CARTA DE BRAGA – “dos estoicos aos esquecidos” por António Oliveira

Epicteto foi um filósofo grego que viveu e ensinou em Roma, no séc. I, depois de ter sido escravo de Nero. É um dos representantes maiores do estoicismo, ‘O que atormenta os homens não é a realidade, mas os julgamento que fazemos dela, as nossas opiniões’. Tudo o que se conhece dele e dos seus ensinamentos, deve-se a um dos seus discípulos, Arriano, que redigiu a maioria dos conhecimentos de filosofia que com ele aprendeu. 

De Epicteto se conta uma estória, possivelmente lenda, para explicar o facto de aparecer sempre agarrado a uma espécie de muleta. Quando chegou a Roma, foi escravo de Epafrodito um homem cruel que tinha sido guarda pessoal de Nero; a estória por ser tão ‘singular’, merece ser contada, sem se lhe poder garantir a autenticidade. O cruel Epafrodito divertia-se a torcer uma das pernas de Epicteto, para ver até onde o grego suportaria a dor; ele limitava-se a avisar, baixo e laconicamente, ‘Vais acabar por parti-la!’. Um dia Epafrodito continuou e quando a conseguiu partir, Epicteto reafirmou ‘Já te tinha avisado que a ias partir!’. Estória ou lenda, ficção ou não, mostra bem o fundamento dos princípios do estoicismo, separar a liberdade dos constrangimentos externos, mesmo os mais violentos

E por uma estória ser também um conjunto de imagens, convém ter em conta o que muitos esquecem, seja qual for o lugar que ocupem na sociedade que a palavra é o estimulador e o caminho da imagem, garantiu Roland Barthes, pois, ‘quando se acaba de falar começa a vertigem da imagem porque a palavra está sujeita a remanência e tem odor, ao contrário da escrita onde não cheira, pois uma vez produzida (terminado o seu processo de produção) cai, não do modo como esvazia um soufflé, mas da maneira como desaparece um meteorito’.

Aliás esta quase crítica a merecer ser avaliada por cada um e para si mesmo parece ser uma nova versão da que foi feita pelo deus Tamuz, senhor de todo o Egipto, a Toth, senhor de Náucratis, quando este lhe apresentou um texto escrito, como ‘uma arte que tornará os egípcios mais sábios e os ajudará a fortalecer a memória’. Mas, Tamuz respondeu, ‘a escrita tornará os homens mais esquecidos, pois que, sabendo escrever, deixarão de exercitar a memória, confiando apenas nas escrituras e só se lembrarão de um assunto por força de motivos exteriores, por meio de sinais, e não dos assuntos em si mesmos. Por isso não inventaste um remédio para a memória, mas sim para a rememoração’. 

A estória contada por Platão, tem cerca de 2400 anos, mas é uma questão sempre presente quando um qualquer artefacto tecnológico é colocado à disposição da maioria. Foi assim com a palavra escrita, foi assim com as primeiras gazetas, foi outra vez assim com a rádio, é assim com a televisão, e é outra vez com o mundo multimédia, do virtual e com a anarquia da net. 

Mas este é o mundo dos media, sejam eles quais forem, associados ou não, por serem o mais perfeito exemplo de uma prática marcadamente social e perfeitamente identificativa, como a define Foucault, ‘não simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo pelo qual, e com o qual se luta, o poder de que nos queremos apoderar’.

Assim, a palavra ou o discurso é, ao mesmo tempo, uma referência à realidade e ao próprio autor, por estar em causa a relação entre imagem (representação) e a expressão, obrigatoriamente reflexiva e intencional. Referências que marcam, de qualquer modo, o confronto entre a Instituição (seja ela qual for) e o desejo de tudo recomeçar, de ultrapassar os discursos institucionalizados, onde manda a repetição e a redundância, a melhor maneira de defender um sistema estancado. 

Mais radical, o Marco Polo criado por de Italo Calvino em ‘As cidades invisíveis’, afirma, ‘Há duas maneiras de não sofrer o Inferno; a primeira é integrar-se nele até já nem se ver e inclusivamente negar-lhe a existência. A segunda, procurar e saber reconhecer o que não é Inferno, no meio do Inferno’. Só assim se poderá lutar contra o seu domínio!

O maior problema parece ser o do relacionamento entre o povo e o poder; o professor e investigador Josep M. Colomer, da Universidade americana de Georgetown, resume-o numa série de perguntas, para as quais não tem respostas definitivas, ‘Quem deveria governar este mundo instável e imprevisível? Políticos profissionais como os italianos? Peritos tecnocratas como os da União Europeia? Ou o povo que tem mais coisas que fazer?

Talvez só perguntando a todos os esquecidos ou omitidos pela História, por terem, certamente muito para dizer e dos avisos que nos fizeram; e quem poderá afirmar que nunca conheceu nem penou algum Epafrodito, ao serviço de uma qualquer autoridade, por muito ‘legítima’ que fosse? 

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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