Da ficção do que nos dizem os decisores da política económica ao que eles pretendem alcançar – um bilhete postal para os nossos dirigentes políticos lerem — Texto 4. Rishi prepara-se para falhar.  Por Thomas Fazi

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

8 min de leitura

Texto 4. Rishi prepara-se para falhar 

O seu plano de austeridade é baseado numa ilusão

 Por Thomas Fazi

Publicado por em 31 de Outubro de 2022 (original aqui)

 

Boxed in. (TOLGA AKMEN/AFP via Getty Images)

 

Apesar de ter passado a semana passada a examinar resmas de folhas de cálculo e de informações, Rishi Sunak enfrenta uma verdade incontornável: o sucesso já está fora do seu alcance. Sunak pode ter adiado o Orçamento de Halloween de hoje para 17 de Novembro, mas isso muda pouco. Quando se trata de salvar a economia da Grã-Bretanha, ele preparou-se para falhar.

Por um lado, espera-se que ele resolva os numerosos problemas económicos que afligem a Grã-Bretanha – a mais alta taxa de inflação em 40 anos, uma crise energética e de custo de vida, o desenvolvimento de forma lenta de um colapso do mercado imobiliário, serviços públicos tensos, e crescente agitação industrial e civil – e ao mesmo tempo que impulsione o investimento e o crescimento económico. Por outro lado, espera-se que ele faça tudo isto enquanto “restabelece a confiança dos mercados”, “consertando as finanças do país” – ou seja, reduzindo o défice e a dívida pública através de impostos e/ou despesas mais elevados.

Estes dois objetivos não podem ser reconciliados. Enfrentar a crise económica e social, bem como mobilizar o investimento necessário para impulsionar o crescimento, requer mais despesa, e não menos, o que não pode ser realisticamente compensado através de impostos mais elevados. Entretanto, a tentativa de equilibrar o orçamento – o que significaria permitir que milhões de famílias deslizem para a pobreza, deixando as empresas falir, e empurrando os serviços públicos para a beira do colapso – faria provavelmente de Sunak o terceiro Primeiro-Ministro a ser expulso de Downing Street dentro de outros tantos meses.

A boa notícia para Sunak é que se trata de um falso dilema. As finanças públicas do Reino Unido não precisam de “conserto”. Como nação emissora de moeda, a Grã-Bretanha nunca poderá “ficar sem dinheiro” ou tornar-se insolvente em relação à sua dívida pública. Estou inclinado a pensar que Sunak está ciente disto; afinal de contas, ele supervisionou pessoalmente um aumento maciço do défice durante a pandemia, que pagou ao mandar imprimir as libras necessárias pelo Banco de Inglaterra, contornando essencialmente os mercados financeiros (e a própria emissão de obrigações). A dívida resultante é inteiramente propriedade do Banco de Inglaterra, e tecnicamente não precisa sequer de ser reembolsada. Não há razão para não poder fazer o mesmo agora.

A má notícia – para Sunak e para o conjunto do país – é que o novo primeiro-ministro não se pode permitir reconhecer esta simples verdade. Não só insistiu durante muito tempo no argumento de que as suas próprias medidas de apoio pandémico criaram “enormes desafios para as nossas finanças públicas” que agora precisam de ser corrigidas; mais crucial ainda, na sua pressa em substituir Truss, abraçou plenamente a narrativa principal sobre a razão da sua queda: que ela foi punida pelos mercados por um orçamento fiscalmente irresponsável que quase destruiu a economia britânica – e que agora lhe cabe corrigir os seus erros.

Esta narrativa é profundamente enganadora. Como Narayana Kocherlakota, ex-presidente do Banco da Reserva Federal de Minneapolis, explicou  recentemente: “Os mercados não expulsaram Truss, foi o Banco de Inglaterra que a expulsou”. Ele aponta para o facto de que a queda no valor da libra foi, no grande esquema das coisas, bastante insignificante, enquanto que a venda de obrigações foi em grande parte causada por problemas inerentes aos fundos de pensões sobre financiados da Grã-Bretanha – e esta própria venda de obrigações é um resultado de incapacidade do regulador, o Banco de Inglaterra – e depois exacerbada pelo anúncio de que a intervenção do Banco no mercado obrigacionista seria de curta duração.

“[É] fácil ver como [isto] contribuiu para o fim do governo”, escreve Kocherlakota. “Ela foi impedida não pelos mercados, mas por um buraco na regulação financeira – um buraco que o Banco de Inglaterra estranhamente se mostrou pouco disposto a tapar”. Por outras palavras, se o Banco de Inglaterra tivesse jogado o jogo do governo – como qualquer banco central deveria fazer, se se acredita que as políticas deveriam ser decididas por políticos eleitos e não por tecnocratas não eleitos – não teria havido uma “crise de mini-orçamento”.

Os relatos que estão a surgir sobre os “conselhos” que Truss recebeu do Tesouro e de outros departamentos são ainda mais preocupantes. De acordo com um novo livro sobre a sua queda, os chefes do Tesouro disseram a Truss que o Reino Unido corria o risco de mergulhar no estatuto de “país do Terceiro Mundo”, incapaz de vender a sua dívida nos mercados de obrigações globais, com a City “reduzida a escombros”. “Eles deram-lhe um susto de morte”, disse um informador interno. Se for verdade, Truss não foi apenas sabotada pelo Banco de Inglaterra – mas também pelos próprios funcionários não eleitos do governo.

Agora, pode ter parecido uma boa estratégia a Sunak encobrir estas verdades desconfortáveis na sua candidatura à liderança do partido. Mas nos próximos meses, ele pode vir a lamentar estar a reforçar a narrativa regressiva, e fundamentalmente falsa, sobre o destino desastroso que alegadamente aguarda qualquer governo que se atreva a afastar-se da ortodoxia orçamental. Com os principais especialistas de esquerda e direita, e mesmo políticos da oposição, a  insistir com ataques ridículos e a defenderem a necessidade urgente de “preencher o buraco negro orçamental”, Sunak não tem outra escolha senão envolver-se em algum grau de austeridade.

Este, é claro, pode ter sido sempre o seu plano. Como a mensagem subjacente ao seu discurso de vitória deixou claro, a Grã-Bretanha enfrenta um “profundo desafio económico” e “decisões difíceis [estão] para vir”. Ainda mais preocupante, é a notícia de que o Chanceler do Tesouro Jeremy Hunt tem mantido conversações com Osborne, o arquiteto da devastadora campanha de austeridade dos anos 2010. O que poderá tudo isto significar? De acordo com alguns relatórios, Sunak e Hunt estão a explorar aumentos de impostos e cortes na despesa pública no valor de até 50 mil milhões de libras – o montante necessário para equilibrar o orçamento.

Não é preciso obter um doutoramento em Economia para se dizer com alguma certeza que isto não vai acontecer: Sunak e Hunt estão perfeitamente conscientes de que tentar equilibrar o orçamento num momento de recessão seria uma loucura – especialmente tendo em conta que realmente “não há gorduras para limpar ” nos serviços públicos existentes, muitos dos quais ainda estão a sentir os efeitos de uma década de contenção de gastos e de pressões pandémicas mais recentes. Até mesmo Whitehall e funcionários do Tesouro alertaram para o risco de se ir longe demais na redução da despesa pública ou no aumento dos impostos, razão pela qual provavelmente Sunak confirmou a decisão de Truss de não aumentar a taxa de seguro nacional em 1,25%, e porque até mesmo Hunt está a dizer que “acho que não vamos ter nada parecido [com a austeridade dos anos 2010]”. Portanto, é pouco provável que vejamos uma austeridade dura. O problema é que mesmo a austeridade-leve seria prejudicial numa altura em que são necessários mais gastos, e não menos.

Entretanto, Sunak terá também de se opor ao compromisso do Banco de Inglaterra de aumentar as taxas de juro. Isto não irá reduzir a inflação que é inteiramente impulsionada por fatores do lado da oferta, mas irá quase certamente causar enormes dores à economia, especialmente ao mercado imobiliário, que já se encontra em dificuldades. Até certo ponto, porém, ter o Banco de Inglaterra a fazer de mau polícia pode, de facto, beneficiar Sunak, fornecendo-lhe um bode expiatório temporário. Mas, mais adiante, quando ele se vir obrigado a emitir mais títulos para evitar que a economia se afunde e que os serviços públicos caiam, Sunak pode lamentar ter dado poder ao mito da independência do banco central. Consideramos normal que as decisões cruciais sobre todas as áreas da política económica sejam tomadas por homens de fatos cinzentos que não têm de prestar contas. Mas não há nada de normal nisto – é apenas mais uma tentativa de algemar a democracia.

Claro que, como o economista Richard Murphy observou, Sunak poderia dizer ao Banco de Inglaterra para parar de aumentar as taxas de juro e começar a comprar os novos títulos emitidos pelo governo para cobrir o custo dos seus compromissos para com o povo britânico. Mas isso não vai acontecer, dado que Sunak atacou repetidamente Truss precisamente por querer travar a independência do Banco de Inglaterra. Pondo-o de forma mais simples, é difícil ver como Sunak poderia alguma vez ser bem sucedido, dadas as restrições que, em grande medida, impôs a si próprio. Ao alimentar os mitos que acabaram por derrubar Truss, ele próprio se encaixotou.

E no entanto, pelo menos por agora, pode sempre contar com o “factor L” para virar a sua sorte – o facto de o Labour estar ainda mais aterrorizado com os mercados e casado com esses mitos do que os Tories. De facto, a disputa política parece agora ter-se tornado em quem é que é capaz de impor mais austeridade, com os Trabalhistas a apresentarem-se agora como o partido do “dinheiro sólido” e a assumirem-se como um antídoto para a despesa pública  irresponsável dos Conservadores. É o deprimente paradoxo da época atual: no meio da pior crise social e económica das últimas décadas, ambos os partidos foram sequestrados por representantes do establishment. A janela populista que se tinha aberto com Johnson e Corbyn foi agora firmemente fechada. Mas, como Sunak poderá descobrir em breve, não vai ficar fechada para sempre.

___________

O autor: Thomas Fazi é escritor, jornalista e tradutor. É autor de The Battle for Europe: How na Elite Hijacked a Continent (Pluto, 2014) e o seu último livro, em co-autoria com Bill Mitchell, é Reclaiming the State: a Progressive Visiono f Sovereignty for a Post-Neoliberal World (Pluto 2017).

 

Leave a Reply