Dê-se uma chance à paz, dê-se sentido de vida a este nosso mundo — Texto 1. Como evitar a terceira guerra mundial? Por Noam Chomsky

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

40 m de leitura

 

“Tivemos em pouco tempo uma sequência abreviada da história que antecede o Juízo Final: mergulhámos no inferno do aquecimento da Terra, (à medida de uma escala macro) enfrentámos a catástrofe sanitária  provocada pelo vírus (descemos então para a escala micro) e despertámos para o apocalipse sem Reino da ameaça nuclear ( sintonizando-nos com a medida humana, demasiado humana)”

(…)

“Quando todas as informações e comentários redundam em exclamações, indignações e interjeições  percebemos que a escalada não é apenas a da guerra, é também a da idiotice”

António Guerreiro, Público, 13 de maio de 2022

 

Texto 1. Como evitar a terceira guerra mundial?

Noam Chomsky entrevistado por Nathan J. Robinson, editor chefe de Current Affairs

Publicado por  em 13 de Abril de 2022 (original aqui)

 

Noam Chomsky

O Professor Noam Chomsky é um dos intelectuais mais influentes do mundo. Escreveu mais de 100 livros, mais recentemente Consequences of CapitalismManufacturing Discontent and Resistance, em co-autoria com Marv Waterstone, a que se irá seguir, ainda no prelo,  The Withdrawal: Iraq, Libya, Afghanistan, and the Fragility of U.S. Power com Vijay Prashad. Atualmente é Professor Laureado na Universidade do Arizona e Professor Emérito no Departamento de Linguística e Filosofia no MIT. O Professor Chomsky apareceu recentemente no podcast Current Affairs numa entrevista com o editor Nathan J. Robinson, onde discutiram a ameaça da guerra nuclear, como a cultura americana frequentemente fomenta a indiferença pelo sofrimento das pessoas noutros países, e a história da política externa americana que nos trouxe até este ponto. Esta entrevista foi editada com ligeiras modificações por uma questão de gramática e clareza. Toda a entrevista pode ser ouvida integralmente aqui.

 

ROBINSON: O senhor debate frequentemente o facto de que existem duas ameaças existenciais paralelas à civilização humana. Há a ameaça de uma catástrofe climática. E depois há a ameaça das armas nucleares e da guerra mundial. Uma delas é mais frequentemente mencionada do que a outra. Na verdade, na semana passada tivemos aqui outro professor Chomsky para discutir a crise climática – ela é a professora Aviva Chomsky, ela falou sobre o seu livro Is Science Enough? Forty Critical Questions About Climate Justice. Falámos muito sobre a crise climática, mas eu quero agora falar sobre armas nucleares e guerra. E quero começar de uma forma ligeiramente inabitual . Quero voltar a 1945. Estive recentemente a ler Daniel Ellsberg. No seu livro The Doomsday Machine, ele diz que quando estava na escola secundária foi-lhe pedido para escrever um trabalho e o seu professor explicou-lhes que estavam a considerar a possibilidade de fazer um novo tipo de bomba que poderia destruir uma cidade inteira. Ele diz que toda a sua turma escreveu o seu trabalho sobre esta bomba. E todos concordaram que se tal coisa alguma vez fosse construída, seria tão totalmente destrutiva para a civilização humana que teria de ser completamente eliminada. E depois, é claro, alguns anos mais tarde, a bomba foi realmente lançada. Por isso, quero começar por levá-lo de volta a esse tempo. O senhor testemunhou-o – o início da era da ameaça nuclear. Lembra-se de como se sentiu quando percebeu o que tinha sido feito a Hiroshima e Nagasaki, quando viu a abertura desta terrível possibilidade, desta mudança em todo o mundo?

CHOMSKY: Lembro-me muito bem. Eu era um jovem conselheiro num acampamento de verão. Pela manhã, foi anunciado pelo altifalante do acampamento que uma bomba atómica tinha sido lançada sobre Hiroshima e destruído a cidade. Todos prosseguiram com as suas atividades matinais: jogos de basebol, natação, o que quer que tenha sido. Fiquei absolutamente horrorizado. Não podia acreditar. Primeiro que tudo, ninguém sabia os detalhes do que tinha acontecido, mas o quadro geral era claro. Portanto, antes de mais nada, sobre o que tinha acontecido. Em segundo lugar, a reação. Na realidade, um duplo terror.

Fiquei tão horrorizado que deixei o acampamento, fui dar um passeio sozinho na floresta e sentei-me durante algumas horas a pensar. Era bastante claro que a inteligência humana em toda a sua glória tinha chegado ao ponto de poder destruir em breve toda a vida na Terra. Bem, ainda não. Quer dizer, a bomba atómica tinha uma capacidade limitada. Em muitos aspetos, o bombardeamento de Hiroshima não foi pior que o lançamento de bombas incendiárias sobre Tóquio alguns meses antes, e a sua escala provavelmente não atingiu esse nível. Mas era evidente que o génio estava fora da garrafa, que a tecnologia e a ciência modernas avançariam ao ponto de serem capazes de destruir tudo, pelo que se tratava de um duplo terror. E esse ponto foi de facto atingido em 1953, com a explosão das armas termonucleares. Nessa altura, o que eu sentia era que estávamos perdidos. Se a inteligência humana estiver tão à frente da capacidade moral humana, a hipótese de colmatar essa lacuna é pequena, especialmente quando se vê a reação que só cresceu nos dias que se seguiram. Basicamente, ninguém se importou, essa foi a reação!

 

ROBINSON: Uma das características profundamente perturbadoras da vida americana é a total desconexão entre a realidade da guerra no terreno e a forma como os americanos falam sobre ela. Quando a notícia se espalhou, a frase “destruiu uma cidade” não transmite realmente o que realmente aconteceu. Mas depois começaram a chegar as fotografias e os testemunhos, e começamos a compreender o que isso realmente significa. Mas por alguma razão, essa consciência – esse sentido real do que é a guerra para aqueles que a vivem – parece estar ausente da conversa. Hoje, por exemplo, podemos ter estas conversas em abstrato, e as pessoas pensam, por exemplo, “Oh, sim, seria uma boa ideia envolver a Rússia militarmente, pode haver um pouco de risco nuclear”, sem realmente compreender a realidade humana da situação.

CHOMSKY: Bem, deixem-me falar-vos de uma das experiências mais horríveis da minha vida, no início dos anos 50, talvez por volta de 1951-52, foi com a minha primeira mulher que faleceu há muitos anos atrás. A minha mulher e eu éramos estudantes de pós-graduação. Uma noite, decidimos ir ver um filme. Então olhámos para os anúncios dos filmes e, para nossa surpresa, vimos um filme com o título Hiroshima. Foi surpreendente. Vivíamos em Boston, e o filme foi projetado  num bairro chamado Scollay Square. Era o bairro da pornografia na cidade . Nunca lá tínhamos estado. Mas pensámos em ir ver este filme. Foi apresentado como sendo um filme pornográfico. O público estava a rir-se em voz alta. Era um filme gráfico. Foi um filme muito realista. Não sei onde tinham rodado o filme. Mas era um filme em direto de Hiroshima: as pessoas corriam com a pele a soltar – cenas horrorosas – e era exibido como um filme pornográfico, e enquanto isso as pessoas riam às gargalhadas. Consegue sequer imaginar isso?

Bem, posso dizer-vos pela minha própria experiência. Quando eu era criança, nos anos 30, eu e os meus amigos costumávamos correr na floresta, a brincar aos cowboys e índios. Nós éramos os cowboys, matando os índios. Está bem. Não sei se isso ainda era verdade quando você tinha a mesma idade. Essa é a história dos Estados Unidos. Os Estados Unidos nunca são atacados, não até ao 11 de Setembro. O último ataque em solo americano foi a Guerra de 1812. O que fazemos é andar a  atacar os outros.

 

ROBINSON: E é claro que continuamos a ver esta atitude de nos mostrarmos indiferentes à guerra ou a aceitar sem qualquer preocupação as atrocidades infligidas pelo nosso país a outros países

CHOMSKY: E continua até aos dias de hoje. Neste momento, estamos a ouvir declarações heroicas de pessoas no Congresso ou de peritos em política externa dizendo que deveríamos criar uma zona de exclusão aérea, por exemplo, para defender a Ucrânia. Felizmente, existe uma força de manutenção da paz no seio do governo. Chama-se o Pentágono. Até agora, vetaram as declarações heroicas de membros do Congresso, que mostram aos seus eleitores o quanto são corajosos, salientando que uma zona de exclusão aérea não significa apenas abater aviões russos, mas também atacar instalações antiaéreas russas dentro da própria Rússia. E o que acontece a seguir? Bem, na verdade, as últimas sondagens mostram que cerca de 35% dos americanos estão a ouvir a retórica heroica do Congresso e dos conselheiros. Trinta e cinco por cento dizem que pensam que devemos entrar em guerra na Ucrânia, mesmo que isso signifique que arriscamos uma guerra nuclear. O fim de tudo. O país que lançar a primeira bomba será destruído.

 

ROBINSON: As pessoas estão a defender uma escalada. Mas existe também, evidentemente, um risco muito sério de que qualquer conflito entre potências nucleares possa escalar sem que nenhum dos lados o deseje, e que erros e disfunções possam fazer com que qualquer guerra quente entre potências nucleares se transforme num desastre

CHOMSKY: Devemos também compreender algo que o Pentágono, pelo menos, compreende muito bem. Os russos têm armas nucleares mais do que suficientes. Mas eles têm um sistema de alerta muito limitado. Utilizam um sistema de aviso de radar que está há muito desatualizado e obsoleto. Ou seja, não pode detetar mais longe do que o horizonte. Os EUA utilizam um sistema de alerta por satélite. Assim, se alguma coisa acontecesse em qualquer lugar no terreno na Rússia, seríamos informados imediatamente. Mas a Rússia não saberia nada sobre o assunto até pouco antes do ataque, o que significa que é muito provável que confundam um aviso acidental com um lançamento real de mísseis. E não teriam tempo de se preparar para isso.

Tem-se estado muito próximo no passado. Num caso bem conhecido, no início dos anos Reagan, a administração, na sua grande sofisticação, estava a simular ataques à Rússia para tentar testar as defesas russas, incluindo ataques nucleares simulados. Assumiram que os russos iriam perceber que tudo isto era um espetáculo. Bem, não foi assim que funcionou. Os russos pensaram que talvez fosse real. Foi numa altura de alta tensão nos assuntos internacionais, quando a instalação de mísseis Pershing na Europa Ocidental estava a ser discutida, e estes têm um tempo de voo de cinco a dez minutos antes de atingirem Moscovo, pelo que os russos estavam bastante nervosos. E estivemos muito perto de uma guerra nuclear terminal. Foi detida por um russo [chamado Stanislav Petrov]; ele era o oficial encarregado de monitorizar os sistemas de alerta. E houve um aviso automático de que estava em curso um ataque com mísseis. De acordo com o protocolo, ele deveria enviá-lo aos seus superiores, que teriam apenas alguns minutos para decidir se lançariam ou não um ataque a tempo, mas ele decidiu não o fazer. Ele acabou por ficar a ver o aviso. E ele sentiu que o tempo de aviso era suficiente. Por isso, decidiu não intervir. Mais tarde foi criticado e sancionado por isso. Mas ele salvou o mundo da destruição.

Isto não foi a única vez. Todos sabemos que estamos a brincar com o fogo. E, como digo, mais de um terço dos americanos estão a reagir como as crianças no meu acampamento de Verão em 1945. Muito bem, quem se importa? Sejamos heroicos e vamos em frente e façamo-lo. Penso que nunca houve uma época mais perigosa do que esta, durante a era nuclear.

 

ROBINSON: Agora, com respeito ao atual conflito, pensa que a atitude dos Estados Unidos e a sua atual política em relação à Rússia na Ucrânia aumenta ou diminui a ameaça de escalada para uma guerra maior e mais séria?

CHOMSKY: Não sei se o viu. Mas há alguns dias houve uma entrevista muito importante com uma das figuras mais sensatas e respeitadas dos círculos diplomáticos americanos de hoje, o Embaixador Chas Freeman. Uma entrevista muito importante. Salientou que a atual política dos EUA, que criticou amargamente, é “combater a Rússia até ao último ucraniano”, e deu-nos um exemplo: a declaração heroica do Presidente Biden sobre o criminoso de guerra Putin – o homólogo de Biden como criminoso de guerra. E Freeman salientou o óbvio: os EUA estão a fazer tudo o que pode para destruir a Ucrânia e conduzir a uma guerra terminal.

No nosso mundo atual, existem duas opções no que diz respeito à Ucrânia. Como sabemos, uma opção é um acordo negociado, que oferecerá a Putin uma saída, um acordo pouco glorioso. Será ele possível? Não sabemos; só podemos saber ao tentar mas recusamo-nos a tentar. Mas essa é uma opção. A outra opção é deixar explícita e claramente claro a Putin e ao pequeno círculo de homens à sua volta que não há saída, que eles vão ser julgados num julgamento por crimes de guerra, façam eles o que fizerem. É o que Boris Johnson acaba de dizer novamente: as sanções continuarão, independentemente do que façam. O que é que isso significa? Significa: ir em frente e destruir a Ucrânia e preparar o terreno para uma guerra terminal.

Estas são as duas opções: e estamos a escolher a segunda e congratulamo-nos por sermos heroicos e pelo facto de o fazermos: lutar contra a Rússia até ao último ucraniano. Por vezes torna-se – não sei se devo usar a palavra cómico ou grotesco. Há alguns dias atrás – tenho a certeza que viu isto – Hillary Clinton propôs que fizéssemos o truque do Brzezinski. [Em 1998], Brzezinski, que era conselheiro de segurança nacional de Carter, deu uma entrevista em França na qual se gabou de como tinham arrastado a Rússia para a guerra no Afeganistão [começando a guerra soviético-afegã de 1979-89] [1]. Ninguém sabe se se tratava de uma vanglória ou de uma realidade, mas isso não importa muito. O que ele disse foi que, como conselheiro de segurança nacional antes da invasão russa, tinha convencido Carter a enviar armas para as forças rebeldes que atacavam o governo pró-russo no Afeganistão, pensando que isso iria atrair os russos para a guerra.

E então os russos – de facto, sabemos agora isto pelos arquivos russos publicados – reconheceram muito rapidamente que tinham cometido um erro e que queriam retirar-se. Mas os Estados Unidos, seguindo Brzezinski no seu golpe de génio – esta é a era Reagan – orquestraram a luta de fanáticos islamistas radicais em todo o mundo, incluindo Osama bin Laden, para liderar a luta para garantir que os russos aí permanecessem, matando provavelmente um milhão de afegãos e devastando o país.

O entrevistador perguntou a Brzezinski sobre isto. Ele perguntou: “Acha que valeu a pena fazer isto? A resposta foi: Olha, o que é que representa o destino dos afegãos em comparação com a importância de derrubar o inimigo global?” É aí que nos encontramos hoje. Foi Hillary Clinton há dois dias que disse: “Vamos fazer isto. Vamos atrair os russos para a Ucrânia, vamos lutar uma dura guerra de guerrilha, vamos ser muito duros com eles. Isso irá esgotá-los, destruí-los, vamos derrubá-los”. Naturalmente, no processo, a Ucrânia será aniquilada. Muito bem, é aí que nos encontramos agora, no extremo liberal do espectro. Não estou a falar de Josh Hawley. [Josh Hawley, o primeiro senador republicano a opor-se à certificação do colégio eleitoral validando a eleição de Biden em 2020, que se diz estar a posicionar-se para suceder a Trump como nomeado em 2024].

 

ROBINSON: Mas como é que reage, quando alguém diz, “olhe, isto é uma invasão agressiva? É um crime de guerra”. Sim, isso é um facto, os Estados Unidos podem ser hipócritas, mas é um crime de guerra. O presidente ucraniano tem vindo a implorar principalmente por uma zona de exclusão aérea ou, na ausência de uma, por mais armas. Esta é uma batalha pela soberania da Ucrânia. E qualquer resolução do conflito que dê a Putin uma saída é uma espécie de complacência que apenas encoraja mais guerra agressiva no futuro. Como é que responde a este raciocínio?

CHOMSKY: Bem, não vou criticar Zelensky. Está a agir com grande coragem, grande integridade. É possível compreender a sua posição e simpatizar com ele, dada a situação em que se encontra. No entanto, o Pentágono tem uma posição mais sensata. Sim, podíamos ir para a guerra. Poderíamos fornecer a Zelensky aviões a jato e armas avançadas. Muito em breve, Putin intensificaria radicalmente o ataque à Ucrânia, exterminando-a, o que tem capacidade para fazer. Ele atacaria as cadeias de abastecimento que fornecem armas avançadas. E iríamos acabar numa guerra, que seria uma guerra nuclear, que nos aniquilaria a todos.

Portanto, não estou a criticar Zelensky; ele é uma pessoa honesta que tem demonstrado grande coragem. Pode-se ter simpatia pelas suas posições. Mas também se pode estar atento à realidade do mundo. E é isso o que implica. Volto ao que disse antes: basicamente há duas opções. A primeira opção é continuar a política que estamos atualmente a seguir, para citar novamente o Embaixador Freeman, lutar contra a Rússia até ao último ucraniano. E sim, podemos prosseguir essa política, arriscando-nos a uma guerra nuclear. Ou podemos enfrentar a realidade e admitir que a única alternativa é um acordo diplomático, que será pouco glorioso – mas que dará a Putin e ao seu círculo interno uma saída. Com isso dir-se-á : “É assim que se pode sair sem destruir a Ucrânia e sem continuar a destruir o mundo”.

Sabemos que o quadro básico é a neutralização da Ucrânia, algum tipo de compromisso para a região de Donbass, com um elevado nível de autonomia, talvez dentro de uma estrutura federal na Ucrânia, e o reconhecimento de que, goste ou não, a Crimeia não é uma opção na agenda. Você pode não gostar, pode não gostar do facto de vir um furacão amanhã, mas não pode impedi-lo dizendo: “Não gosto de furacões” ou “Não reconheço que há um furacão”. Isso não ajuda nada. E o facto é que qualquer analista racional sabe que a Crimea está, de momento, fora de cena. É a alternativa à destruição da Ucrânia e da guerra nuclear. Pode fazer todas as exigências heroicas que quiser, sobre não gostar de furacões, ou não gostar da solução. Mas isso não beneficia ninguém.

 

ROBINSON: A administração Biden parece não estar disposta a procurar soluções diplomáticas que poderiam ter sido implementadas antes da invasão. A opinião que os americanos estão a receber dos media é basicamente que Putin invadiu a Ucrânia porque é um psicopata, e que agora cabe-nos a nós cumprir a nossa missão, a  de fornecer armas aos ucranianos. E o único verdadeiro debate é: quantas armas devemos dar-lhes? E devemos apenas dar-lhes armas? Ou devemos intervir militarmente? E é aí que está o debate. Mas uma forma mais racional de olhar para o problema, como diz, seria pensar em como evitar que os ucranianos morram nesta guerra horrível. E isso iria alterar consideravelmente o leque de opções.

CHOMSKY: Concordo plenamente consigo, exceto no que diz respeito à escolha da palavra “racional”. É a maneira mais humana de o fazer. Hitler era perfeitamente racional, sabe; não é uma questão de racionalidade. Pode ser racional e ser a favor do genocídio e do extermínio. Henry Kissinger, que é muito enaltecido nos Estados Unidos – tenho a certeza que foi bastante racional quando deu à Força Aérea dos EUA esta ordem que foi passada por Richard Nixon, o seu chefe meio bêbado. A ordem foi, e cito, uma campanha massiva de bombardeamentos no Camboja, sobre “tudo o que voa, sobre tudo o que se move”, por outras palavras, arrasar tudo. E isso é um apelo a um genocídio em massa. Não creio que se consiga encontrar um equivalente nos arquivos; poderia tentar. Bem, isso foi perfeitamente racional. Foi uma forma de se avançar em Washington. Era uma forma de ir para maior glória, não há nada de irracional nisso. Na verdade, funcionou muito bem. É agora uma das pessoas mais reconhecidas e respeitadas no país. Isso é apenas um dos seus lados. Se tivéssemos a coragem de olhar para a história americana, poderíamos aprender muito.

 

ROBINSON: Portanto, a questão não é que os Estados Unidos estejam a agir de forma que não faça sentido. É que quando olhamos para a história da política americana, vemo-nos a fazer coisas que são, como diz, perfeitamente racionais, mas que por acaso são apenas dignas de sociopatas. E isso é verdade, incidente após incidente.

CHOMSKY: Então, tomemos outro dos êxitos de Kissinger: o derrube do governo parlamentar no Chile e a instalação da brutal e assassina ditadura de Pinochet. Neste preciso momento, os chilenos estão ocupados a tentar libertar-se dessas consequências. Kissinger era muito racional; ele tinha as suas razões. E estas razões são dignas de ser ouvidas. Ele disse: “Se a democracia parlamentar reformista for bem sucedida no Chile, então os seus efeitos serão muito prejudiciais. Espalhar-se-á pelo Sul da Europa, onde Itália e Espanha estão a namoriscar com partidos da esquerda parlamentar – o que costumava ser chamado de eurocomunismo, na verdade, social-democracia. Não queremos que este vírus se propague à Europa. Por isso, é melhor eliminá-lo no Chile.

É racional? É a política clássica. Foi por isso que entrámos na Guerra do Vietname no início da década de 1950. Basta olhar para o registo nacional – bastante racional. Após a chamada queda da China [chegada ao poder de Mao Tsé Tung] temos de garantir que o vírus do nacionalismo independente bem sucedido não se propaga por contágio – frase de Kissinger – a outros países da região, levando eventualmente a que o Japão se reconcilie com uma Ásia Oriental independente, o que significa que perderíamos a Guerra do Pacífico, que foi travada para evitar isso.

Bem, não é isso que nos ensinam na escola, ou mesmo o que se lê na maioria dos livros escolares, mas foi isso que aconteceu. É um exemplo atrás do outro. Os grandes estadistas europeus como Metternich, os que serviram de modelo a Kissinger, ficaram aterrorizados com a Revolução Americana, que corria o risco de espalhar a maldição do espírito republicano, isto é, a democracia parlamentar, a uma grande parte do mundo e assim quebrar o sistema europeu de dominação mundial. Os Estados Unidos não a inventaram. E se tivéssemos um país livre, onde as pessoas aprendessem a realidade do mundo, eu não teria de dizer isso agora. Todos o teriam aprendido na escola secundária.

 

ROBINSON: Um dos princípios subjacentes a todo o seu trabalho sobre política externa americana é que para além de toda a pomposa retórica sobre liberdade e democracia, se olharmos atentamente para os factos, o que vemos é um registo contínuo e terrível de sofrimento humano. Quer se trate de pessoas atacadas com bombas incendiárias em Tóquio, Dresden ou Hamburgo, pessoas em aldeias no Vietname ou iraquianas, somos confrontados com um terrível registo de sofrimento humano do qual nos distanciamos. Apesar do que os líderes políticos americanos podem acreditar – e podem acreditar que são idealistas, podem acreditar que são pessoas genuinamente preocupadas em combater o autoritarismo – quando olhamos realmente para o que estão a fazer, o que vemos é o nosso verdadeiro e cruel interesse próprio a orientar constantemente a nossa ação no mundo.

CHOMSKY: Não somos diferentes de outros. Tomemos o nosso predecessor quando se trata de dominação imperial, a Grã-Bretanha. O odioso registo de séculos de imperialismo britânico está apenas a começar a vir à luz. Caroline Elkins acaba de publicar um livro muito importante [Legacy of Violence] sobre a história do imperialismo britânico. Shashi Tharoor, que é indiano, também publicou recentemente um livro sobre a história do imperialismo britânico [Inglorious Empire: What the British Did to India] Este trabalho é apenas o começo do levantar do véu sobre os crimes hediondos que a Grã-Bretanha tem cometido ao longo dos séculos.

Entretanto, os intelectuais britânicos gabavam-se de serem as pessoas mais morais do mundo, mesmo as melhores, como John Stuart Mill, por exemplo. É bastante difícil encontrar um intelectual com uma tão elevada estatura moral. Então, o que estava ele a fazer? Voltemos a 1857, um dos períodos de pico da atividade criminosa britânica: a hedionda e assassina destruição da revolta na Índia. Mill sabia de tudo isto. Era um agente da Companhia das Índias Orientais. Mill escreveu um famoso ensaio, que é ensinado em escolas de direito nos Estados Unidos, mas obviamente sem compreender o que ele dizia. Vale a pena ler. É um texto sobre o intervencionismo, e ele explica que nos devemos opor à intervenção nos assuntos dos outros, mas diz que há exceções. Uma dessas exceções é quando é um país como a Grã-Bretanha que intervém, porque a Grã-Bretanha, diz ele, é um país de grandeza. Não é um país como qualquer outro. Na verdade, somos tão maravilhosos que outros países são incapazes de compreender isso e estigmatizam-nos porque não conseguem compreender que o que estamos a fazer é para o bem da humanidade. Quando massacramos indianos, e nos apropriamos de uma grande parte da Índia, a fim de aumentar o nosso controlo sobre o comércio do ópio, para que possamos forçar a nossa entrada na China, eles simplesmente não conseguem compreender o benfeitor que somos, e criticam-nos. Mas temos no entanto de pôr as suas críticas de lado, reconhecer que eles simplesmente não são capazes de compreender a nossa magnificência e de nos seguir nas nossas ações humanistas.

É isso mesmo, John Stuart Mill, é isso mesmo. Não conheço nenhum intelectual americano que seja digno de engraxar os seus sapatos. Então porque nos surpreendemos quando eles dizem a mesma coisa?

 

ROBINSON: Ouvimos histórias idênticas de intenções nobres quando ouvimos as justificações da Rússia para invadir a Ucrânia. Como assinala, cada país poderoso diz a si próprio mitos nobres e edificantes para justificar as suas atrocidades. Mas os EUA em particular têm este tipo de extrema ignorância da sua própria realidade e são extremamente hipócritas nas suas condenações de outros países sem estarem preparados para se submeterem a análises críticas semelhantes sobre eles.

CHOMSKY: Biden acabou de dizer que Putin é um criminoso de guerra, que temos de o levar a julgamento por crimes de guerra. Bem, faço muitas entrevistas e palestras em todo o mundo, virtualmente, e muitas delas no Sul global. Pode ler sobre isso nos jornais. Quando lhes pergunta: “O que pensa da declaração de Biden?” A sua resposta é: “Ele deve saber alguma coisa sobre isso para que o reconheça noutras pessoas”.

E no entanto celebram a maravilhosa coragem de alguém que diz que Putin é um criminoso de guerra. É possível ler artigos do prestigioso Atlantic Council [grupo de reflexão americano especializado em relações internacionais] a expressarem uma intensa indignação moral sobre os crimes hediondos da Rússia na Ucrânia. Se der uma vista de olhos sobre as pessoas que escrevem estes artigos, e recuar alguns anos, estas mesmas pessoas louvavam o maravilhoso sucesso da invasão do Iraque, usando retórica que teria envergonhado os mais desprezíveis burocratas da Rússia, glorificando as nobres intenções, o esforço para levar a  democracia ao Iraque, um país atrasado.

As pessoas do Sul não precisam de ser lembradas disto. São eles que têm sido vítimas do terror e datortura. Há cerca de uma hora, tive uma entrevista com a televisão pública belga. Falámos sobre isto e mencionámos alguns crimes recentes, tais como o assassinato pela Bélgica de Patrice Lumumba [líder da independência congolesa], que era a esperança da África. O principal país africano, o Congo, sofreu terrivelmente com as atrocidades belgas, que foram piores do que a maioria das atrocidades europeias, e isso é dizer que era uma barra difícil de superar. Depois, finalmente, houve a descolonização em 1960: o principal país de África, que dispunha de recursos gigantescos, poderia ter sido um país rico, estava a conduzir África para a liberdade e o desenvolvimento. Os Estados Unidos e a Bélgica não queriam isso. Eisenhower lançou um ataque; a CIA deveria ter assassinado Lumumba. Não tiveram êxito. Os serviços secretos belgas vieram primeiro e transformaram o Congo em algo que tem sido uma câmara de horror desde então.

Esta não é uma história antiga. As pessoas no Sul sabem estas coisas. Eles sabem tudo sobre o Iraque, a América Central e o Vietname. Eles sabem o que nós fizemos. Assim, quando ouvem estas declarações, ou riem de nós fazendo figura de parvos ou não conseguem acreditar no que se passa nesta parte incivilizada e bárbara do mundo que é a Europa e os Estados Unidos.

 

ROBINSON: Gostaria de voltar ao tema das armas nucleares e ao caminho a seguir para evitar que uma guerra que ponha fim à civilização. Falámos de Hiroshima. E obviamente, nas décadas seguintes ao fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos e a URSS basicamente fizeram planos muito complicados sobre como se limparem mutuamente da face da terra. Planearam um genocídio global, por assim dizer. Isso nunca aconteceu. Conseguimos atravessar a Guerra Fria. Mas quando falamos destas armas, é disso que estamos a falar: a perspetiva de genocídio a uma escala nunca antes vista.

O jornal Político tem como título de um artigo: O debate está a aquecer no Capitólio sobre o financiamento para os militares. Os Democratas enfrentam um dilema: sustentar o orçamento historicamente elevado do Pentágono ou gastar ainda mais. Há um artigo em Foreign Affairs: “A América deve gastar mais na defesa“, argumentando que é necessário que os Estados Unidos modernizem, atualizem e expandam o seu arsenal nuclear. Um representante democrata da Virgínia foi citado como tendo dito que precisamos de gastar 5% do nosso PIB nas nossas forças armadas, é isso que é necessário para “modernizar” o arsenal nuclear e fazer um investimento sério para dissuadir a agressão da China contra Taiwan.

Assim, gostaria de lhe perguntar: como podemos sair disto? Quando extrapolo para o futuro e penso nestes orçamentos militares cada vez maiores e em cada vez mais armas nucleares, é absolutamente aterrador. Qual é a alternativa que nos permitiria afastar-nos deste perigo?

CHOMSKY: A postura estratégica dos Estados Unidos – a postura actual – foi definida por Jim Mattis que estava na administração Trump em 2018. [É a seguinte:] Precisamos de abandonar aquilo a que se chamou a guerra global contra o terrorismo. (Não vou falar aqui sobre o que isso realmente significou, mas quero mencionar o que foi chamado a guerra global contra o terrorismo). Temos de passar desse confronto para o confronto com potências comparáveis, para o confronto com a China e a Rússia. Temos de ser suficientemente fortes para podermos derrotá-los a ambos numa guerra nuclear. Se houver uma melhor definição de loucura, eu gostaria de a ouvir [2].

De facto, já ouvimos uma melhor definição de loucura. Quando os Democratas chegaram ao poder, Joe Biden atualizou a postura estratégica dos EUA, dizendo que – já não usam a palavra “conter” – temos de cercar a China com um anel de estados sentinela. E temos de fazer avançar o armamento destes Estados sentinela com armas de precisão contra a China. Assim, precisamos de formar um círculo da Coreia do Sul, Taiwan, Japão, Austrália, Nova Zelândia e Índia – que é um parceiro relutante – para cercar a China e desencorajar qualquer agressão por parte da China. Por isso, desencorajamos a agressão chinesa ao largo da costa da China. Entendido? .

Por outras palavras, o mundo pertence-nos. Podemos levar a cabo agressões e violência onde quisermos, porque o mundo nos pertence. Mas se a China está a fazer coisas que não nos agradam, ao largo da sua costa, temos de a cercar com estados sentinelas, armados até aos dentes e apontados para a China. Isso é algo que é considerado muito progressista … que está para vir. Sim, eh! Biden. Temos de nos defender da agressão chinesa.

E há coisas que a China está a fazer que não deveria fazer, como violar o direito internacional no Mar do Sul da China. Os EUA não se encontram numa posição particularmente forte para fazer alarido a este respeito, uma vez que é a única potência marítima que nem sequer ratificou a Lei do Mar. Mas somos nós. Somos donos e governamos o mundo. Por isso, não precisamos de ratificar nada. Estamos a estabelecer aquilo a que os peritos em política externa chamam a “ordem liberal baseada em regras”. E é isso que nós apoiamos, porque somos nós que estabelecemos as regras. Portanto, queremos uma ordem internacional baseada em regras, não esta ordem internacional antiquada, inspirada pela ONU, em que não definimos as regras. Isso não é bom, por isso atira-se pela janela.

E agora temos a nossa ordem baseada em regras, e parte dela é cercar a China com Estados sentinela com armas de precisão mais avançadas. Entretanto, estamos a enviar à Austrália uma frota de submarinos nucleares para combater a China no Mar do Sul da China, onde a China tem, talvez, provavelmente meia dúzia de submarinos a diesel antiquados e facilmente detetáveis. Eles não têm o que nós temos. Precisamos de enviar uma frota de submarinos nucleares, que são anunciados publicamente como capazes de entrar no espaço chinês e atacar silenciosamente qualquer alvo chinês. Temos de nos defender contra a ameaça chinesa. Temos, claro, uma frota de submarinos nucleares avançados, mas eles não são suficientemente sofisticados. Um único submarino Trident pode agora destruir quase 200 cidades em qualquer parte do mundo. Mas isso não é suficiente. Portanto, temos de nos livrar deles e substituí-los por submarinos ainda mais avançados, os submarinos da classe Virgínia. Um submarino Trident que destrói 200 cidades em qualquer parte do mundo: isso não é suficiente para nós. Precisamos de nos modernizar.

E agora estamos a enviar submarinos nucleares para a Austrália para combater a ameaça chinesa ao largo da sua costa. Bem, isso é a América liberal. Está bem. Vejamos os republicanos: isso não é suficiente. Essa é a citação que pegou. Precisamos de aumentar o nosso orçamento militar para nos defendermos contra os chineses e os russos. A Alemanha deve aumentar o seu orçamento de defesa porque a Rússia poderia atacá-la. O exército russo – que é não é capaz de tomar as cidades a 30 quilómetros da sua fronteira e que não estão defendidas por um exército moderno – está em vias de atacar a Alemanha. E é nisto que devemos acreditar. Portanto, a Alemanha deve aumentar o seu orçamento militar.

Vê-se porque estamos tão aterrorizados. Isto remonta à história dos Estados Unidos, à Declaração de Independência. Todos os 4 de Julho repetimos devotamente as palavras: condenando o Rei Jorge III por ter lançado contra nós os “impiedosos índios selvagens”, cuja forma de fazer guerra era conhecida: destruição e tortura de americanos inocentes que simplesmente vieram com o cachimbo da paz. Simplesmente temos de nos defender. É terrível como somos atacados a toda a hora.

 

ROBINSON: Assim, quando se ouve algo assim no Foreign Affairs, “os Estados Unidos devem abandonar as desculpas que os levaram a subfinanciar tão perigosamente a sua defesa. Temos de restaurar urgentemente o alcance e capacidade de golpear dos nossos atrofiados militares“. Isso é insanidade, não é?

CHOMSKY: Devem adorar isto nos escritórios da Lockheed Martin, tenho a certeza. Mas num mundo humanista, o que devemos fazer é começar a trabalhar, em primeiro lugar, na restauração do regime de controlo de armas, que foi desfeito em pedaços pelo Partido Republicano. Primeiro, George W. Bush, que desmantelou o Tratado ABM. Esta é uma séria ameaça para a Rússia. Depois Donald Trump, cuja bola de demolição destruiu tudo o resto que conseguiu encontrar, incluindo o tratado INF Reagan-Gorbachev, que impediu a instalação de mísseis nucleares de curto alcance na Europa e reduziu grandemente a ameaça de guerra. Então, Trump livrou-se dele. E para que todos compreendessem que ele estava a falar a sério, ele e Jim Mattis providenciaram que assim que o tratado fosse desmantelado, imediatamente, no espaço de semanas, os EUA testariam armas concebidas para violar o tratado. Para garantir que os russos compreendem: vamos atrás de vocês com mísseis que vos podem atacar, e nem sequer saberão que eles estão a chegar. Esta foi uma das principais iniciativas de Trump.

Ele também atacou o Tratado de Céu Aberto, que data de Eisenhower. Não esqueça que Eisenhower foi o último presidente conservador dos Estados Unidos da América. Não há conservadores desde Eisenhower, apenas reacionários radicais extremos que são um verdadeiro veneno para o honroso termo conservador. Então Eisenhower era um conservador genuíno, que, quer gostes ou não do homem, fazia muitas coisas nojentas, muitas coisas boas. Mas ele iniciou o Tratado de Céu Aberto. Bem, Trump perseguiu o tratado. Ele não teve tempo para os destruir a todos. Mas no seu próximo mandato, livrar-se-ão de tudo o resto.

Entretanto, aumenta consideravelmente a ameaça de guerra, faz maravilhas para a indústria de armamento e melhora as perspetivas eleitorais se se conseguir aterrorizar suficientemente a população. E não é muito difícil quando a população está assustada. Não é muito difícil quando se tem pessoas como eu que, quando crianças, brincaram aos cowboys e índios. Nós éramos os cowboys. Quando se tem uma sociedade com uma cultura como essa, pode-se escapar reforçando a ameaça de guerra nuclear porque estamos em perigo.

Está bem. É isso que devemos fazer. O que quero dizer é que uma das coisas que o Embaixador Freeman salientou nas suas observações muito sensatas há alguns dias atrás é que se olharmos para a história da Europa, que tem sido o lugar mais selvagem do mundo durante séculos, vemos que finalmente fizeram um tratado de paz, o Tratado de 1815, o Tratado de Viena, e a forma como fizeram a paz foi conciliar todos os poderes beligerantes, incluindo o poder derrotado, que tinha sido o agressor nos últimos anos, nomeadamente a França Napoleónica, que tinha praticamente conquistado a Europa. Por isso, foram brandos com a França no tratado de paz. E isso levou a um século de paz. Houve algumas guerras, mas foram menores de acordo com os padrões europeus. Isto durou até 1914. Um século.

O que é que fizemos após a Primeira Guerra Mundial? Não fizemos isso, não integrámos a Alemanha, em vez disso castigámo-la. Ao contrário da sensatez e sabedoria demonstrada pelo Czar e Metternich. O resultado? A Alemanha nazi. Após a Segunda Guerra Mundial, havia a possibilidade de integrar a Rússia num sistema geral de paz, compromisso, integração comercial, imigração cultural, etc., que foi proposto por Charles de Gaulle, um dos poucos estadistas do pós-guerra. Foi o que ele chamou de “Europa do Atlântico até aos Urais“, sem alianças militares. O primeiro-ministro alemão trabalhou na mesma linha. Gorbachev, em 1991, quando a Rússia estava em colapso, propôs a visão de uma Europa independente de Lisboa a Vladivostok, sem alianças militares.

Desde a Segunda Guerra Mundial, a posição dos Estados Unidos tem sido a de que a Europa deve fazer parte daquilo a que chamamos o quadro atlantista, o quadro original, que os Estados Unidos lideram. A Europa deveria estar subordinada aos Estados Unidos. Esta é uma opção. A outra opção é uma casa europeia comum, uma força independente na cena mundial, sem alianças militares – esta é uma luta que tem vindo a decorrer desde a Segunda Guerra Mundial e que está muito viva hoje em dia. Macron e as suas limitadas iniciativas em relação a Putin estavam a caminhar na mesma direção. Putin, na sua estupidez criminosa, desperdiçou esta oportunidade. Se tivesse havido um único estadista no Kremlin, ele teria aproveitado esta oportunidade. A Europa tinha muitas razões para querer melhores relações com a Rússia. A complementaridade comercial, que é um dado real, muitas razões. Teria dado um ímpeto; poderia ter funcionado. Não sabemos. Eles não o tentaram.

Em vez disso, Putin fez o que qualquer homem violento faz: escolheu a opção violenta, atacou a Ucrânia através de agressões criminosas e ofereceu aos Estados Unidos, numa bandeja de prata, o seu desejo mais ardente: A Europa bem fundo no seu bolso. Mais do que nunca. O melhor presente que o Kremlin poderia ter dado a Washington, enquanto se esfaqueia a si próprio nas costas. Isto é o que chamamos o espírito de Estado. Certo. Se excluirmos a agressão criminosa.

Acontece que este é o estado atual do mundo. E a Europa está a cair na armadilha. Tal como a Alemanha, temos de nos armar para nos defendermos de uma força militar que não consegue conquistar uma cidade a poucos quilómetros da sua fronteira.

 

ROBINSON: Parece que existe um caminho para um mundo pacífico. Uma das coisas mais frustrantes é pensar que a guerra e a aniquilação nuclear seriam facilmente evitáveis, dado o número de pessoas no mundo que querem viver vidas pacíficas, felizes e prósperas, o número de pessoas que não querem destruir tudo o que amam. Mas mesmo que me seja possível ver como as decisões políticas – acordos de controlo de armas, vários pontos de viragem na história em que as decisões poderiam ter sido tomadas de forma diferente, como a expansão da NATO, esse tipo de coisas – poderiam ser tomadas de forma diferente… tudo isto me dá esperança de que são possíveis caminhos para uma paz duradoura.

Mas o que eu não sei é como é que alguma vez vamos ultrapassar o facto de sermos um país com uma cultura onde as pessoas podem ouvir que uma cidade foi destruída e voltar a jogar basebol. Quanto mais leio sobre a Segunda Guerra Mundial, e mais leio sobre o Vietname – isso é o que realmente me arrepia. E o que gosto no seu trabalho é que é alguém que não consegue esquecer estas coisas: o colossal sofrimento humano que as decisões do nosso país infligem às pessoas. É difícil saber como acabar com isso. As pessoas podem olhar para isso e depois desviam o olhar imediatamente.

CHOMSKY: Não é fácil. Vamos pôr a Ucrânia de lado por agora. Esta não é a única crise no mundo. Neste momento, por exemplo, literalmente milhões de afegãos estão a enfrentar a fome. Há alimentos no mercado, mas os afegãos, que têm algum dinheiro, só podem ver os seus filhos morrer à fome, porque não podem ir ao banco buscar o seu próprio dinheiro para comprar alimentos no mercado. Porquê? Porque a administração Biden roubou o seu dinheiro. É tão simples quanto isso. O seu dinheiro estava nos bancos americanos. Os bancos devem ter uma responsabilidade fiduciária. Quando depositas o teu dinheiro num banco, é porque confias neles e que eles te devolverão o teu dinheiro quando o quiseres. Este não é o caso dos bancos americanos. O governo dos EUA quer roubar o dinheiro de outro país. É simples, basta fazê‑lo. Por isso, agora decidiram roubar o dinheiro do Afeganistão, que se encontra nos bancos americanos.

E há ainda um pretexto, o que o torna ainda pior. O pretexto é que os americanos podem querer pedir uma compensação pelos danos do 11 de Setembro, pelos quais os afegãos não têm qualquer responsabilidade. Nenhuma. Talvez se lembre que os Talibãs se ofereceram para se render, entregando o suspeito da Al Qaeda. A resposta dos americanos foi: não negociamos rendições. Esmagar-vos-emos como deve ser. Certo. Estamo-nos nas tintas para a Al-Qaeda. Estamo-nos nas tintas para o 11 de Setembro. Preocupam-nos outras coisas. Muito bem. Depois vêm 20 anos de destruição do Afeganistão. E agora vamos roubar-lhes o dinheiro para que possam morrer à fome. Podemos fazer alguma coisa a esse respeito? De um momento para o outro? Estamos a discutir isto? Onde? Tente descobrir. Ok. Este não é o único caso. Poderíamos continuar.

 

ROBINSON: Bem, muito obrigado, Professor Chomsky. Estou-lhe  muito grato.

CHOMSKY: Obrigado.

 


Notas

[1] Brzezinski disse: “Não pressionámos os russos a intervir, mas aumentámos conscientemente a probabilidade de eles […] o fazerem. Lamentar o quê? Esta  operação secreta foi uma grande ideia. Teve o efeito de atrair os russos para a armadilha afegã e quer que eu me arrependa disso? No dia em que os soviéticos atravessaram oficialmente a fronteira, escrevi ao Presidente Carter, no essencial: “Temos agora uma oportunidade de dar à URSS a sua Guerra do Vietname”. De facto, durante quase 10 anos, Moscovo foi forçada a prosseguir uma guerra insustentável para o regime, um conflito que trouxe a desmoralização e, por fim, a desagregação do império soviético”. A guerra matou cerca de 1 milhão de civis afegãos.

[2] Em 2018, Mattis disse ao Comité dos Serviços Armados da Câmara, “Sob a nossa nova estratégia de defesa, a grande competição entre as grandes potências – não o terrorismo – é agora o principal foco da segurança nacional dos EUA… As principais prioridades do departamento são a competição estratégica a longo prazo tanto com a China como com a Rússia. Dada a magnitude das ameaças que agora representam para a segurança e prosperidade dos EUA, o Congresso deve empenhar-se num investimento maior e sustentado nas nossas capacidades… O nosso foco estratégico principal significa que tudo o que façamos deve contribuir para a letalidade das nossas forças armadas… Se a dissuasão falhar, temos de ganhar”.

 

 

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