Esta estória tem já muitos anos, estava eu ainda na quarta classe; um dia o professor, já Abril ia adiantado, com a intenção de nos preparar para o nosso futuro, o encontro com os livros e a literatura e, por arrasto, para o exame de admissão ao liceu, deu uma espécie de aula em volta da mesa grande da sala da sua própria casa, para onde nos começou a levar, mas só por sermos da quarta classe; mostrou-nos, à meia dúzia que ali estávamos, aquilo que ele chamou ‘O livro fantástico’.
Tinha mais o aspecto de um caderno, capas azuis escuras e cosido à mão, agitou-o bem antes de o passar para as nossas, enquanto ia dizendo qualquer coisa como isto –Este livro é para vos ensinar a pensar e a ver uma das riquezas que vos coube pela vontade dos céus e que têm de aprender a usar, a imaginação!– e estendemos as mãos para o agarrar.
O professor entregou-o a um de nós, um aluno mais gordinho e bem atilado para decorar versos, que logo nos mirou de lado e que, só por aquilo, até deve ter crescido dois dedos. Abriu-o e, pasmado, olha o professor e –Não tem nada escrito! As páginas estão todas em branco!–
O professor sorriu bonacheirão e, voltou a pegar no livro –Não tem palavras, as palavras são as que a vossa imaginação ditar; podem ser as do que vos aconteceu ontem, do que encontraram hoje diferente no caminho da escola, ou outra coisa qualquer que vos encantou ou deixou triste; são essas as coisas da vida, aquilo que vocês vão encontrar daqui para a frente e, se calhar, também vão precisar de as contar a quem tiverem ao lado–
Voltou a entregar o livro e, a pouco e pouco, fomos contando estórias e o professor, sentou-se devagarinho e sem fazer barulho, pôs o queixo entre as mão e ficou a olhar para nós, com atenção e carinho, a ver-nos passar ‘O livro fantástico’ de mão em mão, até todos termos contado uma estória.
Quando saímos, com uma festa no cabelo a cada um, –Façam também um livro para vocês, que vos vai ajudar a vida toda! Até amanhã!-
Lembro-me muitas vezes do meu antigo professor, por ver como por cá, neste monocolor Eucaliptal, onde e a saber pelas conclusões de um estudo sobre as práticas culturais dos portugueses, feito pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, 61% nunca leu um livro no ano anterior, 72% nunca visitou um museu e 41% foi apenas uma vez ao cinema.
Estou convencido que qualquer ‘O livro Fantástico’ como aquele, iria acabar no caixote do lixo mais à mão, até por não ter palavras nem teclas, para se poder responder a uma qualquer mensagem cheiinha de emojis, que funcionam por elas, porque um pensamento original e criativo, é cada vez mais difícil.
De acordo com Aristóteles, o ser humano é um animal dotado de linguagem, que fala e precisa da comunicação para viver, para se poder relacionar com outros, conviver. Somos só e também, o tudo dos que vieram antes, de todos os que nos precederam, aliás o conjunto de símbolos, signos e normas que aqui encontrámos, quando chegámos. Mas não podemos nem devemos esquecer, que nós todos, como eles, também teremos um fim, por muito que isso nos desgoste, mas acaba por ser e se transformar no elemento estrutural da condição humana.
Mas o ser humano também inventou um objecto distinto e diferenciador de todos os outros, o livro. Livro em que, pelas suas características ‘fantásticas’, para usar o vocábulo do meu antigo professor, o imaginar e o acto de ler são o abrir portas e janelas para o mundo, por onde se pode sair, mas ao mesmo tempo, o portão de entrada para o pensamento, para correr o risco de poder vir a transformar-se, de o comunicar aos outros e de fazer ainda que as nossas certezas e convicções, também possam desaparecer num só instante.
E quando acabámos o tempo da escola, aquele professor voltou a referir aquela tarde e aquele livro cosido à mão, –O livro fantástico, leva a que se levantem, que caminhem e voltem ao livro, a esse ou a qualquer outro, mas para o lerem, para o contar e falarem dele a alguém, que o possa vir a ler também. Nunca o deitem ao lixo, vai lá estar a vossa vida!-
E também viemos a aprender depois, como a língua é o contentor da cultura, a única coisa que pode fazer frente aos dogmas sociais, os que têm origem nas mais diversas instituições e entidades pois, por ser íntima e pessoal, tem todas as condições para ser comunal, a da comunhão e da partilha e, como diz López Guerrero, professor de língua e literatura, ‘O abecedário pueril é tálamo e Estado; nas mãos de alguns, bordel e tirania’.
E para se ter consciência desta dualidade, o que está a acontecer no mundo também servirá de alerta, por sabermos bem que a incerteza, a barbárie, o desassossego, as dúvidas e as tristezas, já fazem parte do nosso quotidiano, se as tivermos compreendido bem ao ler as páginas sem letras de um qualquer ‘O livro fantástico’, igual ao que o meu antigo professor nos mostrou, há umas boas dezenas de anos, lá, na mesa grande da sala da sua casa.
Aliás e, talvez a propósito, escreveu Guilherme d’Oliveira Martins, num DN de Fevereiro passado, ‘O património cultural é vida. Sejamos capazes de ligar com imaginação essa referência, à capacidade de sermos mais exigentes, de modo a recusarmos o fatalismo e a inércia’.
Mas… ainda haverá professores assim, daqueles que ensinam como se podem ler ‘livros fantásticos’?
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor


