A Guerra na Ucrânia — Namoriscando com o Armagedão: os EUA e a Ucrânia.  Por Thomas Palley

Seleção e tradução de Francisco Tavares

8 m de leitura

Namoriscando com o Armagedão: os EUA e a Ucrânia

  Por Thomas Palley

Publicado por  em 13 de Agosto de 2022 (original aqui)

 

Já passaram quase seis meses desde o início da invasão russa da Ucrânia, e a cada mês que passa a administração Biden tem vindo a aumentar a participação dos EUA no conflito. Esse processo de torniquete fez com que os EUA se aproximassem cada vez mais do Armagedão nuclear, uma evolução capital que ficou quase sem comentários e incontestado. É como se os EUA estivessem sonâmbulos, com os olhos bem fechados.

 

O contexto político

O envolvimento dos EUA na guerra da Ucrânia tem sido impulsionado pelo Partido Democrata, entusiasticamente apoiado pelos seus aliados tradicionais nos principais meios de comunicação social e na classe intelectual estabelecida – também conhecida como a bolha liberal. Isto tornou as críticas à guerra difíceis por duas razões.

Primeiro, a bolha liberal promulgou um édito de silêncio contra aqueles que contestam a sua explicação da guerra e os argumentos a favor da participação dos EUA. O édito aplica-se aos conservadores que argumentam que “não é a nossa guerra”, e aos críticos independentes que argumentam que a guerra foi “feita nos EUA” através de um ataque de trinta anos em câmara lenta à Rússia, conduzido através da expansão da NATO para leste e da subversão da mudança de regime nas repúblicas da antiga União Soviética.

Segundo, os EUA estão empenhados numa luta de vida ou morte pela sua própria democracia, tendo o Partido Republicano saído dos carris com o seu abraço ao protofascismo de Donald Trump. Essa luta coloca um terrível dilema, pois criticar a política da Ucrânia da administração Biden corre o risco de abrir a porta aos protofascistas.

Com o Armagedão nuclear como possibilidade no horizonte, os riscos são demasiado altos para que se fique em silêncio. Deve ser dita a verdade sobre a guerra, o Partido Democrata, e a bolha liberal. Ainda há tempo para inverter o rumo, e a opinião pública é capaz de dominar duas questões. Tanto pode rejeitar o protofascismo republicano como exigir a inversão da política de escalada na Ucrânia.

 

Tomada de controlo tóxica: a captura Neocon do Partido Democrata

O ponto de partida é a admissão rotunda de que o Presidente Biden e a sua equipa de segurança nacional colocaram os EUA a uma escassa distância do armagedão nuclear. Isto foi feito para uma guerra sem qualquer relação com os interesses vitais de segurança nacional dos EUA.

Pior ainda, não se trata de um juízo errado acidental. Em vez disso, reflecte a completa captura do Partido Democrata pelo pensamento neoconservador mais extremo em matéria de política externa. Este pensamento apela a que os EUA procurem a hegemonia militar global, que os democratas envolveram num manto tecido com a mentira da promoção da democracia e da ilusão do excepcionalismo moral dos EUA. 

A tomada de controlo do Partido Democrata pelos neoconservadores ocorreu nos anos 90, sob a liderança de Bill Clinton, quando os Democratas procuravam reparar a sua reputação de serem fracos em matéria de segurança nacional. Desde então, esta poção não fez mais que fortalecer-se. Estava visivelmente presente na figura de Hillary Clinton, e estava igualmente presente (embora melhor escondida) na figura de Barack Obama.

 

O mal-entendido da MAD (mutual assured destruction)

A adesão ao Neoconservadorismo é perigosa por si só, mas tornou-se existencialmente ameaçadora devido a uma má compreensão da ideia da Destruição Mútua Assegurada (MAD). A MAD é uma construção que foi desenvolvida na Guerra Fria. O argumento é que impediu a guerra entre os EUA e a União Soviética porque cada um dos lados possuía armas nucleares que aniquilariam o outro. Consequentemente, a guerra nuclear não podia acontecer a não ser por irracionalidade ou acidente, como por exemplo um lançamento não autorizado ou uma falha de comunicação.

Esse entendimento da lógica da MAD é fundamentalmente errado. A razão pela qual o conflito nuclear nunca aconteceu é que as armas nucleares estavam associadas com a paridade de armas convencionais EUA – União Soviética no teatro de operações em que estiveram em confronto directo (ou seja, na Europa Central). Essa paridade serviu como um bloqueio ao confronto nuclear.

Hoje em dia, os EUA têm uma superioridade esmagadora em relação ao armamento convencional. E porque a MAD é mal compreendida, existe um perigo real de os EUA criarem inadvertidamente condições que conduzam a um conflito nuclear.

A lógica é simples. A Rússia poderia enfrentar uma inaceitável derrota de guerra convencional, altura em que se voltaria para o uso de armas nucleares tácticas para afastar esse resultado.

 

Estamos a uma escassa distância do Armagedão nuclear

A guerra da Ucrânia nunca deveria ter acontecido. A Rússia ofereceu a opção de uma Ucrânia neutra desmilitarizada, mas isso foi rejeitado pelos EUA, uma vez que violaria a doutrina Neocon. Teria implicado que os EUA se tivessem afastado e reconhecido a Ucrânia como uma esfera de influência russa. E os EUA recuarem e haver outros países com esferas de influência são ambas coisas inconsistentes com a doutrina Neocon da hegemonia dos EUA.

Do mesmo modo, a guerra já deveria ter terminado, com a Rússia a anexar o Donbas e a região costeira. Mas também aqui os EUA intervieram para impedir uma vitória russa, uma vez que isso também seria inconsistente com a doutrina Neocon. Consequentemente, os EUA forneceram armamento teleguiado de precisão, informação via satélite e pessoal para fazer tudo excepto carregar no botão (e talvez isso também).

Não conheço a verdadeira situação no campo de batalha. Ao longo da guerra, os meios de comunicação ocidentais têm sido tendenciosos até ao ponto de desonestidade. Mas se é tão mau para a Rússia como se diz, é fácil visualizar um caminho para o conflito nuclear.

O Presidente Putin e a Rússia não podem dar-se ao luxo de perder a guerra, uma vez que isso ameaçaria existencialmente ambos. Do seu lado, os Neocons norte-americanos estão dispostos a bloquear todas as saídas, excepto a derrota russa. Essa combinação é uma receita para a guerra nuclear.

O próximo passo pré-nuclear é a Rússia a subir a parada atacando directamente os ativos dos EUA na Ucrânia, talvez os voos de carga militar que chegam ou a embaixada dos EUA em Kiev. A Rússia tem pouco a perder, uma vez que os EUA adotaram a posição de máxima linha dura. Se isso não induzir um recuo dos EUA, o passo seguinte poderia ser a Rússia a utilizar uma bomba de neutrões contra as forças ucranianas. Em seguida, os Neocons dos EUA (ou seja, a administração Biden) poderão pressionar para um envolvimento directo dos EUA através da NATO, e a partir daí a espiral para o Armagedão é curta.

 

Ucrânia agora, China a seguir

Não se enganem, o Partido Republicano é uma ameaça à liberdade nos EUA. Dito isto, sob a influência tóxica do Neoconservadorismo, a elite do Partido Democrata tornou-se uma ameaça à existência. Mesmo que se evite o conflito nuclear na Ucrânia, os Neocons do Partido Democrata já está a abrir caminho para o próximo conflito com a China.

Os psicólogos recomendam que se concentrem em mudar a si próprios, e não em mudar os outros, o que é uma tarefa impossível. A tarefa urgente é que os democratas progressistas e as pessoas sensatas revertam a influência do Neoconservadorismo na política dos EUA, e isso começa com a expedição da Ucrânia, existencialmente perigosa, da administração Biden.

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O autor: Thomas Palley [1956-] é um economista estado-unidense. Foi economista chefe na Comissão de Análise Económica e de Segurança EUA-China (agência independente do governo dos Estados Unidos criada em 2000), sendo atualmente membro de Schwartz Economic Growth da New America Foundation. É licenciado em Letras pela Universidade de Oxford (1976) e obteve um mestrado em relações internacionais e um doutoramento em economia pela Universidade de Yale. Palley fundou o projecto “Economics for Democratic & Open Societies”. Palley cujo objectivo é “estimular a discussão pública sobre que tipos de acordos e condições económicas são necessários para promover a democracia e a sociedade aberta”. As posições anteriores de Palley incluem director do Projecto de Reforma da Globalização do Open Society Institute, e director assistente de Políticas Públicas para a AFL-CIO. O seu trabalho tem abrangido teoria e política macroeconómica, finanças e comércio internacionais, desenvolvimento económico e mercados de trabalho onde a sua abordagem é pós-keynesiana.

 

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