CARTA DE BRAGA -“da vida, da alienação e da dignidade” por António Oliveira

John Lennon garantiu, já lá vão uns anos, que a vida seria tudo o que se passava à nossa volta, enquanto perdíamos tempo a fazer planos. Se o cantor fosse vivo e hoje referisse este tema, diria certamente, a vida será o que se passa em volta, enquanto olhamos o pequeno ecrã do telemóvel. 

E há alguns dias, um comentador afirmava mesmo que ‘olhar’ é o termo que se deve usar em vez de ‘falar’, por a maior parte das pessoas  se comunicar, maioritariamente também, através de mensagens escritas ou de voz, por se ter desabituado de falar, o que também faz que o telefone (telemóvel), tenha perdido a verdadeira razão da sua existência, a aproximação das pessoas através da palavra, na verdade, o verdadeiro pilar da civilização. 

O telemóvel devolveu-nos à solidão –e é já banal vermos a mesa de uma família com cada membro falando para o seu móvel– esquecendo quem tem ao lado, porque falar olhando o outro nos olhos, parece um hábito caído em desuso, cada qual metido na sua bolha, sem sequer saber o que significa empatia, por as teclas não exigirem tanto. 

E o mais importante, é que parece também ter passado definitivamente para segundo plano, a aprendizagem da História e do que ela representa, para se poder entender e definir o que é o espaço público, o lugar de formação das opiniões e das vontades que garantem a legitimidade do poder, por ali serem comentadas e discutidas todas as questões que dizem respeito à sociedade, tanto sob o ponto de vista prático como político.

Uma situação deveras complicada actualmente, pois ‘As redes sociais, turbinadas pela inteligência artificial (IA), promovem a criação de uma pluralidade (de visões) de mundos, concorrentes e conflituantes. Os mecanismos de redundância intensificada, típicos da IA, criam a ilusão de certeza, e um sentimento de hostilidade contra quem pense de modo diferente. Numa altura em que mais do que nunca teríamos de mobilizar o espaço público, no debate para resgatar o nosso único mundo comum da sua actual rota de destruição, eis que a sociedade se fragmenta e tribaliza’, afirma Viriato Soromenho Marques numa das crónicas habituais no ‘DN’

Assim, longe de nos sentirmos cidadãos de um país e de todo o mundo, encontramo-nos quase afogados por uma globalização que, paradoxalmente, fomenta isolamentos e nacionalismos identitários, que rejeitam todas e quaisquer ‘misturas’ de género, de crença, de etnia e de classe social, começando logo pelas barreiras levantadas a todos os que se atrasam no campo da digitalização, a que padroniza e regulamenta hábitos e costumes, criando ao mesmo tempo os analfabetos digitais, aqueles que por feitio ou convicção, se afastam de todas as normas homogeneizantes.  

Na verdade e, de acordo com a crónica no ‘La Vanguardia’ do comentador Lluís Foix, ‘Estamos na era da imagem, dos vídeos, das fotos a circular nas redes sociais, dos impactos e dos clics. Estamos a caminhar para o metaverso, essa estranha combinação entre o real e o virtual, que nos levará a escolher o sítio da nossa perfeita paz emocional, mesmo que não seja real’.

Convém não esquecer que somos parte integrante de uma sociedade capitalista, onde a qualidade de vida é aferida pela quantidade de bens e recursos acumulados por cada um. Só que esta lógica acumulativa não esgota a ligação ao mundo que temos em volta, mas dá origem a que as condições atrás referidas, levem também a criar momentos e estádios de individualismo, mutismo e afastamento, de completa alienação comportamental. 

Uma atitude nos antípodas do que afirma numa crónica, também no ‘DN’, Guilherme d’Oliveira Martins, ‘A escola de cidadãos tem de ser vista como uma casa viva de liberdade e criatividade. E assim se entende como espaço aberto de rigor e autonomia, ilustração prática da etimologia grega, enquanto lugar do ócio, como disponibilidade plena de espírito. A educação não comporta receitas, exige humanidade, proximidade, atenção, cuidado’.

Parece estarmos já naquilo que o investigador da História de Ciência e da Tecnologia, Robert Proctor, chamou de ‘Agnatologia’, que denunciou e descreveu já em 1979, ‘Como se fabrica a ignorância através de políticas deliberadas, baseadas na retórica da desinformação, que aumentam a incerteza e a dúvidas sobre factos verificáveis que, por sê-lo, deveriam ser irrefutáveis’.

Como é que esta afirmação me faz lembrar o que se passou no Capitólio, no dia 6 de Janeiro do ano passado, em Washington? 

É e também foi, a demonstração perfeita de estarmos já afundados e mesmo engolidos por uma sociedade de opinião constante, que se reproduz sem fim, aproveitando a ignorância dominante nos mais diversos níveis da vida pública, a fim de criar uma instabilidade permanente com as diferentes ‘visões’ do mundo, e que potencia a sensação de caos, como se pode concluir da afirmação anterior de Viriato Soromenho Marques. 

E acrescento ainda, mais uma outra reflexão recente de Boaventura Sousa Santos, ‘Acossada pela ideologia global da extrema-direita, a democracia morrerá facilmente no espaço público, se não se traduzir no bem-estar material das famílias e das comunidades. Só assim a democracia impedirá que o respeito dê lugar ao ódio e à violência, e a dignidade dê lugar à indignidade e à indiferença’.

O que hoje acontece à nossa volta, no planeta e na humanidade, parece uma aferição e um teste geral às nossas irresponsabilidade e alienação, frente aos riscos que corremos. Teremos de pensar, porque pensar é prioritário. Mas pensar e constatar como as barreiras que nos colocamos a proteger os egoísmos individuais, de classe ou nacionais, são os obstáculos para podermos afrontar o que nos poderá vir a prejudicar a todos, humanidade e planeta. 

Avé, John Lennon!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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