Espuma dos dias — O que mais preocupa os EUA em relação a Lula.  Por Steve Ellner

Seleção e tradução de Francisco Tavares

11 min de leitura

O que mais preocupa os EUA em relação a Lula

 Por Steve Ellner

Publicado por  em 3 de Novembro de 2022 (original aqui)

 

Steve Ellner diz que a oposição à posição da NATO sobre a Ucrânia criou um terreno fértil para a expansão de um bloco de nações não-alinhadas, agora com um progressista possivelmente ao leme.

 

Lula da Silva falando no congresso nacional do Partido PT em 2017. (Lula Marques/Agência PT, CC BY 2.0)

 

O Presidente Joe Biden cumpriu uma promessa a Lula da Silva ao felicitá-lo por eleições “livres, justas e credíveis” minutos após os resultados de domingo terem declarado Lula o vencedor sobre o candidato em exercício Jair Bolsonaro.

Os especialistas interpretaram as palavras da administração Biden sobre as eleições brasileiras como uma demonstração de que estava a torcer por Lula sobre o seu adversário, conhecido como “Tropical Trump“. Este raciocínio é, na melhor das hipóteses enganador, se não mesmo completamente errado.

O que mais preocupa Washington em relação a Lula é o ressurgimento de um poderoso movimento não-alinhado e a perspectiva de que um progressista como Lula estaria ao leme. Durante as suas duas presidências anteriores, Lula erigiu-se como porta-voz do Sul Global.

Os tempos mudaram desde então. Há um número crescente de governos ideologicamente diversos, que antes eram subservientes em relação aos EUA e agora desafiam audaciosamente os ditames de Washington, criando um terreno fértil para a expansão de um bloco de nações não-alinhadas que foi revigorado pela oposição à posição da NATO sobre a Ucrânia.

A grande maioria da população mundial, desde a China e Índia até à América do Sul e África, não aderiu ao regime de sanções contra a Rússia e está gradualmente a aglutinar-se em torno de um novo e emergente sistema económico, financeiro e comercial alternativo ao Ocidente.

Além disso, a total incapacidade das principais potências mundiais, especificamente dos EUA e da Europa Ocidental, de intermediar um acordo para pôr fim ao conflito na Ucrânia, abre espaço para um líder como Lula, que ao longo da sua carreira se destacou na negociação com políticos de diversas orientações políticas.

 

A política externa na linha da frente

A vitória de Lula no domingo foi estreitíssima com 50,9% dos votos para 49,1 para Bolsonaro. Tal como durante as suas anteriores presidências (2003-2010), o centro e a direita, incluindo os partidos aliados de Bolsonaro, controlarão o congresso. Este equilíbrio de poder desfavorável forçará sem dúvida Lula a fazer concessões na frente interna, tais como, possivelmente, suavizar a sua promessa de campanha de tributar os ricos.

Mas em matéria de política externa ele estará sob menor pressão interna e está disposto a manter a sua promessa de campanha de desempenhar um papel fundamental nos assuntos regionais e mundiais. No seu discurso de vitória em São Paulo no domingo, prometeu reverter o estatuto internacional de “pária” do Brasil, resultado do desprezo de Bolsonaro pela diplomacia e das suas declarações ultrajantes, tais como culpar a China pelo Covid e Leonardo DiCaprio pelos incêndios na Amazónia em 2019.

O Presidente do Brasil Jair Bolsonaro em Abril de 2020. (Palácio do Planalto, Flickr, CC BY 2.0)

 

Pouco depois de chegar ao poder pela primeira vez em 2003, os poderes estabelecidos de Washington viram Lula como um moderado de confiança e um contrapeso aos incendiários como Hugo Chávez, Evo Morales e Néstor Kirchner. O antigo ministro dos Negócios Estrangeiros do México, Jorge Castañeda, no seu famoso livro Leftovers: Contos das Duas Esquerdas Latino-Americanas, elogiou Lula como homem sensato e contrastou-o com a “esquerda má” de Chávez & Co. que caracterizou como “populista” e “anti-americano”.

Mas a caracterização favorável de Lula mudou em 2010, não como resultado das políticas internas de Lula, mas sim da sua política externa, especificamente o seu reconhecimento de um Estado palestiniano com base nas fronteiras de 1967. Meia dúzia de outros governos latino-americanos seguiram então o exemplo. No mesmo ano, Lula, nas palavras da Reuters, “enfureceu Washington” por causa das suas conversações com Mahmoud Ahmadinejad e da sua defesa do programa nuclear iraniano.

Depois disso, Lula deixou de ser a resposta pragmática de esquerda ao populismo irresponsável, e passou a ser retratado ele próprio como populista. O Wall Street Journal intitulou um artigo sobre a primeira volta das eleições presidenciais realizadas em 2 de Outubro, que colocou Lula à frente, “O populismo vence as eleições brasileiras“. A editora do WSJ Mary Anastasia O’Grady escreveu: “Agora o candidato Lula está novamente a prometer moderação. A sua maior vantagem política é a sua imagem como um populista benevolente”.

A retórica é um elemento importante do populismo, mas no caso de Lula, o que preocupa os EUA são as acções concretas que ele possa tomar como presidente que desafiariam a hegemonia dos EUA. A ameaça provém em grande parte do bloco de cinco nações poderosas que formam os BRICS: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

Lula da Silva, segundo a partir da esquerda, com líderes do BRIC em 2010. (José Cruz/ABr, CC BY 3.0, Wikimedia Commons)

 

Responsáveis e especialistas cépticos de Washington tinham rejeitado as cimeiras do grupo como “conversas” entre governos que tinham pouco ou nada em comum. Essa foi a essência do tuit “Remember BRICS?” do então Secretário de Estado Mike Pompeo ao deixar o cargo, no qual ele insinuou que o medo que a Índia e o Brasil têm da Rússia e da China tornava a organização inútil. Agora, dois anos depois da Ucrânia e com Lula como presidente eleito, esse cepticismo parece completamente infundado.

Lula foi preso em 2018 com base no que os seus apoiantes afirmam terem sido acusações de corrupção forjadas. Numa entrevista na prisão de 2019, declarou que “o BRICS não foi criado para ser um instrumento de defesa, mas para ser um instrumento de ataque”. As suas referências este ano na campanha aos BRICS, assim como a organizações regionais como a Comunidade dos Estados da América Latina e Caraíbas (CELAC) (da qual Bolsonaro se retirou) e a União das Nações Sul-Americanas (UNASUR), reforçaram esta mensagem. Depois de se encontrar com Lula no dia seguinte ao seu triunfo na segunda-feira, o Presidente argentino Alberto Fernández disse, “com Lula, teremos agora um activista para a nossa candidatura para nos juntarmos aos BRICS”. 

Washington vê a expansão dos BRICS como uma ameaça, exacerbada pela adesão da Rússia e da China à organização. Nas semanas finais da campanha presidencial brasileira, o National Endowment for Democracy (NED), escreveu:

“Com os BRICS … preparados para expandir para incluir a Argentina, o Irão, e possivelmente o Egipto, a Arábia Saudita e a Turquia, a Rússia poderá adquirir ainda mais parceiros, que em conjunto representam uma percentagem significativa do PIB global e uma grande percentagem da população mundial”.

 

Em que medida é Lula ‘neutro’?

Washington não pode estar de modo algum satisfeito com a posição de Lula sobre o conflito ucraniano. Lula tem insistido que os BRICS desempenham um papel na procura de uma solução negociada e está empenhado na tentativa de intermediar um acordo de paz. Nas palavras de Telesur, Lula disse que “a paz poderia ser alcançada numa mesa de bar, o que causou inquietação na representação diplomática da Ucrânia no Brasil”.

Mas não é apenas o medo de que Lula esteja mais próximo da Rússia e da China do que de Washington (que está) que impede os decisores políticos dos EUA de dormirem à noite. Ao contrário de Washington, Lula reconheceu a legitimidade da democracia venezuelana e, segundo o jornalista Ben Norton, disse aos meios de comunicação locais que o presidente reconhecido pelos Estados Unidos Juan Guaidó é um “criminoso belicista que deveria estar na prisão”.

Na véspera das eleições, Lula disse ao The Economist “As pessoas só falam da Nicarágua, Cuba e Venezuela. Ninguém fala sobre o Qatar. Ninguém fala sobre os Estados Unidos”.

 

Uma Moeda dos BRICS

Lula tem insistido, desde que o seu Partido dos Trabalhadores perdeu o poder em 2016, que a maior falha dos BRICS foi o seu fracasso em lançar uma nova moeda para rivalizar com o dólar. Numa entrevista na prisão, Lula recordou: “Quando discuti uma nova moeda… Obama telefonou-me, dizendo-me: ‘Estás a tentar criar uma nova moeda, um novo euro? Eu disse, ‘Não, estou apenas a tentar livrar-me do dólar americano'”.

14 de Março de 2009: O Presidente Barack Obama dá as boas-vindas ao Presidente brasileiro Lula da Silva, à Sala Oval. (Casa Branca, Pete Souza)

 

As perspectivas para uma moeda de reserva BRICS são muito mais promissoras em 2022 e os seus cinco países membros estão por detrás da ideia. De facto, este ano, as moedas dos cinco países BRICS superaram o Euro.

A utilização política do dólar como arma por parte de Washington vai além da rivalidade das superpotências com a Rússia e a China, uma vez que as sanções internacionais impostas pelos EUA trouxeram miséria aos povos do Sul Global, nomeadamente a Cuba, Venezuela, Irão e Nicarágua.

 

Um Pólo Contra Muitos

A noção de um “mundo multipolar” frequentemente invocada por Lula prevê a emergência de diversos blocos, incluindo o das nações não-alinhadas. Um artigo na edição deste Verão da Foreign Policy de Shivshankar Menonor, especialista em segurança nacional, reflecte o pensamento de muitos em Washington que desconfiam do não-alinhamento.

“Quando o sistema internacional está a falhar ou ausente …, não é surpresa que os líderes se voltem para o não-alinhamento. Quanto mais os Estados Unidos, Rússia, China, ou outras potências pressionarem outros países a escolherem lados, mais esses países serão atraídos para a autonomia estratégica, o que poderia criar um mundo mais pobre e cruel à medida que os países reduzem a dependência externa e consolidam as suas fronteiras interiores”.

 

Alguns à esquerda também se sentem inquietos. O activista político de longa data Greg Godels chama à multipolaridade “uma noção discutida pela primeira vez por académicos burgueses que procuram ferramentas para compreender a dinâmica das relações globais” e acrescenta “não há garantias de que os pólos que emergem ou desafiam o super-pólo pós Guerra Fria sejam um passo em frente ou um passo atrás simplesmente porque são pólos alternativos”.

A presença do governo racista da Índia de Narendra Modi nos BRICS e o desejo da Arábia Saudita de se juntar a ele, lançam dúvidas sobre o progressismo da organização.

O Presidente brasileiro Lula da Silva em visita à Arábia Saudita, Maio de 2009. (Ricardo Stuckert/CC BY 3.0 br, Wikimedia Commons)

 

A recente e surpreendente decisão da Arábia Saudita de rejeitar o apelo de Biden para bombear mais petróleo para ajudar a baixar os preços internacionais e prejudicar a Rússia não torna a nação menos reaccionária. Mas é precisamente por isso que a liderança de um progressista como Lula a nível mundial é de tal importância – e causa alarme em Washington.

O movimento não-alinhado original (NAM) foi fundado nos anos 50 por líderes como Josip Broz Tito, Gamal Abdel Nasser e Kwame Nkrumah, todos eles inclinados e comprometidos com o socialismo. O movimento desempenhou um papel fundamental em favor da descolonização, desarmamento e oposição ao racismo e apartheid.

O NAM ainda existe mas a União Soviética desapareceu, uma das duas potências com a qual o movimento não estava alinhado. Apenas os EUA permanecem. Lula não escondeu as suas críticas aos EUA, nem mesmo a sua suspeita de que os investigadores americanos colaboraram com os procuradores brasileiros para o colocar atrás das grades, uma acusação que tem sido bem documentada pelo noticiário Brasilwire.

Lula está prestes a tornar-se o líder da maré progressista que varreu a América Latina, começando com a vitória de Andrés Manuel López Obrador no México em 2018.

A verdadeira questão é se Lula colocará à prova o seu senso político ao desempenhar um papel de liderança em favor de uma marca progressista de multipolaridade num movimento mundial em crescimento que desafia a hegemonia dos EUA e que atravessa todo o espectro político – e como Washington reagirá a isso.

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O autor: Steve Ellner [1946-] é professor de história económica e ciências políticas aposentado da Universidade de Oriente da Venezuela e actualmente é editor-gerente associado da revista Latin American Perspectives. O seu último livro é o seu co-editado “Latin American Social Movements and Progressive Governments”: Tensões Criativas entre Resistência e Convergência (Rowman e Littlefield, 2022).

 

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