sem se dar conta, à simpatia e à gentileza. Mostrou-me o quarto, amplo, bem mobilado e iluminado, a casa de banho que o servia e, perante o meu ar afirmativo, ‘Mas não lho vou alugar sem ver uma coisa que precisa ver, uma vez que também vem comer aqui!’
Eram quase nove horas, ainda tinha de ir trabalhar, mas segui atrás da senhora por um corredor a desembocar numa sala ampla, quatro janelas a dar para a avenida, uma mesa pequena para duas pessoas, logo a seguir à porta por onde tinha entrado e, no canto oposto, um tronco seco de uma árvore em cima de uma estrado, os ramos também secos e uma data de pássaros a bater as asas e a pipilar em cima.
Esperou um pouco a olhar para mim e depois, abriu as janelas e ‘Meninos, Rua! Meninos, Rua!’ e a passarada saiu toda, num instante. Começou logo a limpar o estrado, as tigelas onde estava a água e comida para eles, mas ao ver um telefone, perguntei se me podia servir para uma chamada local. Acenou afirmativamente, liguei para a Agência a dizer que demoraria talvez toda a manhã e fiquei ali a ver a senhora tratar da ‘habitação’ da passarada.
Enquanto o fazia, contou que aquilo tinha sido começado pelo marido, um marinheiro falecido havia anos, por uma vez lhe ter trazido uma cotorra da Argentina, que a tinha ensinado a sair e voltar a casa e, com os anos, uns chamando outros, já tinha para ali uns quarenta pássaros e, ‘Só por isso é que alugo o quarto, pois preciso de dinheiro para lhes comprar as coisas que gostam!’
Percebi depois que cotorra era um papagaio, vi como ali havia pássaros de ‘marcas’ variadas e, vi também, como depois de tudo estar limpo, ter colocado algumas malgas com as coisas que elas gostavam e outras com água, no estrado em baixo, a senhora voltou a abrir as janelas, bateu palmas e ‘Meninos, Casa! Meninos, Casa!’, eles regressaram todos, e ‘Logo à tarde vejo se tenho algum a mais!’
A admiração é o encontro com o inesperado, é o sair de uma situação de ignorância, aprender novas situações ou novos modos de estar no mundo, fazendo parte dele, fazendo também da experiência uma outra maneira para se conseguir deter a correria diária, aproveitando para parar e pensar, tanto mais que ali só havia a voz carinhosa de uma senhora já com alguns anos, com o ruído a ser só o belo pipilar de umas dezenas de pássaros, daqueles que estão a desaparecer agora, das também já poucas árvores das nossas ruas.
A técnica em toda a sua benignidade, colocou-nos agora nas mãos uma enorme quantidade de artefactos, meteu-nos no espírito a ‘cultura da tecla’, mas passou por cima da simplicidade do ‘estar com’ para ‘ser de’, de conhecer as coisas antes de eventualmente as vir a transformar e, parece, só estarmos permanentemente centrados no virtual, pensando ser esta a única realidade.
Uma questão assim definida pelo poeta António Machado, ‘Os que estão sempre de volta, são aqueles que nunca foram a nenhuma parte’.
Ámen!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor