A Guerra na Ucrânia — Przewodów. Ridículos, se não fossem criminosos. Por Urbano de Campos

Seleção de Francisco Tavares

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Przewodów. Ridículos, se não fossem criminosos

Por Urbano de Campos

Publicado por em 17 de Novembro de 2022 (original aqui)

 

O incidente com o míssil que, anteontem, 15 de novembro, atingiu a Polónia é um espelho. Espelho da paranóia dos dirigentes ucranianos e dos seus mais fiéis comparsas, espelho dos níveis de perversão atingidos pela comunicação social. Mas talvez, em final de contas, alguns dos estilhaços do míssil de Przewodów caiam na cabeça de Zelensky, dos seus colegas de governo e dos seus adeptos, dentro e fora da Ucrânia.

Factos: Uma explosão, possivelmente um míssil, atingiu uma zona rural da Polónia matando duas pessoas, a dez quilómetros da fronteira com a Ucrânia. Na altura, ninguém sabia donde tinha vindo, nem quem o tinha lançado.

Exploração dos factos: o presidente Zelensky declarou de imediato, sem qualquer contenção nem rebuço, que se tratava de um ataque russo “contra a segurança colectiva” da Nato e reclamou “acção” por parte da Aliança. Foi secundado por dirigentes dos países bálticos que espicaçaram a Polónia a invocar o artigo 5.º do tratado da Nato, que admite a resposta militar, em retaliação.

O ministério da Defesa russo negou de imediato qualquer responsabilidade: os destroços mostrados pelos polacos não eram de uma arma russa, e todos os bombardeamentos que tinham tido lugar no oeste da Ucrânia nesse dia visaram alvos a mais de 30 km da fronteira da Polónia. As explicações russas foram desvalorizadas.

Durante umas quantas horas, o mundo ficou suspenso, sem saber como iriam reagir os EUA e a Nato, se estaríamos à beira de uma escalada mortífera da guerra, se o campo de batalha se iria estender pela Europa ou até pelo mundo. A marcação de reuniões de emergência e a invocação da defesa mútua prevista no Tratado do Atlântico Norte apontavam para o pior.

Apuramento dos factos: O míssil, afinal, era ucraniano e fora disparado pelas defesas anti-aéreas ucranianas. Os EUA tinham detectado a trajectória do engenho através dos sistemas de controlo aéreo, não dando grande crédito à histeria ucraniana.

Para limitar os estragos e contentar Zelensky, os EUA não viram melhor argumento do que dizer que a Rússia é “culpada em última análise” por ter desencadeado a barragem de mísseis do dia 15, obrigando a Ucrânia a defender-se e a causar o “trágico incidente”. O solícito Stoltenberg repetiu ipsis verbis a mesma patacoada em nome da Nato. Lindo!

Os polacos, por seu lado, confirmaram que se tratava de um míssil do arsenal ucraniano e lamentaram a coisa como um “incidente infeliz”.

Dois outros “incidentes infelizes” tinham ocorrido já, por culpa dos ucranianos. Em março, um drone de nove toneladas, descontrolado, sobrevoou a Roménia e a Hungria e espatifou-se na Croácia, perto de Zagreb. Em outubro, estilhaços de um míssil atingiram a Moldávia. Como não houve vítimas nem grandes estragos, ninguém se importou com o sucedido, embora ambos os casos fossem sinal de descontrolo das operações militares ucranianas. Zelensky não se deu por achado, nem teve de se penitenciar.

Agora, a postura de Zelensky foi diferente. Sem esperar por mais apuramentos, cavalgou a onda procurando mostrar que “o terror russo” não se limita à Ucrânia, na tentativa de mostrar à Europa que também ela estaria a ser alvo da mesma agressão. E achou a ocasião propícia para voltar a insistir na velha ideia de criar uma zona de exclusão aérea na Ucrânia, a fim de envolver a Nato.

Com a mesma leviandade com que, em 2021, ameaçou adquirir armas nucleares, não se importa agora que os seus apelos descabelados possam desencadear um cataclismo de dimensões imprevisíveis.

Mesmo depois dos desmentidos dos EUA e da Polónia, e de a Alemanha ter posto de lado a criação de uma zona de exclusão aérea, Zelensky continua a negar as evidências e a acusar a Rússia, sempre no propósito de arrastar a Nato para o conflito directo.

A porta-voz do ministério russo dos Negócios Estrangeiros ironizou com a teimosia de Zelensky alertando-o para o facto de que a sua tarefa é “fazer o trabalho sujo, e não dizer aos seus patrões o que eles devem fazer”.

É este indivíduo que norte-americanos e europeus mantêm à frente de um país em guerra, fazendo dele o gestor (e beneficiário) de milhares de milhões de euros e de dólares de “auxílio”, num conflito interminável. É um personagem deste estofo que é incensado como defensor das liberdades e da democracia do mundo ocidental, apesar de ter banido toda a oposição. É a este capataz palavroso que os meios de informação dão via aberta para a sua propaganda guerreira, várias horas todos os dias.

A “provocação” prontamente atribuída à Rússia (não se percebe com que lógica), foi afinal uma provocação ucraniana, na medida em que Zelensky quis aproveitar o incidente para atribuir culpas a quem não as tinha, no propósito explícito de internacionalizar o conflito alargando o campo de batalha ao resto da Europa.

Esta monstruosidade, não obstante, teve eco na postura dos canais televisivos. Na tarde do dia do incidente, o clima ia no sentido de dar crédito ao presidente ucraniano. Na CNN-Portugal o lamentável major-general Isidro Morais Pereira, sem quaisquer provas a não ser a palavra de Zelensky, disse que, “de acordo com a sua experiência” (!?), se “inclinava” (!) para um ataque russo, desvalorizando o desmentido do Kremlin como mais uma “habitual mentira” por parte dos russos. Na SIC, o boçal José Milhazes alinhou pela mesma tese, evidentemente.

Os propagandistas da guerra — prestáveis porta-vozes da Nato e da embaixada norte-americana — enganaram-se desta vez. O automatismo levou-os atrás de Zelensky. Só que, na pressa, Zelensky deve ter falado sem esperar pelo papel que os conselheiros-aliados lhe dão a ler. Quis correr por conta própria e saiu da pista, levando atrás os habituais e incautos adeptos.

Mais de 24 horas passadas sobre os factos, já depois de serem conhecidos os desmentidos dos EUA e dos polacos, ainda um “professor de relações internacionais” e “especialistas em segurança” pregavam na CNN-Portugal acerca das “razões” que Zelensky poderia ter tido para lançar as atoardas que lançou e sobre a viabilidade “não descartável” da “pista russa”.

Como vão os Pereiras, os Milhazes, os “professores de relações internacionais”, os “especialistas em segurança” e os canais que os albergam desfazer a figura que fizeram, perante a desautorização vinda do amigo americano? — Sim, porque aos factos eles não ligam.

Este desfasamento de Zelensky em relação às cautelas reveladas pelos seus próprios patronos ocidentais (a “des-sintonia verificada nas últimas semanas”, como assinalava um desses comentadores) não pode deixar de o desacreditar como político.

Isolado, no caso, perante os aliados, fica à vista a sua condição de mandatário irreflectido e irresponsável, que, quando fala por si, revela não se importar de envolver o resto da Europa e o mundo num conflito destruidor.

Inevitavelmente, o episódio do míssil de Przewodów não pode deixar de contribuir para o descrédito das posições extremistas da claque do “vamos-à-guerra”, dentro e fora da Ucrânia.

 

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