“DEVIA MORRER-SE DE OUTRA MANEIRA” por Clara Castilho

 

Celebra-se hoje o dia dos  finados, ou “dos fieis defuntos”. O que nunca me disse grande coisa…. Até poderia ir até ao cemitério de Azeitão e logo, ali me “encontraria” com cinco de meus entes queridos, de várias gerações, logo ao lado de Sebastião da Gama.

O facto é que aqueles que nos foram queridos e já não se encontram entre nós, podem ser lembrados das mais diversas formas.

O culto da morte vai oscilando entre princípios de veneração e religiosidade. Vem-me à memória Edgar Morin (1970): “A espécie humana é a única para a qual a morte está presente durante a vida, a única que faz acompanhar a morte de ritos fúnebres, a única que crê na sobrevivência ou no renascimento dos mortos”.

Com a internet todos os dias vamos, de alguma forma, dando vazão a esta necessidade de irmos mantendo entre nós os entes queridos. Assinalamos aniversários de nascimento e de falecimento. Dos familiares e de escritores, pintores, políticos, etc. É uma forma de eles continuarem presentes. Uma forma “preguiçosa”? Talvez.

Mas, por hoje, deixo aqui um poema de José Gomes Ferreira que me deixa, digamos, consolada.

Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: “Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio”.
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
“Adeus! Adeus!”
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes…
(primeiro, os olhos… em seguida, os lábios… depois os cabelos… )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo… tão leve… tão sutil… tão pòlen…
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis…

Poesia II

 

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