A Guerra na Ucrânia — Nazismo e fascismo.  Por Carlos Matos Gomes

Seleção de Francisco Tavares

6 min de leitura

Nazismo e fascismo

 Por Carlos Matos Gomes

Publicado em 8 de Dezembro de 2022 (original aqui)

 

 

O que estamos a comprar na Ucrânia?

Escrevi há dias um texto sobre a proposta da “ministra da cultura” do regime de Zelenski, na Ucrânia a partir de uma notícia do jornal inglês «The Guardian». Os jornais ingleses têm (ou tinham) por costume ilustrar as notícias em que referiam uma dada personagem com uma imagem dessa pessoa — tradições democráticas de responsabilização e de os cidadãos terem o direito de reconhecer os autores das decisões. No caso, a notícia de que o governo de Kiev propunha a proibição das obras musicais de Tchaikovski, era ilustrada por uma figura feminina junto a uma orquestra. Presumi que fosse a ministra. Não era. Como não pretendia referir-me a uma pessoa concreta, mas a um representante de uma ideologia, nem sequer me interessei pelo nome do dito funcionário. Era, é, um homem o ministro da cultura do governo encabeçado por Zelenski que propõe o silenciamento das obras de um artista, de um músico, apenas por ser russo.

Para o caso interessava-me e interessa-me a atitude do ministro da cultura daquele estado que é a Ucrânia sob a presidência de Zelenski e a ideologia, o conjunto de ideias, convicções e princípios filosóficos, sociais, políticos que caracterizam um grupo, neste caso o que está no poder em Kiev.

Propostas deste tipo de silenciamento de artistas e das suas obras por diversas formas, neste caso a título póstumo, noutros condenando à morte, noutros ainda matando as obras em fogueiras são recorrentes ao longo da História e são um revelador das características do nazismo, a ideologia que causou diretamente a Segunda Guerra Mundial, o mais sangrento conflito da humanidade e que surge muitas vezes associada ao fascismo como resposta às transformações políticas e sociais resultantes da revolução industrial e do colonialismo. Mas nazismo e fascismo são regimes de natureza muito distinta. Basicamente, o nazismo propõe a desumanização do outro, é racista; o fascismo propõe a sujeição do indivíduo ao Estado, é nacionalista.

A proposta de proibição da obra de um criador cultural, um russo do século XIX, curiosamente bisneto de um cossaco ucraniano, como foi Tchaikovski, permite distinguir o nazismo do fascismo. A proposta do ministro de Zelenski (um ator!) é típica do nazismo. E é de nazismo que se trata quando se quer entender o atual regime de Kiev. As palavras são importantes. O Nationalsozialistische, nacional-socialismo, remete para a Volksgemeinshachaft — a comunidade de alemães puros, um conceito que pode ser hoje estendido para definir um grupo pela sua raça ou identidade cultural (verdadeira ou artificial). O nazismo carateriza-se por se opor à busca de acordo entre seres humanos (pessoas) com opiniões distintas e defender o combate natural do homem com seu inimigo — olhar para o outro como o inimigo a ser aniquilado pertenceria à natureza da espécie humana. O nazismo criou câmaras de gás para eliminar o outro, considerando-o um lixo, o fascismo não o fez.

Do ponto de vista político, o nazismo é de natureza tribal, “o seu povo” está rodeado por “um mundo de inimigos”, “um contra todos”, e age assumindo que existe uma diferença fundamental entre esse povo e todos os outros, o seu povo é não só superior aos outros, como representa a raça pura. Afirma que o povo é único, incompatível com todos os outros, e nega teoricamente a própria possibilidade de uma humanidade comum, daí a ideologia assentar na rejeição da cultura dos outros, do desprezo pelos outros. É esta rejeição da pertença a uma humanidade e da aceitação da cultura dos outros que a proposta do atual ministro da cultura da Ucrânia reflete. Estamos no núcleo do pensamento nazi e do racismo que o distingue do fascismo.

Até ao nível simbólico o regime ucraniano se assume herdeiro do nazismo, a cruz gamada, do nazismo, negra num disco banco e num fundo vermelho é a inspiradora do tridente cinzento sobre um fundo vermelho e negro do Exército Rebelde Ucraniano do nazi Stepan Bandera e que está na origem dos atuais símbolos da Ucrânia, o tridente dourado sobre fundo azul, a cruz suástica e o tridente remetem para a pureza da raça e o seu ardor combativo. Pelo seu lado, o símbolo do fascismo é o «fasces» e remete para a história de Roma, para o poder do Estado, o machado era o símbolo do oficial d romano que tinha autoridade para executar sentenças — o litor.

A distinção entre nazismo e fascismo foi orgulhosamente assumida pelos nazis. Himmler, o chefe das SS, expressou essa opinião num discurso pronunciado em 1943 numa Conferência de Oficiais: “O fascismo e o nacional-socialismo são fundamentalmente diferentes, (…) não há absolutamente nenhuma comparação entre eles como movimentos espirituais e ideológicos”. O fascismo era nacionalista, o nazismo era racista, e é esta distinção que explica a necessidade do nazismo aniquilar a cultura dos outros.

O atual regime ucraniano, que tem Zelenski como figura visível, assenta em dois pilares: os oligarcas que enriqueceram tal como os seus pares russos com as privatizações de bens públicos após o fim da União Soviética e a transformação do capitalismo de Estado em neoliberalismo “para amigos e sócios” — que, quanto aos oligarcas ucranianos, se designa por “Batalhão do Mónaco “— por comparação com o Batalhão Azov constituído por milícias nazis nacionais e internacionais.

O regime ucraniano articula-se do mesmo modo do regime nazi: uma elite milionária detentora das grandes empresas alemãs, caso de Gustav Krupp, (do atual grupo Krupp-Maffei) de aço e armamentos, que foi chamado, com outros industriais da Alemanha, para uma reunião com o Partido Nazi e a quem Hitler anunciou os planos de investir pesadamente nas Forças Armadas alemãs. A Siemens também apoiou Hitler, operou um subcampo em Auschwitz e outro em Ravensbrück, de onde retirou milhares de trabalhadores para produzir equipamentos de comunicações. A BMW, a Mercedes, a VW… A esta elite que no caso ucraniano se diverte no Mónaco e que voltará à Ucrânia no final da guerra qualquer que seja o seu desfecho para os negócios da reconstrução, junta-se o Batalhão Azov, a milícia que corresponde às SS de Himmler e que realiza os trabalhos sujos da guerra, porque os limpos, de alta tecnologia, são executados por técnicos ocidentais.

Tal como na Alemanha nazi, um génio da comunicação como Goebbels foi trabalha na propaganda centrada no líder. No caso da Ucrânia e de Zelenski trata-se do jornalista Dmytro Lytvyn, que era analista político do Servant of the People, partido político de Zelensky, e que segue o princípio de Goebbels de explorar as emoções geradas por palavras e frases fortes.

O regime que os europeus estão a apoiar na Ucrânia tem uma matriz nazi, e essa é uma herança assumida ao erigir Stepan Bandera herói nacional. Stepan Bandera foi um ultranacionalista ucraniano, líder da Organização dos Nacionalistas Ucranianos e do seu braço armado, o Exército Rebelde Ucraniano (UPA), mas fora da Ucrânia e do regime de Zelenski, sobretudo na Polónia, é acusado de colaborador dos nazis, antissemita e criminoso de guerra, sendo apontado como o principal responsável pelo massacre de civis polacos na Volínia, em 1943, numa operação com características de limpeza étnica. É também considerado corresponsável pelo Holocausto na Ucrânia, que vitimou mais de um milhão de judeus soviéticos. Mas o esquecimento faz parte da reescrita da história segundo as conveniências. Agora também é um herói europeu, um dos nossos!

O regime que a alemã Ursula Van Der Leyen, presidente da Comissão Europeia, afirmou ser o de todos os europeus é bem conhecido dela até por motivos familiares, mas não é o de todos os europeus, e não é sequer equiparável ao fascismo italiano, e, menos ainda ao salazarismo, uma ditadura de partido único, na definição de Hanna Arendt. E a diferença radical assenta no racismo inerente ao nazismo, que o ministro da cultura de Zelenski expôs e que constituiu também o nó ideológico de Stepan Bandera, o herói do regime da Ucrânia.

Por fim, antecipando a vulgata de argumentos contra quem não acredita na transformação de lacraus em bichos-da-seda: Afirmar que os outros — os russos neste caso — são tão “maus” ou piores e apresentar argumentos morais para apoiar o regime de Zelenski não altera o ponto central da questão: estamos (os europeus da UE) a pagar e a comprar um produto com determinadas caraterísticas e convém não julgar que é um néctar quando é uma zurrapa.

Mais, a União Europeia deixou que a colocassem num campo de minas. As minas colocadas pelos nossos aliados matam da mesma maneira do que as colocadas pelos nossos adversários. Os dirigentes da UE, a senhora Van Der Leyen e os seus pajens Borrel e Michel conhecem o caminho das pedras para sairmos desta armadilha? Oferecem-se para ir à frente a guiar-nos como rebenta minas? Joe Biden virá ajudá-los a sair da ratoeira onde nos meteram?

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O autor: Carlos Matos Gomes [1946-] é coronel reformado do exército, cumpriu três missões na Guerra colonial em Angola, Moçambique e Guiné, nas tropas especiais dos “Comandos”. Ficou ferido em combate e foi condecorado com as Medalhas de Cruz de Guerra de 1.ª e 2.ª Classe.

Capital de Abril pertenceu à Comissão Coordenadora do Movimento dos Capitães na Guiné.

Investigador de história contemporânea de Portugal. É escritor com o pseudónimo Carlos Vale Ferraz. Autor de: Nó Cego (1982), Os Lobos não Usam Coleira (1995), Soldadó (1996), Flamingos Dourados (2004), Fala-me de África (2007), Basta-me Viver (2010), A Mulher do Legionário (2013), A Estrada dos Silêncios (2015), A Última Viúva de África (2017, Prémio Fernando Namora 2018), Que fazer contigo, pá? (2019), Angoche-Os fantasmas do Império (2021). Em co-autoria com Aniceto Afonso: Guerra Colonial (2000), Guerra Colonial – Um Repóter em Angola (2001), Portugal e a Grande Guerra 1914-1918 (2013), Os Anos da Guerra Colonial 1961-1975 (2010), Alcora. O Acordo Secreto do Colonialismo. Portugal, África do Sul e Rodésia na última fase da guerra colonial (2013), Portugal e a Grande Guerra 1914 – 1915. Uma História Diferente (2014), Portugal e a Grande Guerra 1914 – 1915. As Trincheiras (2014), Portugal e a Grande Guerra 1917 – 1918. Uma Guerra Mundial (2014), Portugal e a Grande Guerra 1919-. O Pós-Guerra (2014), Portugal e a Grande Guerra 1918 – 1919. O fim da Guerra (2014), Portugal e a Grande Guerra 1914- O Início da Guerra (2014), A Conquista das Almas. Cartazes e panfletos da acção psicológica na guerra colonial (2016).

 

 

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