Foi Descartes quem o afirmou e não é necessário ser filósofo para entender a simplicidade desta afirmação, por todas as ciências não serem outra coisa além da sabedoria humana e, lembro-me muitas vezes, do ter conhecido um velho pastor que me falava de Isis e Serápis e não conhecia qualquer letra, nem que fosse do tamanho da roda de um autocarro.
Tinha aprendido tudo de um velho como ele, que um dia por ali passou e lhe contou como esta parte do mundo tinha sido uma terra de deusas, como os homens a estavam a estragar, como aprendi que as estórias que eu ouvia, mesmo as mais bonitas, nunca atingem a grandeza das nossas, as primeiras, porque estas, as verdadeiramente nossas, também espalham os aromas das emoções, que até podem fazer magia na vida dos outros.
Não explicava isto assim, dizia-o com a linguagem simples de quem fazia festas a um cordeiro, amaciava a pele do cão da serra, ou batia três vezes seguidas mais duas espaçadas, para ‘dizer’ à esposa ser ele a chegar a casa, mas fiquei a saber ainda e ali, como nem era necessário ser o príncipe da Bela Adormecida, o Aquiles de Troia ou o Ulisses de Ítaca, para ser o herói de uma estória ou escrever o guião de uma outra, para um dia destes contar a outros ouvidos.
Estou a referir, como ele contava também, aquele mundo da oralidade, onde a verdade e a liberdade são pilares de qualquer sociedade democrática, por necessitarem de um discurso coerente, bem construído e fundamentado na sabedoria humana, aquela que hoje parece estar bem longe deste mundo globalizado, onde a sabedoria, desde os trabalho às relações pessoais, também parece ter sido trocada pelo uso do móvel e por consultas ao dr. Google.
É bem possível que a velocidade das redes sociais não seja de grande ajuda, para se conseguir chegar ao nível de um pastor analfabeto, o que falava de mitologia com a satisfação de poder conversar comigo, que até tinha andado nas universidades, mas respeitando-o como se ele tivesse andado também, mesmo sem ter lido letras de escritores, poetas e jornalistas e outros iluminados pelas vantagens das oportunidades logo desde a nascença.
Mas estava à vontade para me ter dito também, nessa ou noutra vez qualquer, das muitas que por lá passei, que só gente que tenha capacidade para ver as coisas, poderá abrir caminho a uma sociedade mais igual e mais livre, ‘Não sei ler, a vida ensinou-me a contar, com os dedos das mãos e, depois, um pastor como eu ensinou-me a fazer contas maiores; mas como não sei ler, não consigo saber a verdade do que me dizem, porque também não posso comparar! Mas, naquele tempo, não havia dinheiro, muitas vezes não havia pão e tive de ficar por aqui!’
Alvin Toffler, doutorado em Letras, professor e escritor, deixou escrito –e não conheceu o meu amigo– por nunca por aqui ter andado, ‘Os analfabetos do século XXI não serão aqueles que não sabem ler e escrever, mas aqueles que não sabem aprender, desaprender e reaprender’.
António Damásio, o neurocientista português, diz a mesma coisa de outra maneira ‘Não se pode descarregar a consciência num qualquer ordenador! Seria como copiar uma receita em vez de ter um prato de comida’.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor