A Esquerda não oficial e a guerra na Ucrânia — Texto 5. Multipolaridade vs. neo-imperialismo e a esquerda extraviada.  Por Augusto Zamora R.

Seleção e tradução de Francisco Tavares 

10 min de leitura

Texto 5. Multipolaridade vs. neo-imperialismo e a esquerda extraviada  

 Por Augusto Zamora R.

Autor de ‘Malditos libertadores’, ‘Réquiem polifónico por Occidente’ e de Política y geopolítica para rebeldes, irreverentes y escépticos’. Ex-Embaixador da Nicarágua em Espanha

Publicado por .es em 21 de Abril de 2022 (original aqui)

 

A Presidente da Comissão Europeia, Ursula Von Der Leyen, fala à Imprensa com Joe Biden ao seu lado depois de uma reunião – Christophe Licoppe / European Comm / DPA

Não é fácil – é justo reconhecê-lo – abandonar quadros ideológicos, paradigmas e conceitos que têm sido duramente conquistados durante um século, a fim de compreender e assumir as novas realidades deste rápido e vertiginoso século XXI. A inércia é poderosa e, em última análise, existe o fator humano, através do qual se acaba por ficar afetivamente ligado ao que é velho (o trenó de Rosebud em Citizen Kane de Orson Welles) e, a partir deste afeto inerte, querer interpretar o que é novo com as referências do que é velho, especialmente quando se vive, como agora, um duro e complexo processo de transição entre o passado e o futuro.

Para começar, consideremos que já passaram mais de três décadas desde o fim da Guerra Fria; que por não haver Guerra Fria, não há União Soviética; e que porque não há União Soviética, existem realidades tão impressionantes como a emergência da China como uma grande potência; a reconstrução da Rússia, cuja geografia única a torna um ator essencial na Eurásia; a ascensão da Índia como potência económica e tecnológica; o notável reforço do Irão, apesar da guerra com o Iraque e das draconianas sanções dos EUA; a crescente autonomia da América Latina e da África, que, embora com muita dificuldade, estão a construir caminhos contra o seu atraso crónico. Um mundo, em suma, que tem pouco ou nada a ver com o mundo do ainda próximo e também distante século XX.

Questões ou temas como o anticolonialismo, os não-alinhados, as relações Norte-Sul ou a nova ordem económica internacional, que preencheram a agenda mundial na segunda metade do século XX, são, hoje em dia, questões de que ninguém se lembra ou que poucos saberiam como recordar. É assim, tem de ser assim, porque as realidades são diferentes e as prioridades e agendas são diferentes. Novas prioridades e agendas requerem novos quadros teóricos e materiais adaptados aos sérios desafios do século XXI, incluindo as guerras.

Comecemos pela questão essencial da nova ordem mundial. O mundo da Guerra Fria era bipolar. Estava-se ou com os EUA ou com a URSS, quer se gostasse ou não, e face a esta bipolaridade, a Jugoslávia, a Índia e a Indonésia promoveram o Movimento dos Não-Alinhados, que foi decisivo entre 1960 e 1988. Esse mundo desapareceu com a URSS e deu lugar a uma multiplicidade de forças abafadas pelas superpotências, dando origem a uma sociedade multipolar. Como tantas coisas na história da humanidade, esta ordem multipolar foi sendo estabelecida silenciosamente. Entre 1992 e 2014, os EUA proclamaram-se uma hiperpotência global e procuraram, com uma série de guerras de agressão – Jugoslávia, Iraque I, Afeganistão, Iraque II, Líbia, Síria – reordenar o mundo à sua visão de unipolaridade. O plano foi de fracasso em fracasso e, entretanto, a China e a Rússia reapareceram na cena mundial com a vontade de combater o projeto unipolar norte-americano. Ambas as potências, para pânico dos EUA, negaram a unipolaridade, estabelecendo uma nova dinâmica global. Uma dinâmica que, ao contrário do mundo bipolar, não tem conotações ideológicas no sentido que tinha na Guerra Fria.

Este é um mundo atolado em pura dinâmica de poder, algo que alguns se recusam a compreender ou aceitar. Neste mundo real, a aliança estratégica entre a China e a Rússia é um caso exemplar. A República Popular da China é um país que, acreditem ou não, está mergulhado na ideologia comunista e o seu presidente, Xi Jinping, ordenou um aumento no estudo do marxismo-leninismo com características chinesas. O presidente da Rússia, o diabolizado Vladimir Putin, embora nesta Europa atlântica e orwelliana ele seja apresentado como de extrema-direita, não o é. É um nacionalista russo, conservador em questões sexuais (como o era a URSS, que ninguém se esqueça, e também a Cuba revolucionária), cujo objetivo é reconstruir a Rússia, garantir a sua segurança e recuperar o seu estatuto de potência. Sobre outras questões, especialmente económicas e estratégicas, o Estado russo continua a manter o controlo das suas áreas vitais. As empresas que controlam os hidrocarbonetos, a indústria aeroespacial e as infraestruturas, entre outras, são estatais. Esta tendência estatal aumentou com as sanções de 2014 sobre a Crimeia, e recebeu um enorme impulso com as sanções brutais impostas pela guerra na Ucrânia. Curiosamente, o dilúvio de sanções atlantistas está a reanimar os modelos económicos soviéticos para promover a independência económica russa. A propósito, Putin anunciou a 18 de Abril que a “blitzkrieg económica” lançada contra a Rússia tinha falhado e que uma nova era industrial estava a começar.

A Rússia e a China não se aliaram devido a fatores ideológicos, mas por razões geopolíticas, energéticas, comerciais e estratégicas. Por razões semelhantes foi lançada a quase desconhecida, no Ocidente, Organização de Cooperação de Xangai (SCO), fundada em Junho de 2001, que é a expressão mais viva deste século XXI pluralista. A SCO reúne uma vasta gama de países e governos: China, Cazaquistão, Quirguistão, Rússia, Tajiquistão, Uzbequistão, Índia, Paquistão e, a partir de Setembro de 2022, Irão. Como a China salienta, “a SCO defende um princípio de não-alinhamento e não dirige os seus esforços contra qualquer outro país ou organização. Não tenta dividir o mundo em campos diferentes ou instigar preconceitos ideológicos ou ódio contra terceiros”. A SCO poderá ser uma antecipação do mundo multipolar e livre de dogmas que está a ser forjado. Na SCO coexistem ideias marxistas, social-democratas, islâmicas, nacionalistas e indefinidas, impulsionadas pelo desejo de ter um fórum para o diálogo igualitário. À SCO devemos acrescentar o fórum BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), e o formato RIC (Rússia, Índia, China), para ter uma melhor ideia do que existe e do que se move, em fóruns sem qualquer presença americana ou europeia, mas que reúnem países que representam 50% da população mundial e 30% do seu PIB. A partir destes três fóruns, os países não ocidentais têm vindo a trabalhar para estabelecer uma ordem multipolar.

Em oposição aos países SCO estão os EUA e os seus parceiros da NATO, determinados em manter um sistema global baseado na hegemonia marítima e militar dos EUA. Para atingir este objetivo, os EUA têm vindo a trabalhar há anos para construir uma rede de alianças militares que lhe permita impor a sua hegemonia em detrimento da China, Rússia e Irão. Quase toda a política externa dos EUA desde 2014 até à data, com especial ênfase desde 2018, visa a construção de uma muralha militar em torno da Rússia e da China. Contra a Rússia tem a NATO e contra a China o eixo EUA-Japão-Austrália, com parceiros menores como a Grã-Bretanha, a Coreia do Sul e as Filipinas (e as Filipinas em dúvida). Contra o Irão promoveu o eixo Arábia Saudita-Israel, que tem mais farpas do que um espinho, pois ninguém sabe o que realmente aconteceria se Israel voltasse a entrar em guerra contra o Islão.

É a reação belicosa dos EUA aos esforços das potências euro-asiáticas para um novo modelo de sociedade internacional que conduziu à situação que estamos a viver hoje. Quem tentar interpretar ou compreender a situação com a Ucrânia sem este quadro, não compreenderá o que está em jogo. A guerra na Ucrânia é uma reação ao plano dos EUA e da NATO de cercar a Rússia e sufocá-la no seu território, naquilo a que temos chamado a Frente Atlântica dos EUA. Sabe-se agora que os EUA tinham investido mais de 500 milhões de dólares na formação do exército ucraniano como uma força atlantista contra a Rússia. Os EUA estão a prosseguir um processo mais perigoso contra a China, com o rearmamento do Japão e a constante entrega de armas a Taiwan, bem como a manutenção de uma presença naval permanente ao largo da China. Tanto que a China denunciou que em 2021 os EUA realizaram mais de 100 manobras militares nos mares da China, ou seja, uma média de nove manobras militares por mês. A doutrina militar dos EUA prevê, em caso de conflito, estabelecer um cerco naval contra a China (semelhante ao cerco militar que a NATO está a estabelecer contra a Rússia), para que possa atacar o mais duramente possível a economia chinesa (ainda mais radical do que a estratégia da NATO contra a economia russa). Tudo isto pode ser lido em documentos oficiais dos EUA. A China reagiu criando uma marinha de 350 navios, a mais poderosa do mundo, com planos para a aumentar para mais de 400 plataformas até 2030.

Face às realidades do mundo atual não há ideias claras à esquerda, porque é um mundo que coloca desafios completamente novos e completamente diferentes dos quadros forjados com a revolução bolchevique e a Guerra Fria. Não há ideias claras, em grande parte porque a maioria da esquerda ficou agarrada aos quadros interpretativos do século XX e, deste ancoradouro no passado tem problemas em lidar com o presente.

A crise na Ucrânia é, neste sentido, todo um teste. Não poucos compreenderam a invasão russa como a de um país modelo “imperialista” do século XX contra um pobre “irmão natural” do Afeganistão. Uma visão simplista e infeliz que quer explicar um episódio geopolítico do século XXI com parâmetros do século XX. Chamámos à guerra na Ucrânia a primeira guerra geopolítica do século XXI, porque é isso que entendemos que seja. A Rússia não está a procurar apoderar-se de minerais, recursos energéticos ou similares. A Rússia procura segurança, no conceito mais antigo do termo. Segurança frente ao avanço da NATO sobre as suas fronteiras; segurança frente à ameaça que significava uma Ucrânia atlantista; segurança para não ser forçada a um ataque nuclear. A Rússia passou trinta anos a pedir garantias de segurança, as quais foram sempre negadas. Passou-se o que se sabia que se ia passar. Se a NATO não dava garantias de segurança, a Rússia tomá-las-ia. A guerra poderia ter sido evitada e a NATO não o quis.

(Se a sua dúvida é a Ucrânia, considere a possibilidade de que a Ucrânia seja um país mantido refém por uma aliança entre a casta governante corrupta e os EUA – algo que conhecemos demasiado bem na América Latina – e que a verdadeira libertação desse país passa por assumir um estatuto de neutralidade e desmilitarizar. Não perderia nada: ganharia. A Áustria e a Finlândia têm sido neutras e têm-se saído muito bem. Não gastar em armamento tem a vantagem imensa de que o dinheiro pode ser gasto em investimento e desenvolvimento social. Canhões ou manteiga. E não se esqueça que é do interesse dos EUA prolongar a guerra. A Europa não: para ela é uma ruína).

Do mesmo modo, os EUA estão interessados em minar a segurança da China e, pela sua atitude, estão a forçá-la a ir para a guerra. Por esta razão, a China aprovou o maior orçamento militar da sua história, a fim de fazer face ao projeto americano de construir uma Frente do Pacífico, que lhe permitirá asfixiar e arruinar a China. Com isto pretendemos salientar que existe um plano americano de hegemonia global que se estende do Alasca ao Oceano Índico, do Médio Oriente ao Oceano Ártico, e que a UE/NATO está totalmente comprometida com este plano de hegemonia mundial.

Se alguém duvida do que aqui escrevemos, deixamos-lhe este parágrafo do diário Global Times do Partido Comunista da China, intitulado O apetite geopolítico de Washington tem vindo a crescer: (Washington’s geopolitical appetite has been growing): Editorial de Global Times, publicado na sua edição de 18 de Abril de 2022:

E o que é mais perigoso, Washington, que provou sangue na crise ucraniana, está interessada em adotar esta abordagem a nível mundial. As pessoas veem que Washington está a tentar aproveitar ao máximo o conflito Rússia-Ucrânia, ligando-o à situação Indo-Pacífico. Por um lado, os EUA estão a fazer com que a NATO olhe pró-ativamente para Leste. Por outro lado, não se poupa a esforços para fazer ondas na Ásia-Pacífico. Os EUA convidaram, pela primeira vez, os ministros dos negócios estrangeiros do Japão e da Coreia do Sul para as reuniões dos ministros dos negócios estrangeiros da NATO, procuraram trazer o Japão para a AUKUS [n.t. aliança militar entre a Austrália, o Reino Unido e os Estados Unidos, de Setembro de 2021] e intensificaram a sua manipulação política da questão de Taiwan. Ao entregar-se a jogos geopolíticos extremos, Washington está a tornar-se cada vez mais a fonte do caos e das guerras, algo que todos devemos estar atentos e evitar“.

 

Face a um tal plano, como deveria posicionar-se a esquerda? Sim à NATO? Guerra contra a China também? Dado que a UE/NATO concordou em integrar-se ativamente na política hegemónica dos EUA, será que toda a gente aceita ficar de braços cruzados? Ninguém questiona e responsabiliza os governos por uma política que conduziria diretamente a um conflito global aterrador? A Europa tem de morrer por amor aos EUA? Alguém no universo da esquerda compreende sequer o que está a acontecer e o que está em jogo? Ou, a coisa fácil de fazer, juntar-se ao rebanho e porrada em Putin, na Rússia má, matar os russos, e nós, bons rapazes, a papaguear os slogans vindos do Pentágono? É isso, nada mais? Morrer o mundo por um sonho imperial obsoleto e impossível que leva à Terceira Guerra Mundial? Ninguém a defender uma nova ordem de segurança europeia – europeia, não americana? Ou seremos todos servos do Tio Sam acenando a bandeira das estrelas e das riscas?

Nada mais?

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O autor: Augusto Zamora R., antigo Embaixador da Nicarágua em Espanha, foi Professor de Direito Internacional Público e Relações Internacionais na Universidad Autónoma de Madrid. Foi também professor na Universidade Nacional Autónoma da Nicarágua, bem como professor visitante em várias universidades da Europa e da América Latina. Foi director jurídico do Ministério dos Negócios Estrangeiros e chefe de gabinete do Ministro dos Negócios Estrangeiros de 1979 a 1990. Fez parte da equipa de negociação nicaraguense nos processos de paz de Contadora e Esquipulas, desde o início até à derrota eleitoral do Sandinismo. Advogado da Nicarágua no processo contra os Estados Unidos no Tribunal Internacional de Justiça, tem participado em numerosas missões diplomáticas. Membro de pleno direito da Academia Nicaraguense de Geografia e História, tem contribuído, tanto em Espanha como na América Latina, há mais de uma década, para jornais como El Mundo e Público e revistas como PAPELES de Relaciones Ecosociales e Cambio Global. As suas obras incluem El futuro de Nicaragua (1995; 2ª ed. alargada, 2001), Actividades militares y paramilitares en y contra Nicaragua (1999), El derrumbamiento del Orden Mundial (2002), La paz burlada. The Contadora and Esquipulas Peace Processes (2006), Politics and Geopolitics for Rebels, Irreverents and Sceptics (2016; 3rd enlarged ed. 2018) e Polyphonic Requiem for the West (2018).

 

 

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