A Guerra na Ucrânia — “Ucrânia — A última fronteira dos EUA”.  Por Carlos Matos Gomes

Seleção de Francisco Tavares

4 m de leitura

Ucrânia — A última fronteira dos EUA

(e a nossa — mas não nos pediram nenhuma opinião)

 

 Por Carlos Matos Gomes

Em 1 de Setembro de 2022 (original aqui)

 

A Última Fronteira é um título apelativo para transmitir a ideia de objetivo final de um longo processo de conquista. O título foi usado, por exemplo, num western de 1940, realizado por William Wyler, a propósito da conquista do Oeste pelos europeus; foi o título de um drama romântico realizado por Sean Penn (2016), de relações sentimentais e de limites de consciência, num ambiente africano; foi o título de um conjunto de produtos multimédia da Twentieth Century Fox Film Corporation — Planeta dos Macacos: A Última Fronteira — uma aventura sobre conquista, traição e sobrevivência. Quando os destinos de uma tribo de macacos e um grupo de sobreviventes humanos se cruzam, os seus mundos colidem e as suas vidas são postas em risco. Estão publicados inúmeros livros com o mesmo título, sempre remetendo para um ponto final numa grande ação.

A Ucrânia cabe na definição de Última Fronteira para a estratégia dos EUA após o final da URSS, conduzida por Gorbatchev, que morreu há dias. Essa estratégia foi e é clara: Fazer avançar a fronteira dos EUA (através de NATO) até à fronteira Oeste da Rússia. Foi conseguida numa primeira fase com a adesão dos países do ex-Pacto de Varsóvia à UE e à NATO, um papel de recrutamento atribuído ao Reino Unido e que culminou com o avanço de mil quilómetros da fronteira dos EUA até às fronteiras Leste dos Estados Bálticos, da Polónia, República Checa e Eslováquia, Hungria e Roménia.

Em simultâneo os EUA ocupavam, ou no mínimo provocavam a desestabilização do Médio Oriente, conflitos no Líbano, na Palestina, no Iraque, na Síria, tendo como objetivo final o ataque ao Irão. A operação secundária conduzida pelos EUA no Médio Oriente tem os resultados conhecidos, de neutralização através do caos. Mas o Irão mantem as suas capacidades e ameaças de se tornar uma potência nuclear.

Perante a meia derrota, ou vitória “inconseguida” (como agora se diz) no Médio Oriente, restava aos EUA a opção do ataque ao objetivo principal — a Rússia — e a captura de uma componente que poderia escapar ao controlo e reforçar o inimigo: a UE.

A guerra por procuração na Ucrânia é a última fronteira dos EUA na “península euroasiática”, o espaço da Ásia que se estende dos Urais ao Atlântico. A manutenção da hegemonia dos EUA, do dólar que representa o poder absoluto e é garantido pelo complexo militar-industrial e pela indústria da manipulação da opinião pública (propaganda) exige uma vitória na Ucrânia. Esta vitória pode significar a destruição daquele Estado, numa lógica de ”o que não é meu não será teu” (muito presente nos dramas passionais), e a dúvida será se essa destruição será feita com o confronto direto Rússia-EUA(NATO) ou se manterá a feição atual, se esse conflito chegará à utilização de novas armas, ou se será contido na atual panóplia. Em qualquer caso a Ucrânia deixará de ser um Estado viável. Zelenski terá o destino que tiveram os bonifrates aliados dos EUA no Vietname, no Iraque, na Pérsia, no Afeganistão, na Venezuela. O futuro kleenex.

A Última Fronteia dos EUA na Europa/Ásia, antes de eles deslocarem o seu ponto principal de esforço para o Pacífico, determinará uma divisão radical do Mundo (um novo Muro de Berlim, uma nova Muralha da China, uma nova muralha de Adriano), com uma parte das populações a viver sujeita ao dólar e ao poderio militar dos EUA, sujeita à sua tecnologia — e outra parte, simétrica, sujeita a uma moeda criada pela Rússia, China e Índia. Dois mundos de tecnologias deliberadamente incompatíveis, fechados sobre si, com duríssimas condições de contacto (como já se antevê com as medidas de restrição de vistos a russos).

Os Estados, todos os Estados serão estados vassalos, satélites e os povos perderão liberdade e direitos, como sempre perdem em situações de conflitos e guerras decididas pelos senhores das guerras.

Acresce que os Estados Unidos têm um problema sério com a Europa: Necessitam dela para enfrentar a Rússia, mas a UE, a Europa do colonialismo, é um mau parceiro para os EUA tentarem cativar os Estados que resultaram de antigas colónias europeias. Esses estados têm históricos laços com a Rússia e a China…

É este o futuro que nos está a ser cozinhado na Ucrânia para nos ser servido depois de um inverno de frio e um futuro de inflação, recessão e repressão.

É este futuro que nos está a ser preparado na Ucrânia sem que nós, cidadãos europeus que se julgam a viver em regimes democráticos tenhamos direito à palavra, à expressão da nossa vontade.

Um cartoon inglês legendava uma imagem de um turista deitado na praia, ao Sol: Aproveite, foi o seu último Verão de férias!

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O autor: Carlos Matos Gomes [1946-] é coronel reformado do exército, cumpriu três missões na Guerra colonial em Angola, Moçambique e Guiné, nas tropas especiais dos “Comandos”. Ficou ferido em combate e foi condecorado com as Medalhas de Cruz de Guerra de 1.ª e 2.ª Classe.

Capital de Abril pertenceu à Comissão Coordenadora do Movimento dos Capitães na Guiné.

Investigador de história contemporânea de Portugal. É escritor com o pseudónimo Carlos Vale Ferraz. Autor de: Nó Cego (1982), Os Lobos não Usam Coleira (1995), Soldadó (1996), Flamingos Dourados (2004), Fala-me de África (2007), Basta-me Viver (2010), A Mulher do Legionário (2013), A Estrada dos Silêncios (2015), A Última Viúva de África (2017, Prémio Fernando Namora 2018), Que fazer contigo, pá? (2019), Angoche-Os fantasmas do Império (2021). Em co-autoria com Aniceto Afonso: Guerra Colonial (2000), Guerra Colonial – Um Repóter em Angola (2001), Portugal e a Grande Guerra 1914-1918 (2013), Os Anos da Guerra Colonial 1961-1975 (2010), Alcora. O Acordo Secreto do Colonialismo. Portugal, África do Sul e Rodésia na última fase da guerra colonial (2013), Portugal e a Grande Guerra 1914 – 1915. Uma História Diferente (2014), Portugal e a Grande Guerra 1914 – 1915. As Trincheiras (2014), Portugal e a Grande Guerra 1917 – 1918. Uma Guerra Mundial (2014), Portugal e a Grande Guerra 1919-. O Pós-Guerra (2014), Portugal e a Grande Guerra 1918 – 1919. O fim da Guerra (2014), Portugal e a Grande Guerra 1914- O Início da Guerra (2014), A Conquista das Almas. Cartazes e panfletos da acção psicológica na guerra colonial (2016).

 

 

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