CARTA DE BRAGA – “ dos trabalhos e de trabalho” por António Oliveira

No princípio dos anos sessenta andariam pelos três mil milhões, nós os pisadores e sugadores deste planeta e, ainda este ano, atingiremos uns inacreditáveis oito mil milhões, apesar dos ‘trabalhos’ de todos os autocratas e afins, sejam eles da política, das indústrias ou das finanças, embora estejam ligados por um cordão umbilical que nunca foi cortado à nascença. 

Florestas, minas e poços aumentam-lhes os proveitos e a desigualdade face aos restantes, de tal maneira que ‘Hoje, 160 milhões de meninas e meninos são empurrados para trabalhar em fábricas, campos de algodão, venda ambulante… além de serem cada vez mais pequenos metade tem entre cinco e onze anos!’ afirma Rocío Vicente, especialista em direitos humanos e a trabalhar para a Unicef. 

De acordo com os números trabalhados em conjunto pela Unicef e pala OIT, 79 milhões de meninos e meninas penam já as piores formas de exploração infantil o que implica ‘Um grave e eminente risco para as suas vidas’ mas reflectindo ‘as normas sociais que o toleram, a falta de oportunidades decentes para os adultos, adolescentes e emigração, já consequências das desigualdades sociais que a descriminação reforça’, números agravados desde o aparecimento da pandemia e pelo inevitável encerramento de escolas e dos trabalhos de que dependia o ganha-pão das famílias. 

É a demonstração cabal da fragmentação da identidade, da instabilidade laboral, da economia dos excessos e dos desperdícios, do fim do compromisso mútuo, ‘O mundo da sociedade líquida que define o nosso tempo’ como foi definido pelo sociólogo Zygmunt Bauman. 

E um estudo da Oxfam Intermón, vindo a público no final de Maio passado, mostra ainda como o impacto do coronavírus neste ano, poderá arrastar 250 milhões de pessoas para níveis extremos de pobreza uma situação em que já está uma quantidade alarmante de seres humanos e, no outro lado da moeda, a riqueza dos multimilionários cresceu, nos últimos 24 meses, o mesmo que nos últimos 23 anos, elevando o seu património a 13,9% do PIB mundial, uma percentagem de tal maneira alta que talvez não se possa avaliar com facilidade com este único e simples dado. 

Mas a Oxfam Intermón ainda acrescenta para ajudar a entender que no princípio deste século, a riqueza dos multimilionários pressupunha 4,4% do PIB mundial, a explicar que se multiplicou por mais do triplo em apenas duas décadas e, os últimos dois anos, são os responsáveis por uma parte importante desse crescimento; e nem sequer se tomaram em conta, talvez por ainda ser demasiado cedo, as varíolas, as ucrânias, as petroleiras, os boçalnaros e mais outros artistas do mesmo género, os sinaleiros dos caminhos para o fim das florestas. 

De qualquer maneira, a Oxfam salienta ‘33 horas são o suficiente para aparecer um novo milhão de pobres e 30 horas para um novo milionário’, dados tirados desde o princípio da pandemia, ‘mas que parece não terem mudado muito desde que Adão e Eva saíram do jardim do Éden e se inventou o cilindro da economia’, comenta do cronista David Torres, no Publico.es.

E, respigado do Diário de Notícias de 1 de Maio, ‘Os salários dos líderes dos cinco maiores bancos em Portugal caíram em 2021. Entre remuneração fixa e variável, os presidentes executivos do BCPBPICGDNovo Banco e Santander ganharam 3,5 milhões de euros, menos 1,5% face aos cerca de 3,6 milhões auferidos em 2020. Já o total das remunerações dos conselhos de administração ficou praticamente inalterado face a 2020. Foram atribuídos cerca de 25,5milhões de euros, um valor ainda abaixo dos 26,5 milhões que se verificavam antes da pandemia’.

Para terminar e também lido num jornal diário, ‘À porta principal de um grande e influente centro comercial, um jovem de joelhos no chão, chorava e as lágrimas corriam-lhe cara a baixo. Uma senhora, comovida, aproximou-se para o consolar, mas logo ele alterou o esquema e, entre dentes, quase lhe rosnou Por favor, senhora, afaste-se que estou a trabalhar!’

Não tinha salário nem oportunidades decentes para fazer algo diferente, o que o talvez o arrastassem para aquele ‘quase rosnar’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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