A GALIZA COMO TAREFA – respice finem – Ernesto V. Souza

Tão os dias escuros. O pó ocre por toda a parte esvoaçando. De manhã como num decorado de filme de faroeste, do sertão, ou do deserto com as suas dunas moventes e ventos que zoam. E de tarde com uma luz estranha, já mais de filme apocalíptico no solpor.

Anda tudo como um anúncio de seca tropical antes da chuvalhada. Não é um mal cenário para ambientar episódio, neste ciclo de aventura e sobressalto em que andamos nos últimos anos.

Por toda a parte dão show para nos entreter. Toca pequeno almoço com a inflação no café e na imprensa. E realmente penso que foram muitas décadas boas. De mais para ser verdade. A questão é dissimular o de sempre. Que ninguém no comando tem ideia de como solucionar nada.

Ouço a gente dizer amiúde que a imprensa, os políticos e os analistas de hoje, não são profissionais, que contam de mais em mais mentiras; como se antes houvesse melhores e mais sábios políticos, historiadores ou cronistas. Para mim que não, que apenas a distância, o tempo vão deixando uma pátina que faz brilhar o estilo, as personagens e os textos, concedendo um valor, um prestígio e uma sugestão – afinal querem acreditar que qualquer tempo passado foi melhor – da que os originais no seu momento careciam:

La première chose à faire, lorsque l’on veut connaître l’histoire d’Italie, c’est donc de ne point lire les auteurs généralement approuvés ; nulle part on n’a mieux connu le prix du mensonge, nulle part il ne fut mieux payé.

(Stendhal : Chroniques italiennes – L’Abbesse de Castro, Paris, Gallimard, 1936, p. 12)

Realmente fascina-me essa pátina, como foi pousando, como se vai criando e por vezes falsificando. Nela pode-se estudar e analisar como umas ideias, uns protagonistas, uns troppos, textos, autores, livros, pensamentos terminam sendo canónicos e valorizados nas décadas e séculos a seguir, por cima do contexto em que apareceram, do seu próprio tempo, valor, arte, importância, debate, diálogo ou referencias com a tradição.

O mundo anda, e o mundo andou, e lá foi, como tantas vezes, tanta cousa, tanto discurso, tanto protagonista. Vivemos tempos de fim de ciclo. Mas e quê? A vida é que nos leva, e os atos e decisões acumulados guiam sempre o que vem a seguir. Não podemos continuar na repetição e na paralise permanente. Precisamos novos projetos, discursos novos, mais realistas. Independentes a respeito do que já temos visto, dos protagonistas e propostas, das ideias do ciclo 1980-2005. Menos debater e criticar contra sombras e pó que o tempo foi levando. Outros caminhos. Mais projetos próprios, baseados no que temos arredor e no que queremos.

Contudo, serão os dias, mas ando pouco animado e mais bem pessimista. E mais a respeito da língua galega e a respeito da Galiza como projeto ou tarefa. Porém, uma cousa tenho clara, de tanto como se tem falado e debatido. De tanto contributo, protagonista e discurso. Que leve o vento ou o tempo. Não me sai da cabeça o verso final do famoso “Respice Finem” de Gomez Tonel:

… son neboa, sombra, poo, son vento e fume.

 

 

em Relación de las exequias que hiço la Real Audiencia del Reyno de Galiçia a la Magestad de la Reyna D. Margarita de Austria nra Señora / descriptas y puestas en stilo por Ioan Gomez Tonel .

Sanctiago : por Io Pacheco, anno de 1612 (Poesias em galego)

BUSC- Minerva

 

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