A Guerra na Ucrânia — “A fé na Arte de Produzir Efeitos sem Causa”.  Por Carlos Matos Gomes

Seleção de Francisco Tavares

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A fé na Arte de Produzir Efeitos sem Causa

 Por Carlos Matos Gomes

Em 16 de Maio de 2022 original aqui)

 

Está muito difundida a teoria que o escritor Lourenço Mutarelli ficcionou num romance a que deu o título: A arte de produzir efeito sem causa (2008). Uma reflexão acerca dos fenómenos da desrazão (da ilógica) e do nonsense. Uma tese sobre o absurdo, que renega o princípio lógico da causalidade, que determina que todo efeito deve ser consequência de alguma causa.

A afirmação muito explorada de que na Ucrânia ocorre uma invasão determinada por um imperador louco, assenta na crença de que os grandes fenómenos sociais, como uma grande guerra, uma grande revolução, um fenómeno de domínio como o colonialismo, ou a escravatura, por exemplo, podem não ter outra causa se não o impulso emocional e descontrolado de um homem. Há até historiadores e cientistas ditos sociais que defendem com arreganho a tese de que há uma invasão sem causa, apenas determinada por um ser diabólico que habita um palácio assombrado, com enormes mesas e tetos altos!

As centrais de manipulação de massas, que existem com vários nomes, umas públicas, diretamente dependentes dos Estados e outras privadas: Agências de Comunicação, de Relações Publicas, de Publicidade, com assessores contratados entre antigos políticos ou jornalistas avençados, conseguiram fazer passar a mensagem de que a Rússia tinha invadido a Ucrânia sem razão, apenas por puro imperialismo ou paranoia de um antigo agente do KGB apoiado por um sinistro Rasputine, a que foi dado o nome de Lavrov!

A arte de produzir este efeito sem causa tem sido um sucesso de aceitação, do tipo das igrejas evangélicas (velhas utilizadoras da doutrina da criatura não gerada). O êxito é tanto mais de exaltar quanto a falácia vendida como efeito sem causa é desmentida pelos autores dos efeitos.

A narrativa do efeito — a invasão da Rússia à Ucrânia — sem causa racional é desmentida pelos autores em declarações públicas: O atual secretário geral da NATO, um economista norueguês que já está nomeado para o Banco Central do seu país e que, de facto, é um desastrado, tem-se encarregado de descobrir as reais causas para a invasão da Rússia, obrigando os profissionais da manipulação ao duplo trabalho de inventarem causas fantasiosas — tornar o nonsense comestível pelas opiniões públicas — e de apagarem as pistas deixadas pelo senhor Jens Stoltenberg.

Lembrava o Secretário-geral da NATO com a candura de um sacristão, à entrada para a reunião extraordinária dos ministros da Defesa, em Bruxelas, a 16 de Março de 2021, que durante muitos anos (desde quando?) a NATO, treinou “dezenas de milhares de tropas ucranianas e fornecemos grandes quantidades de equipamentos críticos para ajudar a Ucrânia a defender o seu direito à autodefesa” (ver aqui).

Além de explicar a antiguidade da manobra de provocar a Rússia e de preparar a Ucrânia para a chamar à guerra, o cândido Secretário-geral encarregou-se de explicar a causa do efeito que é a guerra que hoje se trava na Ucrânia, causando o sofrimento que é visível nos povos e explorado até à exaustão pelos meios de propaganda.

A causa para espoletar a intervenção da Rússia pretende obter o efeito de a enfraquecer e de permitir aos Estados Unidos enfrentarem a nova ordem mundial numa posição de domínio. Numa reunião a 6 de Abril, Jens Stoltenberg explicou: “(…) seja quando for que a guerra acabe, terá implicações a longo prazo para a nossa segurança, pois vimos a disponibilidade do presidente Vladimir Putin em usar força militar para atingir os seus objetivos” (a NATO, como se sabe, não dispõe de força militar, é uma igreja missionária!), mas o esclarecedor vem a seguir: Stoltenberg abordou também um dos tópicos da reunião da Aliança de quarta-feira, o da definição de um novo “conceito estratégico da NATO” (citado pelo The Guardian): “Neste conceito, precisamos de abordar as consequências securitárias das agressivas ações russas, o equilíbrio de poder mundial em mudança, as consequências securitárias de uma China muito mais forte, e os desafios que Rússia e China estão a impor juntos a uma ordem internacional de valores democráticos baseada em regras. Definiremos a estratégia sobre como lidar com terrorismo ciber e híbrido, bem como as consequências das alterações climáticas para a segurança”, acrescentou.

Isto é e em claro: a guerra na Ucrânia, a tal do efeito sem outra causa senão a maldade do chefe russo, conduzida pelos EUA através da NATO, o seu braço armado para a Europa, faz parte de uma manobra estratégica de domínio planetário dos EUA a longo prazo, que tem como inimigos a Rússia e a China e teve como primeiras vítimas os ucranianos e o projeto de uma União Europeia autónoma, regida pelos seus valores e interesses.

Com esta apresentação em claro dos inimigos e dos objetivos talvez se perceba a causa daquela que foi considerada uma vergonhosa retirada dos EUA do Afeganistão (Agosto de 2021) após 20 anos de ocupação: Interessava concentrar forças na Europa para “desgastar” a Rússia e a China. Os “afegões” (como os designava aqueles povos o escritor Luiz Pacheco) que se danassem, as mulheres que voltem à burka, as raparigas que sejam analfabetas! O decisivo é a invasão russa! Afinal havia uma causa para a retirada americana de Cabul: a guerra na Ucrânia que iria ter lugar dentro de seis meses (Fev 2022)!

Reduzir a manobra de grande estratégia de criar um casus belli na Ucrânia que levasse a Rússia a intervir a um caso de efeito sem causa, de maus invasores e infelizes invadidos, parece-me muito próximo do absurdo, mas talvez seja reconfortante para almas sensíveis.

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O autor: Carlos Matos Gomes [1946-] é coronel reformado do exército, cumpriu três missões na Guerra colonial em Angola, Moçambique e Guiné, nas tropas especiais dos “Comandos”. Ficou ferido em combate e foi condecorado com as Medalhas de Cruz de Guerra de 1.ª e 2.ª Classe.

Capital de Abril pertenceu à Comissão Coordenadora do Movimento dos Capitães na Guiné.

Investigador de história contemporânea de Portugal. É escritor com o pseudónimo Carlos Vale Ferraz. Autor de: Nó Cego (1982), Os Lobos não Usam Coleira (1995), Soldadó (1996), Flamingos Dourados (2004), Fala-me de África (2007), Basta-me Viver (2010), A Mulher do Legionário (2013), A Estrada dos Silêncios (2015), A Última Viúva de África (2017, Prémio Fernando Namora 2018), Que fazer contigo, pá? (2019), Angoche-Os fantasmas do Império (2021). Em co-autoria com Aniceto Afonso: Guerra Colonial (2000), Guerra Colonial – Um Repóter em Angola (2001), Portugal e a Grande Guerra 1914-1918 (2013), Os Anos da Guerra Colonial 1961-1975 (2010), Alcora. O Acordo Secreto do Colonialismo. Portugal, África do Sul e Rodésia na última fase da guerra colonial (2013), Portugal e a Grande Guerra 1914 – 1915. Uma História Diferente (2014), Portugal e a Grande Guerra 1914 – 1915. As Trincheiras (2014), Portugal e a Grande Guerra 1917 – 1918. Uma Guerra Mundial (2014), Portugal e a Grande Guerra 1919-. O Pós-Guerra (2014), Portugal e a Grande Guerra 1918 – 1919. O fim da Guerra (2014), Portugal e a Grande Guerra 1914- O Início da Guerra (2014), A Conquista das Almas. Cartazes e panfletos da acção psicológica na guerra colonial (2016).

 

 

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