A GALIZA COMO TAREFA – balanço – Ernesto V. Souza

O verão anda agitado, rarefeito, dilatado e constrangedor, surpreendente e aborrecido, como se o tempo climático quisesse acompanhar o tempo cronológico dos humanos, que agora circula em louca carreira e para, de improviso, para continuar nas enfartantes espirais da crise cíclica. Mas é metáfora, advirto. Apenas para olharem aí nas suas cabecinhas leitoras os colorizantes pisca-pisca da montanha russa na feira da que todos contam.

A gente acredita tudo. Ou pior, gosta de acreditar. É para o que está educada. Desmoraliza-se com o que ouve, empolga-se com o que lhe contam. Estaca ao comando do clarim ou corre se adverte por perto barulho ou movimento desconhecido. Com a lógica das torcidas, aposta, consome, vive, morre. Acredita as novas dos média, no coro de vozes públicas profissionais e na reverberação das redes sociais, posiciona-se na procura de seguranças.

Não estamos treinados para a soidade, para a crítica individual, para vivermos conscientes e alerta, a desfrutarmos dos próprios sentidos, pensamentos e contradições. Confiamos e terceirizamos em estruturas incólumes, polis, urbes, cidades, nações, estados, muros, totens, livros, religiões, ideologias, em heróis, salvadores, líderes imaculados, em poderosos e nos poderes. Nas alturas, como sempre, acreditam que controlam tudo e sabem ler de big data, para próprio proveito, mas desconhecem que cavalgam o velho tigre furioso.

O pessoal fascina-se e mergulha nesta fervença de docu-drama a transmitir em direito 24/7, por toda a parte como num filme de sci-fi. O drama coletivo, com epatantes viradas de narrativa, é o que vende. O pânico, a desbandada, ao vivo, e a corrida de decisões estratégico-sociais sem sentido nem lógica, para a além da sobrevivência política, ecoa no desgarrar individual dos peitos em confissões urgentes, no acompanhar de debates fundamentais.

Mas a malta nem parou a pensar que é tudo estilo e artifício, signum temporum. Os troppos e tópicos chovendo, penetrando e entrando em conflito com outros mais antigos que alguns entendem eram os eternos, os definitivos. Mas sempre há outros, atrás dos tempos vêm tempos. Novidades chocantes, ou das que gostamos, ou que fingimos acompanhar por não nos desviar da gente. Entanto alguns rejeitam com veemência displicente, outros acompanham com paixão de bandeira. Cousas que acontecem e não percebemos senão no detalhe perto arredor, estando como estamos – Otero Pedrayo diria – que tal qual Fabrizio del Dongo, ignorantes, no meio de Waterloo.

Não há lógica na aniquilação estratégica, na política de estado, na homogeneização desdiscordante, nas amputações das partes excluídas ou contrárias, nenhuma razão para a crueldade com os fracos ou para dar genocídio nas minorias. Não consola canalizarmos a frustração em raiva e violência contra outrem diferente. Pouco consolo traz procurar um inimigo forte, mas distante, estabelecer Macarthismos à carta e guerras frias de barato. De nada vale erguer muros de silêncio contra os dissidentes, ou fechar fronteiras os rejeitados. Nem seguirmos os cavalos e bandeiras às carreiras sem sabermos rumo ou sem levarmos mapa. É melhor parar. Sair do grupo, não se adscrever sem mais noutros discursos e correntes. Há que procurar uma elevação do terreno, recuperar o pulso e os fôlegos, e depois enxergar cuidadosamente. Logo já se irá vendo.

O mestre Rollain oferece como conselho – a tratar de manter a razão, a lógica, a humanidade, a erguer a voz em solitário au dessus de la mêléese não podemos lutar contra o tempo, sim podemos lutar contra os tempos. Ou quando menos desapontar-nos daí e de tudo. Dizer claro e simplesmente que não acompanhamos. Adeus a isto tudo, diria Graves no retorno impossível, depois das trincheiras. Lá vós com o vosso e as fantasias que nos fazem descarregar como ótimas, e trazem para casa em travessa plastificada para que terminemos dependendo. Eu não jogo mais. Eu quero ser, no possível, dono do meu tempo, do meu consumo, da vista dos meus olhos e da razão que vou para mim construído.

Bem que num par de séculos todo o mais hão descobrir e explicarem o nome do período que vivemos e ajustá-lo no momento do pêndulo. Nada sabemos. Como se vai aprender da história se não se aprende da vida? Se não se aceita a consciência de saber-nos vivos?

 

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