A Guerra na Ucrânia — “O ‘Fim do Jogo’ do Ocidente pode estar mais perto do que pensamos na Ucrânia. Tique-Taque”.  Por Martin Jay

Seleção e tradução de Francisco Tavares

8 m de leitura

O ‘Fim do Jogo’ do Ocidente pode estar mais perto do que pensamos na Ucrânia. Tique-Taque.

 Por Martin Jay

Publicado por em 13 de Junho de 2022 (original aqui)

 

Militares ucranianos montam howitzers americanos de 155 mm automotores M109, no meio do ataque da Rússia à Ucrânia, na região de Donetsk, Ucrânia, a 13 de Junho de 2022. REUTERS/Gleb Garanich

 

Parece que Joe Biden está agora pronto para se virar contra Zelensky, tal como os britânicos que já estão a apelar à paz com Putin.

 

Nunca houve realmente uma relação especial entre Zelensky e Washington, mais um casamento de conveniência. Mas parece que Joe Biden está agora pronto para se virar contra ele, tal como o estão de facto os britânicos que já estão a apelar à paz com Putin.

Uma das perguntas que me fazem frequentemente é qual é a minha opinião sobre o presidente ucraniano Zelensky. Respondo sempre que apesar de possuir títulos impressionantes e falar idiomas, o seu papel sempre foi para o Ocidente o de um “idiota útil”. A minha opinião, não fundamentada, admito, é que os americanos provavelmente queriam um candidato substituto nos bastidores, só para o caso de Poroshenko não cumprir com o prometido uma vez assumido o cargo [de presidente] com uma pequena ajuda da intromissão dos EUA em 2014. Zelensky tinha as credenciais perfeitas como figura mediática para preencher a lacuna de um líder populista que o gangue de capangas de Joe Biden adivinhou (correctamente) que os ucranianos anseiam. Cumpria todos os requisitos.

Mas terá essa popularidade expirado, tanto com o seu próprio povo como com o Ocidente?

Se olharmos para o Washington Post e a sua irmã servil no Reino Unido, The Guardian, poderíamos ser perdoados por pensarmos que agora é apenas uma questão de tempo até que Zelensky seja alienado, uma vez que tanto Biden como Johnson lhe apontam o dedo pelo colapso das suas próprias economias. À medida que os americanos têm de aceitar a inflação e o preço do gás a bem mais de cinco dólares e os britânicos enfrentam o mesmo, bem como uma crise na factura energética este Inverno, haverá muito dedo a apontar às suas próprias políticas. Joe Biden, desde há semanas, já tentou culpar Putin agora que se aproximam as eleições intercalares, com os democratas a enfrentarem uma tareia que o privará da última vertente da sua credibilidade ao olhar para a sua própria proposta cómica de reeleição em 2024. Mas não tem funcionado. O público americano não o está a engolir e tem de ser encontrado um novo bode expiatório. E rapidamente.

Daí Biden ter-se voltado para os seus amigos no Washington Post, que, quando perguntados, produzirão, obedientemente, algumas notícias falsas para ele. De outra forma como explicar as alegações feitas neste artigo extraordinário que afirma que o presidente ucraniano foi “avisado” sobre a invasão de Putin, mas “não quis ouvir”. Depois de um recorde de 40 mil milhões de dólares de dinheiro dos contribuintes norte-americanos ter acabado de ser enviado para a Ucrânia sem qualquer impacto real, estará Biden agora a aperceber-se de que o público norte-americano está prestes a virar-se contra ele? O timing da peça, juntamente com o seu impulso, é interessante. Podemos assumir que a boa relação entre Biden e Zelensky está agora acabada?

Num artigo notavelmente semelhante escrito pelo The Guardian, acrescenta-se também que qualquer tipo de planeamento do líder britânico Boris Johnson foi também deixado de lado e que ainda hoje Londres não tem uma verdadeira estratégia na Ucrânia. No entanto, o dedo apontado por Biden é pungente. Fazer um tal golpe lateral, mesmo que como reflexão posterior, é um vislumbre do pensamento agora na Casa Branca e é consistente com muitas das reportagens das últimas semanas em ambos os lados do Atlântico que mudaram, assinalando uma nova abordagem à forma como o Ocidente deve encarar o conflito e as suas relações a longo prazo com Putin.

Será isto um ponto de viragem?

Dependendo da ênfase dada às sugestões e sugestões feitas nestes dois artigos pela Esquerda, pode considerar-se que estamos a assistir a uma mudança de opinião do Reino Unido e dos EUA, uma vez que a classe política de ambos os países atingiu um ponto de ruptura em termos de quanto tempo mais podem justificar o aumento do custo de vida para um eleitorado cansado.

A sugestão no artigo do Guardian de que o Ocidente poderia querer considerar como fazer a paz com a Rússia para evitar que Putin caia nas mãos da China é particularmente pertinente. E o facto de isto ter vindo do Guardian, digamos, e não do próprio jornal dos Conservadores, The Daily Telegraph, mostra que Washington está a considerar um meio-termo – uma forma atenuar as dificuldades que os americanos enfrentam com a viagem iminente de Biden à Arábia Saudita – onde, efectivamente, irá implorar a um Príncipe Herdeiro a quem uma vez repreendeu como “assassino” por uma maior produção de petróleo – é pouco provável que produza resultados. A questão que agora permanece, será que o Ocidente tem um ponto “limite” onde já não pode apoiar Zelensky e em que as relações azedem com o volúvel Presidente ucraniano? Ou será que já chegámos a esse ponto?

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O autor: Martin Jay é um premiado jornalista britânico baseado em Marrocos, onde é correspondente do The Daily Mail (Reino Unido), que anteriormente relatou a Primavera Árabe para a CNN, bem como para a Euronews. De 2012 a 2019 esteve baseado em Beirute onde trabalhou para uma série de títulos internacionais de media, incluindo BBC, Al Jazeera, RT, DW, bem como reportagens numa base freelance para o britânico Daily Mail, The Sunday Times mais TRT World. A sua carreira levou-o a trabalhar em quase 50 países em África, no Médio Oriente e na Europa para uma série de importantes títulos mediáticos. Viveu e trabalhou em Marrocos, Bélgica, Quénia e Líbano.

 

 

 

 

 

 

 

 

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