Na notícia do jornal Público de 19 de Julho, que comentei quanto ao tratamento da questão da existência de bombagem no sistema electroprodutor português, um outro assunto é por essa notícia colocado.
Refere a jornalista, certamente com base em documentos que a empresa lhe forneceu, que, em 2021, a energia eléctrica produzida pela Iberdrola o foi em 57% por recurso a energias renováveis, hidráulica, eólica e solar. A Iberdrola, como a outra empresa de origem espanhola, a Endesa, vangloriam-se de, em Portugal, produzirem toda a energia através dessas vias.
Todavia, a realidade da sua produção em Espanha é diferente. Ambas possuem centrais nucleares, das quais, a mais nossa conhecida é a de Almaraz, cuja continuação de funcionamento tem levantado polémica em Portugal e em Espanha. Esta central, com dois grupos nucleares, é propriedade da Iberdrola, Endesa e Unión Fenosa.
Os grupos nucleares foram programados para durarem 25 anos e nos estudos de planeamento realizados pela EDP e outras empresas estrangeiras era esse o período considerado. No entanto, os grupos de Almaraz têm 41 e 39 anos. Este prolongamento de vida tem a ver, na opinião de muitos técnicos e na do autor deste texto, com o elevado custo de desmantelamento de um grupo nuclear – se nos anos 80 ainda se estimava que fosse da ordem de 10% do investimento total no grupo, hoje estima-se ser da ordem de grandeza de 100% – os problemas de desmantelamento, de armazenamento dos resíduos de média e baixa radioactividade, de armazenamento dos equipamentos radioactivados pelas radiações, a limpeza do solo dos resíduos referidos, o armazenamento dos resíduos de alta radioactividade com período de semivida de 20.000 a 30.000 anos, são de resolução muito complexa.
Também há que considerar que a empresa ou o Estado vão ter de vigiar o local e de fazer inspecções periódicas. Parte do problema está em que as empresas não pretendem fazer tão altos investimentos e tentam que sejam os Estados a fazê-los.
Por outro lado, ao prolongarem a vida dos grupos evitam realizar investimentos em novos grupos nucleares ou em centrais de outro tipo.
Como muitos dos equipamentos de um grupo nuclear se degradam com o tempo e a acção das radiações, as empresas vão substituindo alguns deles por equipamentos novos, os quais apesar de serem de elevado custo, correspondem a um investimento muito menor do que o de novos grupos.
Recorde-se que a central de Almaraz foi objecto de polémica em Portugal e em Espanha devido à construção do designado Armazém Temporário Individualizado (ATI) em 2016-2018, onde os seus proprietários estão a armazenar os resíduos altamente radioactivos provenientes do funcionamento da central, pois os compartimentos existentes em cada grupo para o efeito estavam sobrelotados. Em 2021, foi decidido construir novo ATI para armazenar resíduos de todos os grupos nucleares espanhóis.
Almaraz encontra-se junto ao Rio Tejo, razão pela qual o Governo Português fez em 2016 uma queixa à Comissão Europeia, a qual não teve sequência, apesar da legislação internacional exigir que, no caso de um país construir um equipamento nuclear perto da fronteira de outro –Almaraz está a cerca de 100km da fronteira portuguesa -, tem de consultá-lo.
Junto da central existe uma pequena barragem onde é lançada a água de arrefecimento dos equipamentos da central, ficando a arrefecer, apesar de existir uma torre de arrefecimento. A água de arrefecimento é renovada com água do Tejo, sendo parte lançada no rio.
O Laboratório de Protecção e Segurança Radiológica do Instituto Superior Técnico realiza análises periódicas das águas e dos sedimentos do Tejo em vários pontos do rio, mas tem sido alvo de críticas de vários grupos ambientalistas por não realizar um trabalho tão frequente quanto o necessário e relativamente ao método de recolha das amostras.
A central de Almaraz, construída pela Westhinghouse, foi objecto de uma intervenção para substituição dos 3 geradores de vapor de cada um dos dois grupos pouco tempo após a sua instalação, devido à ruptura dos seus tubos em consequência de fenómenos de corrosão precoce. Essa acção afectou 31 reactores daquela empresa estadunidense em todo o mundo.
A central de Almaraz deu origem a 2.800 incidentes, alguns dos quais poderiam ter sido muito graves e geralmente mantidos em segredo[1]. É de recordar que qualquer grupo nuclear lança no ambiente estrôncio-90, césio-137, iodo-131 e krípton-85, todos eles radioactivos.
A Iberdrola é ainda a única proprietária da central nuclear de Cofrentes, perto de Valência e co-proprietária com a Endesa das centrais de Sta Maria de Garoña, perto de Bilbau, Trillo, também junto ao Tejo, Ascó na Catalunha e do grupo Vandellos II.
O facto de as duas empresas espanholas rivais serem proprietárias de centrais em associação deve-se ao muito elevado investimento em cada grupo nuclear. Muitas empresas dos EUA foram à falência quando as coisas correram mal e grupos nucleares em construção tiveram de ser suspensos devido a problemas de licenciamento ou, quando já em serviço, tiveram de suspender o funcionamento também por problemas de segurança, por vezes devido a projecto deficiente.
Uma outra questão foi escondida pela Iberdrola: alguns técnicos especialistas em economia da energia acusam a empresa de, por detrás de uma pretensa adesão às energias renováveis, terem o objectivo de utilizarem a capacidade de bombagem do Alto Tâmega para darem maior utilização às suas centrais nucleares[2], numa necessidade vital para elas. É o caso do Professor Joanaz de Melo, cuja opinião corroboro. De facto, existindo uma capacidade de interligação entre Portugal e Espanha que pode chegar aos 4.700 MW – em resultado de existirem várias linhas de alta tensão que ligam os dois países e que permitem as trocas de energia eléctrica – a Iberdrola pode trazer energia das suas centrais nucleares para realizar bombagem durante a noite em Alto Tâmega. Durante a noite porque é o período de menor consumo.
Como escrevi em texto anterior, a produção excedentária de grupos nucleares será utilizada para bombar a água turbinada nas centrais hidroeléctricas com equipamento reversível para dentro das suas albufeiras para ser usada novamente a produzir energia eléctrica. É que é muito caro suspender o funcionamento de um grupo nuclear por ausência de consumo, arrancando de novo quando este já existir. Por outro lado, um grupo nuclear é tanto mais rendível quanto mais horas funcionar. O ideal é só parar para realizar as operações de manutenção e recarga de combustível de 1,5 em 1,5 ano.
[1] José M. Mazon, “Con el desmantelamiento de Almaraz ganamos empleo e iniciativas limpias y sostenibles”, Almaraz e Outras Coisas Más, (Coordenação António Eloy), Caldas da Raínha, Gazeta das Caldas, 2017.
[2] João Joanaz de Melo, “Energia nuclear: que descanse em paz”, Almaraz e Outras Coisas Más, (Coordenação António Eloy), Caldas da Raínha, Gazeta das Caldas, 2017.
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Nota de A Viagem dos Argonautas
Pode ler o artigo referido por António Redol logo no início do texto clicando em: