Li, há alguns dias, um artigo antigo onde se citava um poeta, por ter escrito qualquer coisa como isto –quem não quiser cair na mentira, trate de não ser injusto com a verdade– uma coisa tão simples e tão evidente, que devia ser seguida por todos, especialmente pelos que têm responsabilidades com as comunidades, sejam elas quais forem, tenham os valores e as dimensões que tiverem.
E são pertinentes estas palavras quando, vemos grandes parangonas, lemos e ouvimos discursos a condizer, feitos por pessoas em lugar de destaque, discursos nem sempre arrumados da melhor maneira, mas que arrastam gente e mobilizam ecrãs, esquecendo a parte daquela frase de mais difícil seguimento –não ser injusto com a verdade– e, dramaticamente, estamos a assistir às consequências disso, cada dia que passa.
Já há mais de cinquenta anos, o activista e defensor do nacionalismo negro nos Estados Unidos, Malcom X, chamou a atenção para a realidade mediática e digital com que hoje nos confrontamos – Se não estás prevenido ante os meios de comunicação, far-te-ão amar o opressor e odiar o oprimido.
Um problema bem mais antigo, pois de acordo com Montaigne, –Ninguém está livre de dizer tolices; imperdoável é dizê-las solenemente- e a isto também assistimos com frequência, com mais ou menos passadeiras vermelhas, mesas quilométricas, holofotes, câmaras e fatos esterlicadinhos, em não poucos meios de comunicação.
Já nos acostumámos a ver, ler e ouvir em tudo quanto é sítio, pela estratégia interessada dos partidos, das indústrias de comunicação e potentados económicos, políticos e religiosos, repetindo-se sem quaisquer problemas, para nos atingirem com mensagens simples, estereotipadas e cheias de lugares comuns e, também, para nos fazerem ir atrás deles quando ‘arranjam’ soluções para problemas complicados, e podemos ver –espantemo-nos!– como têm resultados bem positivos na recolha de opiniões conformes, nos ambientes onde impera a iliteracia ou a ignorância, potenciada pelo férreo controlo dos meios de comunicação e igual vigilância e silenciamento de todos os jornalistas independentes.
Aliás, tanto eles como a extrema direita se alimentam ‘Da incerteza, da ignorância, da exclusão social, da desinformação, do catastrofismo, da apolítica militante e da descrença que apelam a emoções não reflexivas e, através das mentira e da demagogia, se serve dos “buracos” e das falhas das democracias em tempos de confusão e crise, para aproveitar a desesperança dos excluídos e impor uma qualquer forma de totalitarismo que defenda os interesses das oligarquias dominantes’, nas palavras de Pedro Angosto, historiador, escritor e colunista.
E estes longos tempos de pandemia, parecem ter sido aproveitados para nos apresentarem dilemas, verdadeiros e falsos, que acabaram por polarizar e confundir a sociedade, criar demasiado ruído e não poucas incoerências, forçando a maioria das pessoas a uma a escolha complicada, devido a uma informação dispersa e contraditória, entre a saúde, a economia e o inenarrável negacionismo, logo seguido de outra crise onde até se acredita valer mesmo tudo.
Uma situação que também parece ser consequência da degradação acentuada nos planos curriculares da educação, pois seguindo as crónicas de Viriato Soromenho Marques no DN, encontramos afirmações como esta ‘A educação científica afastou-se progressivamente dos laços que a filiavam numa tradição de cultura clássica, capaz de relacionar o fazer e o valorar, sendo, pelo contrário, mobilizada numa especialização crescente, vinculada a uma concepção de racionalidade meramente performativa e instrumental. O advento da globalização neoliberal fez o resto. Os Estados deixaram as ciências e os cientistas, incluindo as respetivas carreiras, entregues ao mercado e à maximização dos negócios empresariais’.
E, aqui ao lado, no ‘Publico.es’, o cronista David Torres vai mais longe, ao afirmar, ‘Há gente que em vez de estudar a sério, passa a vida a ler tontarias, acumulando disparates contra a teria da evolução, a esfericidade da Terra ou a eficácia das vacinas. Devíamos tê-lo previsto com antecedência, pois já tínhamos a certeza absoluta de que a ciência é um campo do conhecimento vedado a idiotas’.
Também não creio que seja um campo a ser explorado por clowns, mais ou menos louros, mais ou menos penteados, com mais ou menos cabelo, mas habituais, bem conhecidos e sempre presentes, até porque, retomando o parágrafo inicial sobre a justiça da verdade, não posso deixar de evocar aqui Stefan Zweig, ‘Toda a sombra é, ao fim e ao cabo, filha da luz e só quem conheceu a claridade e as trevas, a guerra e a paz, o subida e a queda, só esse sabe a verdade’, frase tirada do seu excelente livro, ‘O mundo de ontem’, memórias nostálgicas de um mundo destruído pelos extremismos que levaram, no século passado, às duas guerras mundiais.
E agora? Não tenho respostas, mas como afirmou há poucos dias, o já veterano filósofo Noam Chomsky, ‘Estamos num momento crucial da história da humanidade. Não se pode negar. Não se pode ignorar’.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor