Espuma dos dias — A Alemanha está em recessão – e isso é extremamente perigoso! Por Heiner Flassbeck

Seleção e tradução de Francisco Tavares

10 min de leitura

A Alemanha está em recessão – e isso é extremamente perigoso!

 Por Heiner Flassbeck

Publicado por  em 9 de Dezembro de 2022 (original aqui)

 

No passado, ainda existiam recessões na economia. Estas eram fases de contracção do produto interno bruto (PIB) que duravam dois, três trimestres ou um ano inteiro. O resultado era praticamente sempre o aumento do desemprego e uma diminuição dos rendimentos. E a política monetária tinha sempre de baixar as taxas de juro e o Estado tinha de intervir aumentando a sua própria despesa (financiada pela dívida) se quisesse evitar o pior, nomeadamente um colapso total.

Para tentar fazer desaparecer o horror deste fenómeno, foi inventado há muito tempo a “recessão técnica”. Se o PIB cai por dois trimestres consecutivos, chama-se a isto uma recessão técnica. Mas como não importa se o PIB cai duas vezes em 0,1% ou duas vezes em 5%, esta categorização não diz absolutamente nada. O que importa sempre é se existem forças que contrariem uma queda quando esta está em curso e previnam uma crise muito grave.

Existem rumores de que alguma forma de recessão está actualmente eminente na Alemanha, mas os optimistas profissionais dos meios de comunicação social e da economia alemã inventaram rapidamente uma forma totalmente nova de recessão, a “recessão de inverno” ou mesmo a “recessão de inverno suave”. O Inverno parece pretender sugerir que estamos a lidar com um fenómeno sazonal que desaparece por sua própria iniciativa assim que o sol brilhar novamente. A recessão invernal também soa como se fosse o frio desagradável do Inverno que nos traz uma recessão e não uma política económica que perdeu completamente o seu norte.

É claro que a “recessão de inverno” inclui uma interpretação positiva de todos os indicadores. Os sinais, como se ouve em todo o lado, continuam a apontar para surpresas positivas para a Alemanha, mesmo que algumas coisas estejam a apontar para baixo. Mas os augúrios estão errados. Todos os sinais estão a apontar para uma recessão e, o que as pessoas prefeririam deixar passar completamente despercebido no meio de toda a conversa sobre a “escassez de trabalhadores qualificados”, estão também a apontar para o aumento do desemprego.

Como já sabemos que a política monetária na Europa está a exacerbar a crise em vez de a combater, esta recessão, ainda mais do que a maioria das que a precederam, tem o potencial de se transformar numa grave crise, cujas consequências se farão sentir durante muitos anos. Além disso, a ameaça de uma recessão imediatamente após o fim da grande quebra provocada pelo Covid torna a situação muito pior, porque não resolve os problemas já de longa data da Europa, mas volta a colocá-los em segundo plano.

Por todas estas razões, a minimização da recessão por parte dos optimistas profissionais é simplesmente irresponsável. Aqueles que convencem os decisores políticos económicos de que nem tudo é tão mau e que de alguma forma se resolverá por si próprio, estão a servir certas posições ideológicas (“o mercado ajuda-se a si próprio e não se precisa do Estado”), mas provavelmente estão a causar enormes danos.

 

Porque estamos todos mais pobres

Comecemos por onde tudo teve origem. Esta recessão, como disse há algum tempo atrás, é o resultado de uma redistribuição global, que por sua vez pode ser rastreada até aos choques nos mercados de combustíveis fósseis. Os consumidores dos países que compram e consomem combustíveis fósseis estão a ser solicitados a pagar em benefício daqueles que os vendem. Os rendimentos reais no nosso país (para os trabalhadores e para os empresários) estão a diminuir porque a factura do petróleo e do gás aumentou enormemente. Consequentemente, há menos rendimentos disponíveis para a compra de bens de consumo e de investimento produzidos por nós ou pelos nossos vizinhos europeus.

Isto pode ser visto directamente na Alemanha no excedente da conta corrente, que terá diminuído cerca de metade no final deste ano (Figura 1). Trata-se de uma soma da ordem dos 140 mil milhões (ou pouco menos de 4% do PIB nominal) que simplesmente desapareceu e já não está disponível para distribuição a nível interno.

Figura 1

Conta corrente e exportação líquida na Alemanha

 

Como existe este efeito negativo dos termos de troca (o efeito Termos de Troca resulta do facto de os preços de importação subirem muito mais do que os preços de exportação alemães), as partes negociadoras não podem simplesmente fingir nas suas negociações que os aumentos de preços medidos internamente beneficiam plenamente as empresas alemãs.

Aqueles que chegam à conclusão de que os salários devem aumentar fortemente tendo em conta os actuais aumentos de preços de acordo com a fórmula “taxa de inflação actual mais crescimento da produtividade” a fim de assegurar a procura estão totalmente errados (o Financial Times também não conseguiu compreender o significado das perdas de Termos de Troca para a evolução salarial). O efeito Termos de Troca actua como uma redução na produtividade e deve ser contabilizado em conformidade com um desconto.

Os aumentos salariais baseados na actual taxa de inflação e na tendência da produtividade sem considerar as pressões externas conduziriam sem dúvida a novos e permanentes aumentos de preços. Estes, por sua vez, seriam tomados pela política monetária como razão para uma restrição ainda maior através do aumento das taxas de juro e isto resultaria – mais uma vez sem qualquer dúvida – num desemprego ainda mais elevado. Contudo, deve dizer-se que os grandes acordos alcançados na Alemanha nos sectores químico e metalúrgico há algumas semanas foram um bom compromisso entre aumentos salariais permanentes para os próximos dois anos e pagamentos únicos.

 

O que dizem os indicadores?

No caso da produção industrial e da construção, a tendência descendente que tem sido observada desde o início de 2021 continuou em Outubro (Figura 2). A produção já tinha tido uma tendência decrescente desde o início de 2018. Após a quebra na Primavera de 2020, a produção recuperou, mas faltou um impulso positivo.

Figura 2

Produção no setor industrial

Fonte: Instituto Federal de Estatística

 

As novas encomendas na indústria e na construção, que apontam um pouco mais à frente do que a produção, estão também claramente numa tendência descendente. O ano passado houve aqui uma breve retoma, durante a qual as enormes perdas durante o choque do Covid foram parcialmente compensadas. Desde o início deste ano, no entanto, as coisas desceram claramente (Figura 3). A procura interna de bens de capital é particularmente fraca. Aqui, o valor em Outubro é dez por cento inferior ao nível do início do ano. Apenas um lembrete: os institutos, o Conselho de Peritos Económicos e o governo estão a contar com um aumento do investimento no próximo ano (como mostrado aqui).

 

Figura 3 (imagem original do Instituto Alemão de Estatística)

 

As coisas estão muito piores na indústria da construção, que já se encontra no meio de uma grave recessão. A procura diminuiu num total de 30% na construção de edifícios desde o início do ano. Na construção de habitações, a procura caiu 40% depois de ter atingido um pico em Março, apesar de haver uma queixa geral sobre a falta de centenas de milhares de casas acessíveis. No entanto, ainda há supostamente observadores “especialistas” que acreditam que as subidas das taxas de juro em geral, e especialmente as mais pequenas como este ano, não têm qualquer efeito negativo sobre a actividade de investimento.

Este quadro é também confirmado pela avaliação da situação actual no inquérito mensal do Instituto IFO. Isto continuou a cair em Novembro em toda a economia como um todo, tal como tinha acontecido durante vários meses antes. No entanto, os meios de comunicação social têm vindo a agarrar-se ao valor global do índice ifo porque este voltou a subir ligeiramente nos últimos tempos. Porque as expectativas das empresas para os próximos seis meses melhoraram o que é uma má interpretação. Estas expectativas estão a um nível extremamente baixo (quase tão baixo como no ponto mais baixo do Covid), onde as flutuações na escala de Novembro não têm qualquer significado para o desenvolvimento actual. A avaliação da situação em Novembro foi pior do que antes da crise do Covid.

As consequências da perda do poder de compra dos trabalhadores podem ser vistas directamente nas vendas a retalho. As vendas a retalho caíram em Outubro e têm vindo a diminuir desde o primeiro trimestre em comparação com os trimestres anteriores. O efeito positivo esperado por muitos de um declínio na taxa de poupança das famílias, que tinha aumentado acentuadamente durante o choque do Covid, está obviamente a ser eclipsado pela perda de rendimento, de modo que, em geral, a maioria das famílias reduziu o seu consumo no decurso deste ano.

Finalmente, o desemprego aumentou acentuadamente nos últimos três meses e o número de postos de trabalho vagos diminuiu significativamente. O subemprego (desempregados mais os empregados em medidas especiais pela Agência Federal) aumentou (ajustado sazonalmente) em média em mais de 30.000 pessoas por mês durante os últimos quatro meses. O número de vagas registadas diminuiu significativamente mês a mês durante este período – 7.000 em Novembro e 17.000 em Outubro.

 

Será que a política económica está a prestar apoio?

Numa constelação onde a procura privada na Europa está inevitavelmente a diminuir devido a efeitos temporários do preço e dos termos de troca, a política do BCE é, só posso repetir-me (aqui descrita pela última vez), totalmente inadequada. O quão inapropriada é acaba de ser demonstrado de forma impressionante pelo economista-chefe do BCE (que, a propósito, foi uma voz da razão durante muito tempo, mas depois caiu completamente). Não devemos esperar que a política monetária tenha um efeito imediato nas condições de financiamento, disse ele num evento recente. No entanto, a política monetária tem o efeito de apertar suficientemente as condições de financiamento ao longo do tempo, amortecendo a procura e enfraquecendo as pressões sobre os preços.

Esta afirmação só faz sentido se se acreditar que a pressão sobre os preços tem algo a ver com a procura, ou seja, com “procura demasiado forte”. No entanto, se se espera que a procura seja enfraquecida pela política monetária a fim de amortecer a pressão sobre os preços, está-se actualmente no caminho completamente errado. A pressão de preços não tem nada, absolutamente nada a ver com a procura, mas apenas com os choques mencionados no início. Estes choques amortecem a procura por si só, pelo que não há necessidade de amortecimento adicional por parte do BCE. Como é que o BCE sabe que apenas o seu amortecimento adicional irá empurrar a procura para baixo o suficiente para reduzir as pressões sobre os preços?

Porque o BCE está a fazer exactamente a coisa errada, a tarefa do Estado é ainda mais difícil. Se quer evitar um colapso profundo da economia, deve não só preencher a lacuna que resulta da menor procura interna e que se reflecte no menor excedente da balança de transacções correntes, mas também a que é adicionalmente criada pelo BCE através da redução da actividade de investimento. Isto é quase impossível. Mas uma política virada para o futuro tentaria evitar uma quebra grave através de uma política anti-cíclica pronunciada. No entanto, não se pode falar disto num governo que está a pressionar para o cumprimento do travão da dívida até ao fim. No topo deste governo, há simplesmente uma falta dos conhecimentos necessários para prosseguir uma política macroeconómica apropriada. Infelizmente, não há nem conselheiros oficiais nem não oficiais para ajudarem.

____________

O autor: Heiner Flassbeck [1950 – ], economista alemão (1976 pela Universidade de Saarland), foi assistente do Professor Wolfgang Stützel em questões monetárias. Doutorado em Economia pela Universidade Livre de Berlim em julho de 1987, tendo por tese Prices, Interest and Currency Rate. On Theory of Open Economy at flexible Exchange Rates (Preise, Zins und Wechselkurs. Zur Theorie der offenen Volkswirtschaft bei flexiblen Wechselkursen). Em 2005 foi nomeado professor honorário na Universidade de Hamburgo.

A sua carreira profissional teve início no Conselho Alemão de Peritos Económicos, em Wiesbaden, entre 1976 e 1980; esteve no Ministério Federal de Economia em Bona até janeiro de 1986; entre 1988 e 1998 esteve no Instituto Alemão de Investigação Económica (DIW) em Berlim, onde trabalhou sobre mercado de trabalho e análise de ciclo de negócio e conceitos de política económica, tendo sido chefe de departamento.

Foi secretário de estado (vice-ministro) do Ministério Federal de Finanças de outubro de 1998 a abril de 1999 sendo Ministro das Finanças Oskar Lafontaine (primeiro governo Schröeder), e era responsável pelos assuntos internacionais, a UE e o FMI.

Trabalhou na UNCTAD- Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento desde 2000, onde foi Diretor da Divisão de Globalização e Estratégias de Desenvolvimento de 2003 a dezembro de 2012. Coordenador principal da equipa que preparou o relatório da UNCTAD sobre Comércio e Desenvolvimento. Desde janeiro de 2013 é Diretor de Flassbeck-Economics, uma consultora de assuntos de macroeconomia mundial. Colaborador de Makroskop.

Autor de numerosas obras e publicações, é co-autor do manifesto mundial sobre política económica ACT NOW! publicado em 2013 na Alemanha, e são conhecidas as suas posições sobre a crise da eurozona e as suas avaliações críticas sobre as políticas prosseguidas pela UE/Troika, nomeadamente defendendo que o fraco crescimento e o desemprego massivo não são resultado do progresso tecnológico, da globalização ou de elevados salários, mas sim da falta de uma política dirigida à procura (vd. The End of Mass Unemployment, 2007, em co-autoria com Frederike Spiecker).

 

 

Leave a Reply