CARTA DE BRAGA – “DOS FIOS QUE TUDO LIGAM” por António Oliveira

Para entender o mundo, temos de ver os fios invisíveis que tudo unem. Para o explicar têm de se contar estórias e não inventar problemas. E eu aprendi matemáticas, história e literatura’, garante Marcus du Sautoy, catedrático de Matemáticas em Oxford e divulgador de ciência na BBC.

Outro filósofo, o sul coreano Byun-Chul Han, professor na Universidade das Artes em Berlim, avisa também que a democracia se está a transformar gradualmente em ‘infocracia’, devido a um fenómeno curioso, ‘À medida que as armas se vão tornando cada vez mais poderosas, as palavras que sustentam e apoiam as suas acções, também o são. O grande salto qualitativo dos nossos dias, é a rapidez e o alcance das duas, as armas e as palavras’.

Este facto aturde e mergulha-nos num enorme frenesi, comunicativo e informativo, de tal maneira que é extraordinariamente difícil a situação da informação nos nossos dias, ‘O que está em crise é a verdade, de tal maneira que é literalmente impossível, saber se algo é verdadeiro ou falso, isto sem querer dizer que ninguém tenha a verdade absoluta, mas é muito difícil saber algumas coisas’, afirma Ignacio Ramonet, ex- director do ‘Le Monde Diplomatique’.

E acrescenta o veterano jornalista, ‘É a globalização a dominar; temos de entender que já não domina o fazer nem a indústria, mas o funcionamento das finanças, demonstrado como o covid teve consequências para a inflação e a guerra da Ucrânia acrescentou mais uns pontos’.

Não é fácil hoje, conseguir ‘ver’ os tais fios invisíveis que tudo ligam, até porque na conferência sobre o clima que se celebra no Egipto, o secretário geral da ONU, o português António Guterres, dirigindo-se aos representantes dos cerca de 200 países presentes faltaram, EUA, China e Índia, por acaso os maiores poluidores teve o cuidado de afirmar ‘Reenviemos o dinheiro às pessoas que lutam com o aumento dos preços dos alimentos e da energia, e aos países prejudicados pela alteração do clima’,

Sabemos todos quem são os que não estão a favor desse pedido, também solução parcial, mais os que, por envergonhados calam ou se desculpam com as instituições de que até fazem parte, ou recitam e cantam monotonamente e em voz baixa, ser necessário baixar os impostos. E como o adianta o cronista Vidal-Folch, ‘Olhem para a vossa direita para ver quem são e acertarão!

Há um problema de fundo que não podemos nunca esquecer, nem deixar de lado: a passagem de um capitalismo industrial, a um outro capitalismo financeiro, mas global. A democracia liberal onde temos vivido nas últimas dezenas de anos, baseava-se numa quase associação e não menos entendimento entre o capitalismo industrial e o seu sócio, o estado-nação. Qual dos dois ainda existe hoje? E a tal democracia? E não estamos a assistir ao renascimento dos autoritarismos, sob as mais diversas formas?

Onde estão os tais fios invisíveis que tudo ligam? E quem os vê? E que poderá isso interessar a cada um de nós, o cidadão do dia a dia, o que lê e vê os diversos manhas que pelo mundo todo prosperam, o que espera ansioso pelo mundial do Qatar, o que ainda não recebeu os 125€ do subsídio, o reformado que já gastou a meia pensão ou o que arruma carros, com a cabeça baixa, à entrada dos supermercados?

Lembro-me de, há 125 anos, o patrão da imprensa Randolph Hearst e a figura do Citizen Kane de Orson Welles ter mandado para Cuba um fotógrafo (ilustrador?) para cobrir a Guerra da Independência daquela colónia espanhola. Mas logo que chegou, o ilustrador mandou uma mensagem a Hearst dizendo, laconicamente, ‘Não vai haver guerra’. Dizem as crónicas e os relatos da época, que Hearst teria respondido, também laconicamente, ‘Você fornece as imagens e eu forneço a guerra’.

Não há dúvidas que, para entender o mundo, temos de conseguir ‘ver’ todos os fios invisíveis que tudo unem, com toda a certeza por vontade dos homens, por muito alto que estejam.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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