“DINOSSAURO EXCELENTÍSSIMO”, de JOSÉ CARDOSO PIRES, UMA OBRA QUE VALE A PENA LEMBRAR por Clara Castilho

DINOSSAURO EXCELENTÍSSIMO”, é uma fábula satírica de José Cardoso Pires que retrata a vida de Salazar, a sua ditadura e o Portugal do Estado Novo num tom bastante irónico e amargurado.

Em 1973, discorrendo sobre Dinossauro Excelentíssimo, na edição “Ars Bibliográfica” promovida pela Galeria 111, José Cardoso Pires afirmou:

“Ao escrever esta fábula (fábula porque se passa no tempo em que os animais falavam e os homens sufocavam) eu sabia que a memória política é frágil; que se conta com isso para repetir o erro histórico e apagar analogias. O que lá vai lá foi, é como se diz. E pede-se uma esponja sobre o passado. Amortalha-se o tirano em silêncio piedoso e entrega-se ao crepúsculo a sua biografia ainda viva, ainda legível e contemporânea das vozes testemunhais, para que em breve ela se torne enigmática e mitificada.”

A primeira edição data de Maio de 1972 e contém 21 ilustrações de João Abel Manta em extra-texto162. Dinossauro Excelentíssimo tem uma história editorial peculiar. Tornou-se objeto de controvérsia política antes, durante e após a sua publicação, devido à censura (ou falta dela). Foi um êxito de vendas, contabilizando seis edições até 25 de Abril de 1974, tornando-se o acontecimento literário de 1972 e a estrela da Feira do Livro desse ano.

A obra teve um sucesso sem precedentes, tendo chegado aos 25 000 exemplares vendidos, por ocasião da quinta edição, em Abril de 1973 (e que esgotou em Junho).

O diário Época (órgão oficioso da Ação Nacional Popular) que, na edição de 12 de Dezembro de 1972, sob o título “Inferior e Repugnante”, encenou uma análise literária ao Dinossauro, sem nunca referir explicitamente nem o livro, nem autor, nem o assunto. O exercício preconizava ser uma espécie de antítese do livro e um antídoto para o entusiasmo que gerara, mas foi mais “um tiro no pé”, como se pode constatar: «Anda novamente a estadear-se nos escaparates das livrarias um volume de bela apresentação gráfica (embora inferior à da primeira edição) em que o respectivo autor pretende fabulizar satiricamente determinado período histórico e a sua personagem dominante. Em princípio, nada temos a opor à intenção: não só o autor é livre de se ocupar da matéria que mais possa aprazer-lhe, mas também é geralmente reconhecido que jamais houve alguém verdadeiramente grande a cujo respeito se não tivessem feito tentativas de similar natureza.”

 

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