Da digitalização do ensino à sua fascização- a distância é vizinha de zero — Introdução, por Júlio Marques Mota

 

É sempre incómodo dedicar a edição seja do que for a alguém que nos é próximo e que a morte levou. É o caso de hoje, em que vos falo de uma série de textos sobre a cretinização do ensino e que dedico à memória de dois amigos meus, António Mateus e Arnaud Lantoine, dois professores para mim de referência, um a trabalhar na Escola Secundária D. Dinis, e o outro professor na Alliance Française e tradutor- intérprete de conferências, ambos vítimas de doença prolongada. Dois professores que no seu campo se bateram pela dignificação do ensino, e que nesse campo estiveram no limite do que lhes era possível, até na dignidade com que estoicamente resistiram à doença que lenta e inexoravelmente os consumia e consumiu. Bem hajam, é o que posso dizer, em forma de definitiva despedida.

Deles recordo longas conversas nos cafés Trianon e Vénus, caso do António Mateus, muitas delas sobre ensino ou sobre a situação política em Portugal, ou longas discussões sobre movimentos políticos em Portugal e em França, sobretudo, ou sobre a interpretação de filmes que através da Faculdade de Economia da FEUC projetámos no Teatro Académico Gil Vicente, caso de Arnaud Lantoine. Neste último caso nunca será demais recordar aqui a sua importante colaboração, gratuita, e sempre disponível, com o grupo organizador da Iniciativa Ciclo Integrado de Cinema, Debates. e Colóquios na FEUC que decorreu ao longo de cinco anos. E recordá-lo é tanto mais importante quanto atitudes “dadivosas” como a de Arnaud Lantoine são do ponto de vista do sistema consideradas hoje atitudes bizarras porque ou não são rentáveis – eram gratuitas – ou não têm valor curricular. E compensações monetárias e os currícula são hoje os valores dominantes em qualquer sítio.

Destes meus dois grandes amigos fica-me o exemplo da frontalidade nestes campos e é esse exemplo que aqui quero recordar com esta dedicatória feita com a edição de uma série de textos sobre ensino, intitulada: Da digitalização do ensino à sua fascização – a distância é vizinha de zero.

Esta série é constituída pelos seguintes textos:

Introdução

  1. Escolaridade digital, inútil para a educação mas boa para a Microsoft
  2. O ministério da Educação nacional eletrónica
  3. A nazificação do ensino na América
  4. O Plano Republicano para Devastar a Educação Pública na América
  5. Que raio de coisas é que eles aprenderam em Harvard e Yale
  6. O pior memorando da história da América

Júlio Marques Mota

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18 m de leitura

Introdução

 Por Júlio Marques Mota

Faro, em 14 de Agosto de 2022

Há dias fiz circular dois textos de Jean-Paul Brighelli sobre o ensino como “fábrica de criação de cretinos” onde se mostrava que a tendência extrema sobre a inovação pedagógica tem levado a uma redução na transmissão e aquisição de conhecimentos e porque não dizê-lo, redução esta que mais cedo ou mais tarde se traduzirá numa redução de competências, ou seja, um resultado inverso do pretendido pelos nossos reformadores, pela dinâmica no novo sistema de educação [1]! No entanto, hoje, elogios e prémios não faltam a saudar a inovação pedagógica praticada. E lá vamos caminhando e rindo

Em reação a estes textos, amigos meus enviaram-me outros textos dentro do mesmo tom, dois sobre a digitalização do ensino em França e um outro sobre a nazificação do ensino nos Estados Unidos. Guardei os textos, a pensar numa futura utilização.

Os dois textos sobre a digitalização do ensino em França levantam questões com as quais nos deparamos no dia-a-dia, pela via dos nossos filhos e netos ou dos nossos amigos e, ou, pela nossa própria forma de vida, pela dependência verificada dos smartphones, dos tabletes, que genericamente se pode já traduzir como a incapacidade de se saber estar, de se saber conviver com os outros e de os saber ouvir. Incapacidade esta que é um fenómeno preocupante, e tão preocupante que os jovens já se queixam de que não têm amigos. São gerações futuras de autistas, é o que me parece que estamos a criar com a utilização abusiva dos meios digitais. O terceiro texto, sobre a nazificação do ensino nos Estados Unidos, mostra o caminho que as sociedades modernas tendem a seguir, condicionando a Democracia, ou minando-a profundamente e abrindo assim o caminho à fascização a que estamos já a assistir agora.

Três textos sobre cretinização dos estudantes ou sobre a sua fascização. O curioso ou o dramático nestes textos é que todos eles conduzem ao mesmo, uma vez que cretinação dos jovens é o pressuposto da fascização, uma condição necessária mesmo que não suficiente para a edificação de um estado proto-fascista ou mesmo fascista. É este o caminho que se está a percorrer? Penso que sim. Repare‑se, o texto sobre o ensino na América tem como referência Ron DeSantis, um eventual e muito possível candidato às Presidenciais de 2024 nos Estados Unidos, alguém bem mais perigoso que o próprio Trump! Inacreditável.

Duas notas sobre as primárias americanas na Flórida de 23 de agosto de 2022 que, na minha modesta opinião, não auguram nada de bom para Novembro:

Democratas – Flórida

Uma repetição do Livro de Jogadas de Biden? (publicado por  em 24/08/2022, original aqui)

Ao eleger Charlie Crist, os Democratas apostam que um candidato bem conhecido e inócuo lhes dá a melhor hipótese de derrubar um candidato republicano em funções, mas dinâmico. É uma espécie de jogo quase idêntico àquele que Biden implantou com sucesso para derrotar Trump em 2020. (…)

No entanto, o plano de Biden não funcionou na Florida. Trump ganhou o Estado por uma margem maior em 2020 do que em 2016. O próprio Crist não ganhou uma eleição geral estatal na Florida em 16 anos, embora tenha tentado várias vezes.

Para Crist, de 66 anos, a vitória de terça-feira é outro capítulo de uma das carreiras mais invulgares da política americana.

Depois de décadas como republicano, legislador estadual, comissário da educação, procurador-geral e chegando ao gabinete de governador em 2007, Crist caiu em desgraça no seu partido por ter cometido o pecado cardeal de apoiar um presidente democrata, Barack Obama. Foi derrotado numa primária do Senado Republicano em 2010 por Marco Rubio, depois perdeu nas eleições gerais como independente.

Mas quatro anos mais tarde, reapareceu como candidato democrata para enfrentar o seu sucessor, o então Governador. Rick Scott. Crist esteve a 64.000 votos de conseguir reconquistar o seu antigo posto de governador. Em 2016, candidatou-se à Câmara dos Representantes e foi eleito como democrata para representar o seu estado natal, o condado de Pinellas.

(…)

A tarefa de Crist não vai ser fácil. DeSantis reuniu já $132 milhões para as eleições gerais de Outono, um montante recorde para um candidato não auto-financiado do Partido Republicano, e dinamizou a base do Partido Republicano mais do que qualquer político não nomeado do Partido Republicano, ponto forte de Trump. O seu partido ultrapassou os Democratas pela primeira vez entre os eleitores registados na Florida. E ele pode apontar para uma economia do seu Estado que parece estar em plena expansão, com mais pessoas a mudarem-se para o Estado do que em qualquer outra parte do país, um número recorde de turistas e uma taxa de desemprego de 2,7 por cento, quase um ponto abaixo do nível federal.

Republicanos-Flórida

O Representante do Partido republicano, Webster,  derrotou por pouco Laura Loomer na Flórida (publicado por  em 24/08/2022, original aqui)

O Representante Republicano em fim de mandato Dan Webster da Flórida derrotou por pouco Laura Loomer, uma provocadora da extrema-direita na Flórida que foi banida em algumas redes sociais por observações antimuçulmanas e outras.

A corrida foi surpreendentemente renhida; Webster recebeu 50,7% dos votos contra 44,5% de Loomer, com pouco mais de 95% dos votos contados.

Loomer, uma ativista nacionalmente conhecida que procurou alinhar-se com o ex-presidente Donald Trump, concorreu sem sucesso à Câmara em 2020 para um lugar na zona de Palm Beach que inclui o resort Mar-A-Lago de Trump. (…)

 

Depois disso, recebo de Robert Reich, um antigo ministro do Trabalho da Administração Clinton e que dela rapidamente se separou, dois textos sobre o mesmo tema, um deles em que Robert Reich se questiona sobre o que se ensina nas Universidade de “luxo” nos Estados Unidos e um segundo texto em que nos sugere a leitura do mais hediondo memorando escrito nos Estados Unidos sobre ensino, um memorando assinado por Lewis Powell. E sugere a sua leitura porque este último texto marca a inversão do sentido de ser das Universidades que, em vez de funcionarem como cadinho de criação de verdadeiros cidadãos, capazes de funcionarem como faróis para o aprofundamento da Democracia, se passaram a entender como o espaço onde os estudantes se tornam “praticantes de um conjunto de ideias muito mais antigas e mais cínicas: que a força faz a lei, que o objetivo do esforço humano é alcançar o poder, e que a ambição e a traição [à Democracia] triunfam sobre todos os outros valores” da sociedade.

Este é o caminho da fascização a que acima me refiro, é este o caminho que Lewis Powell delineia quase que milimetricamente em 1971, é este o caminho que 50 anos depois claramente se está a percorrer, com o facto estranho de que muitos dos andantes na construção deste caminho devem ser considerados, e inegavelmente são, de esquerda. Mas esta realidade faz-me lembrar uma afirmação de João Bilhim (em 12 de Agosto de 2022) no Público e relativo a um caso anedótico, a nomeação de Sérgio Figueiredo para consultor do ministro das Finanças com um ordenado superior ao do próprio ministro. Diz-nos João Bilhim:

“ou o senhor ministro das Finanças não sabe o que são políticas públicas ou então sabe e isto é um erro grave”.

Vejamos com alguma atenção esta afirmação nas suas duas hipóteses.

H1. “o senhor ministro das Finanças não sabe o que são políticas públicas”.

Neste caso diríamos que o ministro é um incompetente mas ser incompetente a este nível de exposição é o mesmo que dizer que o ministro é um cretino. Tenhamos bom senso, isto seria um adjetivo que não bate certo com o seu substantivo. Medina pode ser chamado do que quiserem mas de cretino é que não pode ser apelidado. Resta-nos a segunda hipótese.

H2. “ou então sabe e isto é um erro grave”.

Neste caso, se sabe o que são políticas públicas, e todos consideramos que sabe, então como esta nomeação é feita ao arrepio de tudo o que é política pública, diremos que é um erro grave, uma enorme cretinice, mas sublinhe-se que a expressão enorme cretinice é apanágio dos cretinos e Medina, como se disse antes, não pode ser apelidado de cretino. O adjetivo tem de ser outro e o que me parece ser mais apropriado é o de nepotismo puro e simples. E isto é grave, gravíssimo. E ainda por cima, sob a chancela de um governo que se apelida de socialista!

Este raciocínio aplicado ao tema do ensino leva-nos a dizer que no caminho agora trilhado no ensino os muitos destes andantes na construção deste caminho das reformas curriculares e pedagógicas, os reitores, os diretores de escolas e os responsáveis pelas respetivas licenciaturas, ou não sabem o que é ensinar, ou sabem-no e as reformas que fazem são um erro grave, gravíssimo.

De novo, decomponha-se a frase nas suas duas proposições.

H*1. Não sabem, o que é ensinar.

Neste caso diríamos que estes construtores das reformas do ensino são uns incompetentes. Mas serem incompetentes a este nível de exposição é o mesmo que dizer que estes “construtores” são uns cretinos. Tenhamos bom senso, isto seria um adjetivo que não bate certo com cada um dos seus potenciais substantivos. Os reitores, os diretores de Faculdade, os responsáveis pelas licenciaturas, têm geralmente sérias provas dadas de que não são nenhuns cretinos. Podem ser apelidados do que quiserem mas de cretinos é que não. Resta-nos a segunda hipótese.

H*2. “ou então sabem e as reformas que fazem são um erro grave”.

Neste caso, se sabem o que é ensinar, e todos consideramos que sabem, então, como esta construção dos atuais caminhos trilhados no ensino é feita ao arrepio de tudo o que pode ser considerado como autêntica democratização do ensino (esta não tem nada a ver com a generalização, vulgo banalização do ensino), somos,  por isso, levados a dizer que esta construção das  “reformas” educativas é um erro grave, logo, uma enorme cretinice, mas sublinhe-se  que a expressão “enorme cretinice” é apanágio dos cretinos e os nossos reitores, os nossos diretores de faculdades, os nossos responsáveis de licenciaturas,  não podem ser apelidados de cretinos. O adjetivo tem então de ser outro e o que me parece ser mais apropriado é o de carreirismo puro e simples. São já altos quadros no ensino e a escada para as suas desejadas promoções é cada vez mais estreita. Daí a pressão para a reforma do ensino, (mais corretamente contrarreforma do ensino) daí a pressão para a modernidade, para o desmantelamento do que é velho, sobre a pressão do momento. É preciso sermos diferentes de tudo o que foi, melhores de tudo o que já foi, pensarão estes altos quadros responsáveis pelas decisões em termos de ensino e sempre à procura de se evidenciarem de tudo o que julgam que não presta.

E isto é grave, gravíssimo. A estes altos quadros de topo relembro o que Peter Kenen, conselheiro de Kennedy, afirmava, ao recomendar um livro bem antigo: o mundo mudou muito mas os problemas são os mesmos!

Deste ponto de vista diremos que estes altos quadros no ensino, os responsáveis construtores das reformas (mais corretamente de contrarreformas), são verdadeiros criminosos aos olhos da História futura porque fazem-no conscientes do que o seu produto final é a cretinice generalizada para os outros e uma ainda melhor carreira profissional ou de prestígio para eles. Mas esta cretinice é a ferramenta de base para se atacar a Democracia, é o cimento que aglutina depois as hordas que alimentam os Partidos Chega daqui ou de algures e, por isso, diremos que, deste ponto de vista, estes construtores dos caminhos agora trilhados pelo ensino, e porque o que fazem conscientemente, merecem ser julgados no Tribunal da História de amanhã. Inegavelmente, o resultado final a que com estas reformas se vai chegar é transformar em realidade os objetivos a que se propunha Lewis Powell em 1971 ou Ron DeSantis em 2022, ou mais duramente: o que fazem é abrir o caminho aos protofascismos ou mesmo aos fascismos. E isto é grave, muito grave. Não nos calamos perante esta ameaça

O memorando é de 1971 mas mais parece ser escrito hoje e escrito por muita gente que se considera membro da esquerda oficial e de qualquer Universidade Portuguesa ou estrangeira, uma vez que o problema não é específico de Portugal. 

Ontem (13 de Agosto), abro o jornal Público e leio um artigo de Jorge Bacelar Gouveia, intitulado O Triângulo das Bermudas do ensino superior, onde por outras palavras se diz o mesmo que agora afirmamos:

Confidencio que nestes 35 anos de vida académica ininterrupta já vi de tudo: até vi a “traficância” de docentes mais jovens que se aproveitam do cargo de diretor para poderem ascender mais depressa à cátedra, sendo prisioneiros de interesses de fação nas IES. É por isso que um lugar destes só pode ser ocupado por quem não dependa de mais ninguém para atingir o topo da sua profissão académica.

O segundo [problema] – com o seu quê de “saloio” – é o da infrene internacionalização sem critério e pouco patriótica, como se as IES tivessem descoberto um “mundo novo”, tão deslumbradas que ficam em falar inglês e muito se viajando para assinar protocolos.

Não está em causa a internacionalização, mas ela deve ser vista cum grano salis, ponderando a natureza das matérias científicas, nem todas “internacionalizáveis” do mesmo modo: não se compara a internacionalização do Direito com a da Medicina ou da Astronomia!

Quando não se tomam as devidas cautelas, questiona-se a missão que as universidades – se são portuguesas – protagonizam estando sob o domínio de professores estrangeiros: não se trata de nenhum “nacionalismo académico” bafiento, trata-se da simples conclusão de que Portugal tem bons quadros, não precisando de os importar nessa elevada quantidade.

Tudo com o risco, por exemplo, de se inutilizar os graus de doutor que conferem, porque logo os portugueses perceberão que não terão qualquer chance de contratação porque ultrapassados serão por estrangeiros.

Para já não falar na substituição ilegal e inconstitucional do nome das IES de português para inglês, nesta língua se falando em órgãos académicos, ou na situação hilariante (a que assisti) de um zeloso professor de Direito que, perante uma pequena turma de doutoramento em que todos compreendiam o português, manteve a lecionação em inglês macarrónico para reforçar a internacionalização da escola…

A imaturidade só pode ser muita porque a internacionalização boa exigiria uma resposta de afirmação da identidade das IES no espaço da lusofonia, e não abrir “autoestradas” para o “cavalgar” das instituições anglo-saxónicas, que agradecem e se ficam a rir de nós.

O clímax é o deslumbramento financeiro com alguma internacionalização feita nos lugares mais improváveis do Mundo – decerto bonitos e sofisticados – aos quais a ligação de Portugal é nula, em vez de se investir, com entidades públicas e privadas, no espaço lusófono, como nos PALOP, de que tanto precisa.

  1. O terceiro [problema] refere-se à propalada empregabilidade dos cursos e à relação com as empresas, quando o que está em jogo é a utilidade social do saber científico.

(…)

O móbil da ciência não é o mesmo que o das empresas: estas querem lucro, o que é legítimo, as universidades não; estas querem é desenvolver o seu trabalho científico e ter condições para isso.

A perversidade de tal resultado pode duplicar quando as IES só ministrarem cursos que deem emprego, não havendo, a breve trecho, ninguém que saiba latim ou grego (antigo).” Fim de citação.

Este excerto do texto de Bacelar Gouveia merecia longos desenvolvimentos, mas deixemos isto para outras marés. Sublinhemos apenas um ponto, o do exemplo do inglês macarrónico do ilustre professor de direito a lecionar aulas para futuros doutorados. O inglês dele era macarrónico como macarrónica é a perceção dos alunos sobre o inglês escorreito quanto mais sobre o inglês macarrónico. Qual é qualidade dessas aulas, tanto do ponto do discurso feito pelo professor como do discurso entendido pelos alunos, saber-me-ão dizer? Possivelmente vizinho de zero. Mas quanto a isso ninguém se preocupa, muito menos os “construtores” dos novos caminhos do ensino em que se pretende que o ensino seja dominantemente em inglês. Estes construtores, na sua ânsia de modernidade ou de carreirismo, ao inovarem desta maneira esquecem duas coisas: não há ensino de qualidade se os professores não tiverem o domínio da língua em que se ensina, não há ensino de qualidade se os alunos não tiverem um bom domínio da língua em que se aprende. É uma banalidade, isto, e esta banalidade faz-me lembrar um ditado italiano: se vais para Roma sê como os romanos. Trata-se de uma expressão atribuída a Ambrósio de Milão no século IV. Mais precisamente; quando Santo Agostinho questionou Ambrósio de Milão sobre se o dia de descanso semanal deveria ser ao sábado, como em Milão ou ao Domingo, como em Roma, Ambrósio respondeu-lhe: “si fueris Romae, Romano vivito more; si fueris alibi, vivito sicut ibi” signifiant “. Em termos correntes, diríamos: se vais para Roma sê como os romanos, se vais para outro lugar, sê como os habitantes desse lugar para onde vais. A lição deste provérbio é simples: para onde se for estudar deve-se saber a língua desse lugar. Uma banalidade, mais uma vez.

Para se ter a perceção da fraude brutal que isso significa, o caso apresentado por Bacelar Gouveia é exemplar quanto aos professores e ao sentido de utilizar a língua externa como veículo para ensinar. Mas vamos mais longe com este quadro: imaginem uma aula em que o professor passa o tempo à procura das palavras que não sabe bem, quer ortográfica quer foneticamente, para se exprimir enquanto professor? Qual será o valor científico e pedagógico de uma aula assim lecionada? A adicionar a este cenário, imaginem ainda que grande parte dos estudantes de Erasmus presentes, sobretudo os de Leste e a maioria dos alunos Erasmus vindos de Espanha, França ou Itália, mal sabem inglês, o que confirmei por décadas de ensino a alunos vindos do exterior ao abrigo do programa Erasmus ou outros. Imaginem tudo isto. Imaginem um cenário em que temos professores que não sabem corretamente explicar o que querem ensinar, alunos que não conseguem e entender o que lhes querem ensinar, qual é o sentido desta internacionalização? Respondo eu: nenhum. Mas o exemplo de Bacelar Gouveia é ainda mais curioso: as aulas eram lecionadas em inglês macarrónico e apenas para alunos portugueses.

Para perceber o caricato disto tudo, completemos o cenário anterior, introduzindo também os estudantes estrangeiros na mesma sala de aula. Imaginemos então uma aula com alunos de Erasmus que não sabem inglês para entender uma aula lecionada nesta língua e com muitos portugueses que estão na mesma condição, isto é, que sabem tão pouco inglês quanto os estrangeiros de Erasmus. Isto é uma situação normal. Curiosamente, estamos então perante uma igualdade de circunstâncias tanto para docentes, como para alunos nacionais ou estrangeiros, ninguém domina a língua em que se ensina!

Adicionemos a este cenário um outro dado da internacionalização do ensino subjacente às reformas dos nossos reformadores: consideremos que nas aulas estão também presentes alunos estrangeiros de países não pertencentes à União Europeia, vindos de África, Ásia, América Latina. Ficamos assim com a configuração mais próxima da realidade do que pode ser a composição do corpo discente numa sala de aulas. Trata-se de alunos vindos de países com estruturas de ensino completamente diferentes das nossas, de países muito menos desenvolvidos, com bases de conhecimentos muito díspares, e, portanto, com capacidades de aquisição de conhecimentos muito diferenciadas. E normalmente os seus conhecimentos linguísticos poderão ser ainda de muito menos qualidade que os até aqui implicitamente referidos quanto aos alunos de Erasmus. É fácil imaginar a cacofonia ainda maior que assim se tem numa sala de aulas, tornando impossível que se possa ter um ensino de qualidade. Mas será o ensino de qualidade o que importa aos nossos reformadores? Não me parece e voltaríamos assim à argumentação de Bilhim acima desenvolvida.

Note-se ainda que muitos destes alunos vindos dos quatro cantos do mundo, o que pretendem como candidatos à entrada nas nossas Universidades é adquirir, pela via do ensino superior e pagando bem, o direito à entrada na Europa, o direito de viver na Europa, por contraponto aos que que pagam para ter o direito a poderem morrer nas águas do Mediterrâneo ou do Atlântico ou a vegetar num campo de refugiados.

Num cenário destes, o quadro mais geral que resulta da internacionalização das Universidades, teremos então em cada aula uma verdadeira cacofonia, a cacofonia da ignorância, da mediocrização do ensino. É este o preço da internacionalização do ensino? É isto que os nossos dirigentes pretendem? E para quê, afinal? Relembro aqui um exemplo da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa onde o pai de uma aluna que frequentava as aulas lecionadas em inglês – ela cresceu num país de língua inglesa – me dizia que na Nova se falava um inglês macarrónico, de um lado e do outro, de docentes e discentes.

 

Já com o texto escrito vejo no Público de hoje, 24 de agosto de 2022, o seu cartoon que é bem elucidativo:

 

Porquê esta pressão para aulas em inglês quando faltam todos os requisitos para que sejam aulas condignamente lecionadas? Não vejo nenhuma razão positiva para tal. Creio que esta pressão só é justificável por dois mecanismos: um, o carreirismo dos reformadores, a que alude Bacelar Gouveia; outro, o mecanismo de diferenciação de classes sociais, de ser mais um elemento de diferenciação entre os que têm e sabem, e os que não têm e não sabem. A maioria dos filhos das classes de maiores rendimentos com o seu estudo paralelo nos British Councils e outras escolas equivalentes sabem bem inglês ou outras línguas dominantes para aproveitar o programa Erasmus indo para países onde se fala bem inglês, alemão ou francês. Não será por acaso que não se entra em nenhuma Universidade alemã de qualidade, dizia-me há dias um amigo meu, se não se dominar a língua alemã. No meu tempo de estudante a aprendizagem de línguas estrangeiras era acompanhada pela obtenção de conhecimentos sobre a civilização e a cultura do respetivo país. Por exemplo, ensinava-se a construir frases em alemão, mas para isso também se tinha de conhecer coisas tão “inúteis” como textos de Schiller, Goethe, Hölderlin ou outros. Curiosamente, era assim e falamos de cultura, sendo esta um pressuposto do programa Erasmus mas disso todos os nossos altos responsáveis pelo ensino em Portugal e noutros países parecem ter-se esquecido.

São os estudantes que se devem habituar às condições de ensino em qualidade e não o ensino em qualidade que se deve degradar para se adaptar às condições de vida e de saber dos estudantes que vêm das mais diversas estruturas de ensino. Relembro aqui de novo o provérbio que nos vem dos romanos: se vais para Roma sê como os romanos. A ser verdade o que me disse o amigo meu acima referido, chegamos à conclusão que os alemães, como bons conhecedores de latim, a dado nível das suas estruturas académicas parece seguir à letra esse provérbio: se queres estudar na Alemanha, aprende alemão…

Pelo exposto, vale a pena referir que não sou contra a mobilidade dos estudantes, antes pelo contrário defendo-a. Porém, defendo-a com significativamente melhores condições de bolsas, em vez de bolsas de miséria como agora, e mais apertados requisitos para delas se beneficiar, requisitos estes expressos, seja em termos linguísticos seja em termos de médias de licenciatura exigidas para se ter acesso a essas bolsas substancialmente melhoradas. Para se ter direitos deve-se ser merecedor deles, foi o que sempre aprendi. Satisfeitos estes mais apertados requisitos devem os estudantes beneficiar de melhores condições de apoio no país de destino, sobretudo apoios em termos habitacionais e em termos de serviços culturais.

A continuar como estamos, degradando para muitos estudantes a sua aprendizagem e de forma irreversível, estamos pois a criar um mecanismo subtil, mas poderoso, bloqueador do elevador social característico das verdadeiras Democracias. Este sistema de ensino degradado pode ser visto em Portugal como em qualquer outro país da União Europeia, sobretudo em países da periferia europeia, uma vez que se trata de países que durante décadas estiveram sujeito ao confinamento linguístico imposto com a Cortina de Ferro e para a maioria dos estudantes que para lá vão não haverá sequer aprendizagem da língua do país de destino nem haverá nenhuma língua a funcionar convenientemente como plataforma de ensino e de aprendizagem.  Não o ignoremos. Transformando a maioria dos estudantes em hordas de cretinos, estamos a criar os mecanismos próprios da convergência para os protofascismos. A América mostra-o à evidência como a mostra igualmente a Europa. Veja-se o que se passa já em Itália. Neste último país, em 2022 pode chegar ao poder um governo equivalente ao que tomou o poder em Roma, em 1922. E isso não é por acaso.

Dir-me-ão que estou a exagerar, mas leiam-se os textos da série acima referidos, leia-se também, e atentamente, o que nos diz Bacelar Gouveia, e, já agora, veja-se um programa sobre o ensino superior transmitido pela RTP, com um grande moderador pelo meio, Carlos Daniel, e debrucem-se sobre as banalidades em que pensam os dirigentes universitários deste país para o futuro. E estes são alguns dos habilidosos dirigentes atuais do nosso Ensino Superior. Aqui segue o link para este programa: https://www.rtp.pt/play/p10505/e630444/ensino-o-desafio-do-superior-em-portugal

Por hoje, chega. Boa leitura.


Nota

[1] Privilegiar as competências em vez dos conhecimentos é a mesma coisa que considerar que se deve privilegiar o instruir em vez de o educar. Esta inversão de prioridades ficou marcada pela conferência de Little Rock, no Arkansas, no princípio da década dos anos 90, considerada pela imprensa de então, como o Le Monde, a primeira Ágora Moderna. Aí se passou a considerar que nos devíamos preparar para mudar de profissão e de emprego sete vezes ao longo da vida, que nos deveríamos preparar para a reinicialização sucessiva do nosso cérebro reprogramável pela Microsoft ou outras. Os resultados são hoje extremamente visíveis nas estruturas dos mercados de trabalho e nos seus (des) enquadramentos jurídicos, como se vê com o que se passa agora mesmo nos aeroportos, porque entretanto muita gente foi facilmente despedida e “mudou” de emprego!  Um outro exemplo, é a reforma de Bolonha, é a incidência das autoridades em formações curtas, é a incidência em competências e não em saberes, a lógica dos sofistas contra a lógica de Platão e Aristóteles, como se haja capacidade de se adquirir competências sem primeiramente adquirir saberes. A prevalência nas competências é o pressuposto para os nossos cérebros serem facilmente reprogramáveis, como convém ao modelo neoliberal, utilizando-se para isso as diversas formações curtas, feitas ao longo da vida  e ao sabor dos mercados.

 

 

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