A IBERDROLA E AS CENTRAIS NUCLEARES ESPANHOLAS, por ANTÓNIO MOTA REDOL

Na notícia do jornal Público de 19 de Julho, que comentei quanto ao tratamento da questão da existência de bombagem no sistema electroprodutor português, um outro assunto é por essa notícia colocado.

Refere a jornalista, certamente com base em documentos que a empresa lhe forneceu, que, em 2021, a energia eléctrica produzida pela Iberdrola o foi em 57% por recurso a energias renováveis, hidráulica, eólica e solar. A Iberdrola, como a outra empresa de origem espanhola, a Endesa, vangloriam-se de, em Portugal, produzirem toda a energia através dessas vias.

Todavia, a realidade da sua produção em Espanha é diferente. Ambas possuem centrais nucleares, das quais, a mais nossa conhecida é a de Almaraz, cuja continuação de funcionamento tem levantado polémica em Portugal e em Espanha. Esta central, com dois grupos nucleares, é propriedade da Iberdrola, Endesa e Unión Fenosa.

Os grupos nucleares foram programados para durarem 25 anos e nos estudos de planeamento realizados pela EDP e outras empresas estrangeiras era esse o período considerado. No entanto, os grupos de Almaraz têm 41 e 39 anos. Este prolongamento de vida tem a ver, na opinião de muitos técnicos e na do autor deste texto, com o elevado custo de desmantelamento de um grupo nuclear – se nos anos 80 ainda se estimava que fosse da ordem de 10% do investimento total no grupo, hoje estima-se ser da ordem de grandeza de 100% – os problemas de desmantelamento, de armazenamento dos resíduos de média e baixa radioactividade, de armazenamento dos equipamentos radioactivados pelas radiações, a limpeza do solo dos resíduos referidos,  o armazenamento dos resíduos de alta radioactividade com período de semivida de 20.000 a 30.000 anos, são de resolução muito complexa.

Também há que considerar que a empresa ou o Estado vão ter de vigiar o local e de fazer inspecções periódicas. Parte do problema está em que as empresas não pretendem fazer tão altos investimentos e tentam que sejam os Estados a fazê-los.

Por outro lado, ao prolongarem a vida dos grupos evitam realizar investimentos em novos grupos nucleares ou em centrais de outro tipo.

Como muitos dos equipamentos de um grupo nuclear se degradam com o tempo e a acção das radiações, as empresas vão substituindo alguns deles por equipamentos novos, os quais apesar de serem de elevado custo, correspondem a um investimento muito menor do que o de novos grupos.

Recorde-se que a central de Almaraz foi objecto de polémica em Portugal e em Espanha devido à construção do designado Armazém Temporário Individualizado (ATI) em 2016-2018, onde os seus proprietários estão a armazenar os resíduos altamente radioactivos provenientes do funcionamento da central, pois os compartimentos existentes em cada grupo para o efeito estavam sobrelotados. Em 2021, foi decidido construir novo ATI para armazenar resíduos de todos os grupos nucleares espanhóis.

Almaraz encontra-se junto ao Rio Tejo, razão pela qual o Governo Português fez em 2016 uma queixa à Comissão Europeia, a qual não teve sequência, apesar da legislação internacional exigir que, no caso de um país construir um equipamento nuclear perto da fronteira de outro –Almaraz está a cerca de 100km da fronteira portuguesa -, tem de consultá-lo.

Junto da central existe uma pequena barragem onde é lançada a água de arrefecimento dos equipamentos da central, ficando a arrefecer, apesar de existir uma torre de arrefecimento. A água de arrefecimento é renovada com água do Tejo, sendo parte lançada no rio.

O Laboratório de Protecção e Segurança Radiológica do Instituto Superior Técnico realiza análises periódicas das águas e dos sedimentos do Tejo em vários pontos do rio, mas tem sido alvo de críticas de vários grupos ambientalistas por não realizar um trabalho tão frequente quanto o necessário e relativamente ao método de recolha das amostras.

A central de Almaraz, construída pela Westhinghouse, foi objecto de uma intervenção para substituição dos 3 geradores de vapor de cada um dos dois grupos pouco tempo após a sua instalação, devido à ruptura dos seus tubos em consequência de fenómenos de corrosão precoce. Essa acção afectou 31 reactores daquela empresa estadunidense em todo o mundo.

A central de Almaraz deu origem a 2.800 incidentes, alguns dos quais poderiam ter sido muito graves e geralmente mantidos em segredo[1]. É de recordar que qualquer grupo nuclear lança no ambiente estrôncio-90, césio-137, iodo-131 e krípton-85, todos eles radioactivos.

A Iberdrola é ainda a única proprietária da central nuclear de Cofrentes, perto de Valência e co-proprietária com a Endesa das centrais de Sta Maria de Garoña, perto de Bilbau, Trillo, também junto ao Tejo, Ascó na Catalunha e do grupo Vandellos II.

O facto de as duas empresas espanholas rivais serem proprietárias de centrais em associação deve-se ao muito elevado investimento em cada grupo nuclear. Muitas empresas dos EUA foram à falência quando as coisas correram mal e grupos nucleares em construção tiveram de ser suspensos devido a problemas de licenciamento ou, quando já em serviço, tiveram de suspender o funcionamento também por problemas de segurança, por vezes devido a projecto deficiente.

Uma outra questão foi escondida pela Iberdrola: alguns técnicos especialistas em economia da energia acusam a empresa de, por detrás de uma pretensa adesão às energias renováveis, terem o objectivo de utilizarem a capacidade de bombagem do Alto Tâmega para darem maior utilização às suas centrais nucleares[2], numa necessidade vital para elas. É o caso do Professor Joanaz de Melo, cuja opinião corroboro. De facto, existindo uma capacidade de interligação entre Portugal e Espanha que pode chegar aos 4.700 MW – em resultado de existirem várias linhas de alta tensão que ligam os dois países e que permitem as trocas de energia eléctrica – a Iberdrola pode trazer energia das suas centrais nucleares para realizar bombagem durante a noite em Alto Tâmega.   Durante a noite porque é o período de menor consumo.

Como escrevi em texto anterior, a produção excedentária de grupos nucleares será utilizada para bombar a água turbinada nas centrais hidroeléctricas com equipamento reversível para dentro das suas albufeiras para ser usada novamente a produzir energia eléctrica. É que é muito caro suspender o funcionamento de um grupo nuclear por ausência de consumo, arrancando de novo quando este já existir. Por outro lado, um grupo nuclear é tanto mais rendível quanto mais horas funcionar. O ideal é só parar para realizar as operações de manutenção e recarga de combustível de 1,5 em 1,5 ano.


[1] José M. Mazon, “Con el desmantelamiento de Almaraz ganamos empleo e iniciativas limpias y sostenibles”, Almaraz e Outras Coisas Más, (Coordenação António Eloy), Caldas da Raínha, Gazeta das Caldas, 2017.

[2] João Joanaz de Melo, “Energia nuclear: que descanse em paz”, Almaraz e Outras Coisas Más, (Coordenação António Eloy), Caldas da Raínha, Gazeta das Caldas, 2017.

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Nota de A Viagem dos Argonautas

Pode ler o artigo referido por António Redol logo no início do texto clicando em:

A INAUGURAÇÃO DAS BARRAGENS DO TÂMEGA – AUSÊNCIA DE INVESTIGAÇÃO JORNALÍSTICA, por ANTÓNIO MOTA REDOL

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