A Guerra na Ucrânia — Na sequência dos ataques a Sevastopol, a Rússia suspende a participação no acordo de cereais da ONU com a Ucrânia. Por Peoples Dispatch

Seleção e tradução de Francisco Tavares

4 m de leitura

Na sequência dos ataques a Sevastopol, a Rússia suspende a participação no acordo de cereais da ONU com a Ucrânia

Ao abrigo do acordo alcançado em Julho através da mediação da ONU e da Turquia, a Rússia tinha concordado em permitir a exportação de cereais de três portos ucranianos através do Mar Negro para atenuar a crise alimentar enfrentada pelos países de África e da Ásia

 

Por  em 31/10/2022 (original aqui)

 

(Photo: AP Photo/Yoruk Isik)

 

Acusando a Ucrânia e os seus aliados ocidentais de utilizarem o corredor humanitário para lançar ataques na Crimeia, a Rússia anunciou, no sábado, 29 de Outubro, a suspensão da sua participação no acordo de cereais mediado pela ONU.

O representante permanente da Rússia na ONU Vasily Nebenzya afirmou numa carta ao Secretário-Geral da ONU António Guterres que “o ataque foi protegido por um corredor de segurança designado para a implementação da chamada “Iniciativa do Mar Negro”, e anunciou que “a partir de hoje, o lado russo suspendeu a iniciativa por um período indefinido”.

A Rússia alegou no sábado que o seu porto de Sevastopol foi atacado por 16 drones – nove drones e sete veículos marítimos autónomos – lançados a partir da Ucrânia. A Rússia alegou também que os navios atacados eram responsáveis pela segurança dos navios graneleiros.

Na sequência do ataque, a Rússia anunciou a suspensão da sua participação no acordo patrocinado pela ONU, “tendo em conta o acto de terrorismo cometido pelo regime de Kiev com a participação de especialistas britânicos”.

O acordo de cereais foi assinado em Julho sob a mediação da Turquia e da ONU com o objectivo de ajudar os países da Ásia e África a lidar com a crise alimentar causada pela interrupção das exportações de cereais da Rússia e da Ucrânia, dois grandes fornecedores do mundo, após o início da guerra em Fevereiro.

A exportação de cereais ajuda a UE e não os países mais pobres

O acordo foi o resultado dos repetidos apelos do Secretário-Geral da ONU em Maio para “agir em conjunto, com urgência e solidariedade” para resolver a crescente crise alimentar mundial.

Segundo o acordo, a Rússia tinha concordado em não lançar ataques nas zonas onde os navios de cereais ucranianos se deslocam, com a Turquia a garantir que não são utilizados para contrabando de armas. O acordo especificava três portos ucranianos, Odessa, Chornomorsk e Yuzhne, a partir dos quais as exportações de trigo eram permitidas.

O acordo falava também do levantamento das sanções às exportações de trigo e fertilizantes da Rússia, dada a sua importância para a segurança alimentar global. A Rússia é o maior exportador mundial de trigo.

No entanto, o Ministro dos Negócios Estrangeiros russo Sergei Lavrov acusou o Ocidente de não cumprir a sua promessa de facilitar as exportações russas de cereais.

Até de Outubro, foram exportadas cerca de nove milhões de toneladas de cereais ao abrigo do acordo. No entanto, o Presidente russo Vladimir Putin afirmou no início de Setembro que “quase todos os cereais exportados da Ucrânia não são enviados para os países em desenvolvimento mais pobres, mas para países da UE”.

As apreensões e reivindicações russas sobre o objectivo das exportações de cereais, bem como a falta de acção sobre as sanções contra a Rússia, já tinham levantado dúvidas sobre o futuro do acordo, que deveria ser renovado a 19 de Novembro.

Reagindo à decisão da Rússia no sábado, o Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, num discurso em vídeo, chamou-lhe um movimento premeditado e uma tentativa de causar uma “fome artificial” em grande escala em África e na Ásia, e solicitou a retirada da Rússia do G20.

O embaixador russo nos EUA, Anatoly Antonov, chamou a tais alegações feitas pela Ucrânia e os seus aliados ocidentais, a UE e os EUA, uma “insinuação”.

Antonov afirmou que, contrariamente ao motivo original de apoiar as nações mais pobres em África, “uma boa metade de todos os transportadores de carga seca foi para países desenvolvidos” e “a Somália, Etiópia, Iémen, Sudão e Afeganistão receberam apenas cerca de 3% dos produtos agrícolas”, informou a RT.

O Ministério da Defesa turco anunciou que a Turquia está em conversações com a Rússia e a Ucrânia para reavivar o acordo, e que até que as questões sejam resolvidas, “nenhum navio com alimentos sairá dos portos ucranianos”.

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