A GUERRA NA UCRÂNIA – UM TEXTO DE ANTÓNIO GOMES MARQUES RETOMANDO UM “POST” DE VITAL MOREIRA

“Amigas(os)

Reencaminho os textos de Vital Moreira, ontem publicados no blogue «Causa Nossa», que deixo à vossa consideração, textos esses que subscrevo sem hesitar.

Para além do que naqueles curtos textos se diz, reproduzo uma fotografia, carregada de ironia, que recebi de um amigo:

Analisando o que está a acontecer, concluo que há um país francamente vencedor: a CHINA! Claro que a indústria de armamento americana também ganhou, mas, neste caso, quem irá pagar a factura será o governo americano.

Não resisto também a traduzir a parte final do texto de Nouriel Roubini, citado por Vital Moreira no seu «post» no blogue Causa Nossa, «Russia’s War and the Global Economy», datado de ontem e publicado em Project Syndicate:

«É tentador pensar que o conflito Rússia-Ucrânia terá apenas um impacto económico e financeiro menor e temporário. Afinal, a Rússia representa apenas 3% da economia global (e a Ucrânia muito menos). Mas os estados árabes que impuseram um embargo de petróleo em 1973, e o Irão revolucionário em 1979, representavam uma parcela bem menor do PIB global do que a Rússia representa hoje.

O impacto global da guerra de Putin será canalizado através do petróleo e do gás natural, mas não parará por aí. Os efeitos indirectos darão um golpe maciço na confiança global num momento em que a frágil recuperação da pandemia já estava a entrar num período de incerteza mais profunda e crescentes pressões inflacionárias. Os efeitos indirectos da crise na Ucrânia — e da depressão geopolítica mais ampla que ela augura — serão tudo menos transitórios.»

Por agora, fico por aqui.

Abraço

António

***

Causa Nossa

1. Não é admissível o silêncio sobre a invasão militar da Ucrânia pela Rússia, a maior operação bélica na Europa desde a II Guerra Mundial. Por mais previsível que fosse, não deixa de ser uma agressão, em grosseira violação do direito internacional e da Carta das Nações Unidas, que só pode merecer condenação geral.

Só é de lamentar que a Ucrânia e a Nato tenham fornecido pretextos à Rússia para esta ofensiva, desde o abandono do estatuto de neutralidade ucraniana (que tinha sido condição explícita do reconhecimento da independência ucraniana por Moscovo), logo substituída pelo pedido de adesão à Nato (uma óbvia provocação à Rússia), até ao incumprimento do acordo de Minsk de 2015 sobre a autonomia dos territórios russófonos do leste da Ucrânia (que Kiev manteve sob constante assédio militar).

Quando se mora ao lado de um gigante ressentido, convém não lhe dar pretextos para a agressão.

2. Para além dos imprevisíveis custos humanos, materiais e financeiros da guerra para os beligerantes e dos seus reflexos económicos negativos sobre terceiros países, especialmente na Europa (aumento dos custos da energia, inflação, travagem da retoma económica) – agravados pelas sanções e contrassanções -, esta lamentável guerra na Europa vem reestabelecer a inimizade estratégica entre o ocidente (EUA e UE) e a Rússia, que se julgava superada desde o desmoronar da União Soviética há três décadas, desvalorizando a oposição sistémica com a China, entretanto tornada uma potência económica e militar de primeiro plano e apostada em ocupar um lugar hegemónico num futuro próximo.

Se há uma capital que pode tirar proveito desta guerra europeia, é Pequim.

 

Adenda

Sobre o risco sério de estagflação (estagnação económica acompanhada de inflação) ver este texto de Nouriel Roubini (reservado a assinantes).

Adenda 2

A propósito de atual coro quase unâmine de condenação da invasão russa, noto que muitos dos críticos aplaudiram entusiasticamente, num passado não muito longínquo, agressões externas não menos ilegítimas e condenáveis, como a agressão da Nato à Sérvia, em 1999 (a pretexto de um suposto “genocídio” no Kosovo, que não passava de repressão do separatismo kosovar) e da invasão do Iraque pelos Estados Unidos, em 2003 (a pretexto de alegadas “armas de destruição maciça”, que depois se provou não existirem). Duplicidade de critérios, portanto!

Adenda 3

Um leitor pergunta porque é que a projetada adesão da Ucrânia à Nato seria uma “provocação à Rússia”. A resposta é: pela mesma razão que os Estados Unidos não tolerariam nenhuma aliança militar de um país seu vizinho com uma potência hostil, tendo por isso considerado uma intolerável provocação a instalação de mísseis soviéticos em Cuba, em 1962 (aliás em resposta à instalação de mísseis norte-americanos na Turquia), emitindo um ultimato para a sua retirada e pondo o mundo à beira de uma guerra nuclear. Nenhuma potência admite mísseis de outra apontados contra si no quintal do vizinho.

Adenda 4

Um leitor comenta que Putin quer ocupar a Ucrânia e destituir o governo, para depois conseguir, numa posição de força, obter os seus dois objetivos (neutralidade militar e política ucraniana e autonomia das províncias russófonas), a troco da desocupação e de um pacto de segurança do País. Pode ser que tal seja o resultado deste conflito, mas a invasão russa e as feridas da guerra terão destruído qualquer possibilidade de vizinhança respeitosa entre os dois países, além de uma nova “guerra fria” entre o ocidente e a Rússia.


Leia o original do texto de Vital Moreira clicando em:

Causa Nossa: Contra a invasão da Ucrânia (causa-nossa.blogspot.com)

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