CARTA DE BRAGA – “É Oitembro” por António Oliveira

Talvez seja esta a melhor maneira de classificar os tempos que aí vêm, tanto cá como no resto do mundo, desde as consequências dramáticas das crises que nos vão entretendo a descobrir a importância do termo ‘racionamento’, principalmente ao nível dos mais desfavorecidos, dos pequenos comércios e negócios, dos precários e eventuais, aliás e sempre, os primeiros a ter de o penar.

Vão ser tempos de ter sempre à mão remédios para o coração, o número do Centro de Saúde mais perto se estiver a funcionar! alguém bem próximo que saiba andar de trotineta, porque o preço dos combustíveis vai manter-se alto, só para consolo de alguns mas muito poucos que não abdicam do que embolsam e já embolsaram!

E, depois, para compor o ramalhete e para dar mais cor à paisagem, ainda vamos ter uma tal Truss no Reino Unido, que ultrapassou o despenteado Boris pela direita, lá é permitido pelo código de estrada deles, a continuar as ultrapassagens já verificadas na Suécia e uma outra já previsível em Itália, por maioria absoluta, de uma Giorgia Melona a heroína da antipolítica; a mesma Itália onde um tal Salvini, até avisou que os barcos das ONG’s que recolhem e salvam náufragos no Mediterrâneo,  nunca mais lá vão poder acostar, e o mais que aí pode vir, da aliança dos dois com um Berlusconi super ‘esticado’, quase a parecer e a julgar-se novo, mas os três a alegrar o seu amigo Putin

Novos ventos começarão a soprar na velha Europa, onde o populismo, ganhou mais uma vez  a uma esquerda fragmentada, desmobilizada, mesmo sabendo-se num sistema que beneficia as coligações preliminares; à hora em que escrevo, havia menos oito pontos na abstenção. Mas o partido da Melona é, dizem a maioria dos jornais e cronistas que sigo, é só uma organização antieuropeísta, antifeminista e a raiar a antidemocracia, que há pouco tempo não chegava aos 5% , mas ontem conseguiu 25%. Algo quererá dizer, e será bom que os democratas reparem nisso.

Talvez as coisas se componham a Sul, onde o Boçalnaroa tosca cópia do rasca Trumpa, talvez encontrada num qualquer depósito de desperdícios- recolha a penates, por não ter mais nada para estragar, enquanto no Chile, o esquerdista Boric perdeu o referendo sobre a nova constituição, por ser ‘avançada’ de mais para os costumes do país, embora ele prometa continuar.

Mas Outubro e Novembro marcam ainda dois acontecimentos importantes para o mundo de hoje; em Outubro, Xi Jinping vai ser ‘galardoado’ com o terceiro mandato à frente do Partido Comunista chinês e, em Novembro, nos States, há as eleições para a Câmara do Representantes e uma parte do Senado.

É Oitembro no seu melhor, entre um sete(mbro) e um nove(mbro), pelo que me decidi por aquele palavrão, por estar ‘numericamente’ bem colocado! Por um lado, estará uma ‘coroação’, por outro, a tentativa de evitar uma guerra civil, onde os trumpas com cornos e peles já ‘treinaram’ no assalto ao Capitólio, apoiados e incitados por um patrão que desvia documentos secretos e classificados para se manter na ribalta, acolitado por um advogado que transpira e escorre Restaurador Olex quando tem calor, mas um patrão que agrada aos populistas de todo o mundo, por ser fácil de copiar e também por não precisarem de ter, nem usar, muito palavreado.

Talvez por isso, um Oitembro que também poderá significar o funeral dos direitos e garantias sociais, acolitado por retrógrados e populistas mesmo com as ultrapassagens pela direita proibidas pelos nossos códigos, mas eles acabarão a passar por cima, sem se incomodaram com tal, sem precisarem de se explicar, ou também usar muito palavreado! A esquerda não se tem evidenciado na crítica a um sistema económico falhado, e a extrema direita aproveita para a sua cruzada antipolítica, valendo-se de todos os truques, mesmo os mais ‘saudáveis’, como a solidariedade, os bairros sociais e a ‘malignidade’ da União Europeia, pela estratégia seguida em taxas e impostos.

Moisés Naim, editor chefe da revista ‘Foreign Policy’, escreveu há dias, ‘As envelhecidas democracias não são tão velhas, nem estão tão consolidadas, para sobreviver ao assalto das forças que desejam acabar  com elas’, o que quererá dizer que nem a democracia está assegurada, nem as ‘receitas’ antigas servem para deter tal assalto.

Que tal uma reflexão cuidada e colectiva, envolvendo a sociedade toda, por estarmos a viver tempos em que os padrões de comportamento, também estarem a passar por alterações profundas, desde a vida em casa e na escola, até às residências dos mais velhos isto quando as há, umas e outras!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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