A INAUGURAÇÃO DAS BARRAGENS DO TÂMEGA – AUSÊNCIA DE INVESTIGAÇÃO JORNALÍSTICA, por ANTÓNIO MOTA REDOL

 

Os noticiários e comentários das nossas televisões caracterizam-se, na sua grande maioria, em primar pela manipulação, ausência de pluralismo, arrogância, por vezes imbecilidade, mas também pela falta de rigor, informação deficiente e investigação jornalística insuficiente ou nula, além das calinadas no português.

Os jornais, embora em menor grau, enfermam do mesmo. Refiro-me em especial neste texto à falta de rigor e à informação deficiente e investigação insuficiente.

No jornal Público do dia 19 de Julho, a jornalista que cobriu a inauguração das barragens do designado Sistema Electroprodutor do Tâmega (SET), construído pela empresa espanhola Iberdrola, escreveu que «A barragem/central de Gouvães é a jóia da coroa do SET e está equipada com quatro grupo reversíveis com uma potência total de 880 megawatts (MW) que permitem produzir energia eléctrica, mas também recuperar a água que já foi turbinada e desceu para a albufeira de Daivões. […] Assim as máquinas de última geração […] têm função dupla […]», continuando a descrever as “maravilhas” da chamada bombagem (a operação descrita) como se fosse uma inovação deste empreendimento, deslumbrada pela propaganda da empresa, que certamente distribuiu documentação de apoio à comunicação social.

A jornalista mostra, assim, desconhecer que os grupos reversíveis já existem em Portugal no parque da EDP há longos anos. Nos anos 80, já existiam grupos reversíveis nas centrais de Venda Nova (191 MW) e Aguieira/Raiva (360 MW) e foram inauguradas as de Vilarinho II (61 MW) na existente central de Vilarinho das Furnas, Torrão (146 MW) e Alto Lindoso (630 MW). Também Alqueva (520 MW) possui grupos reversíveis.

A central do Alto Tâmega e muitas outras centrais, incluindo Daivões, algumas delas com grupos reversíveis já estavam previstas para serem construída pela EDP no seu Plano de Novos Centros Produtores de 1983. No Plano de Novos Centros Produtores de 1985 previa-se o arranque de Daivões em 2001 e Alto Tâmega em 2007. Todas estas centrais, as atrás nomeadas e as outras tinham estudos hidrológicos realizados e algumas um anteprojecto, estudos que a Iberdrola terá aproveitado.

Antes de escrever o texto a jornalista do Público devia ter investigado o assunto e não se limitar, como parece ter acontecido, a utilizar os documentos que lhe foram fornecidos pela Iberdrola.

A vantagem da bombagem

O que a jornalista escreve sobe os grupos reversíveis (bombagem) é verdadeiro. Podem turbinar, isto é, fazer fluir a água (turbinamento) de modo a que as turbinas rodem fazendo rodar os chamados alternadores a elas acoplados, onde é produzida a energia eléctrica. E podem rodar em sentido contrário (bombagem) bombando a água a jusante da barragem fazendo-a voltar para trás (montante) desta para a albufeira, utilizando energia eléctrica. Isto é as máquinas que serviram de turbinas, servem agora de bombas. Por isso, se dizem reversíveis.

Esta operação é interessante num sistema electroprodutor, pois nas horas de menor consumo a produção das eólicas e do solar que não tenha consumo associado (colocação na rede), pode ser utilizada para bombar água para a albufeira, evitando que parem, aumentando a quantidade de água que pode ser turbinada para produzir energia eléctrica. Assim, a mesma água pode ser utilizada várias vezes para produzir energia. Também as chamadas centrais hidroeléctricas a fio-de-água, que têm uma albufeira com baixa capacidade, descarregando água quando o regime hidrológico é muito húmido e a barragem não pode conter mais água, podem fornecer energia para bombar se o consumo não exigir a sua produção. Nestas situações, a energia eléctrica utilizada para bombar tem um custo nulo ou muito baixo, e água que voltou à albufeira será utilizada quando existir consumo e, portanto, a energia produzida vai ser paga a um preço muito superior a zero.

As centrais nucleares têm sido utilizadas com o mesmo fim, quando um grupo nuclear para continuar a funcionar sem haver consumo para tal, fornece energia para uma função semelhante. A paragem dum grupo nuclear por falta de consumo é sempre de evitar, pois o muito elevado investimento não está a ser rentabilizado e o rearranque depois de uma paragem é demorado e caro. Neste caso, o custo da energia eléctrica para bombagem não é nulo, mas é muito baixo, porque o custo de exploração (custos fixos e custos variáveis) dum grupo nuclear é muito baixo. No custo do kWh nuclear o que pesa é a amortização do investimento. O custo de exploração é de cerca de 20% do custo total do kWh. Num grupo a carvão, por exemplo, é de 60% a 70%.

 

 

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