A Guerra na Ucrânia — Pagar e apoiar um regime nazi. Por Carlos Matos Gomes

Seleção de Francisco Tavares

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Pagar e apoiar um regime nazi

 Por Carlos Matos Gomes

Publicado em 7 de Dezembro de 2022 (original aqui)

 

A proposta de proibição das obras de Tchaikovski feita pela ministra do governo de Zelenski é — sem meias palavras — uma proposta que recupera o essencial da ideologia nazi.

 

O nazismo não é uma ideologia que tenha surgido na Alemanha no início do século XX a partir de um vazio histórico e para responder a uma situação política e social concreta: o perigo do comunismo, que assustava as classes altas, a inflação e o desemprego resultantes das compensações impostas à Alemanha na sequência da derrota na Grande Guerra [1].

O nazismo tem profundas raízes na história dos povos de origem germânica e eslava. Julgo difícil abordar o nazismo sem conhecer o conceito de Bildung, considerando os diferentes usos e interpretações ao longo do tempo desde as origens na baixa Idade Média até hoje. O desenvolvimento do ideal de Bildung no Leste da Europa (e na Alemanha em particular) é marcado pela tensão entre a sua função de integração social e política utilizando a ideia de superioridade de uma cultura (a sua) e a de esta servir simultaneamente de instrumento de distinção social e política relativamente aos outros, os inferiores [2].

Sem grandes desenvolvimentos teóricos, o conceito de Bildung está na raiz do nacionalismo alemão e eslavo que faz com que o nazismo tenha tido tão bom acolhimento entre os eslavos, nomeadamente os ucranianos.

O que a ministra da cultura do regime de Kiev está a transmitir com a proposta de silenciar Tchaikovski (embora com o hipócrita e conveniente acrescento de que seria apenas durante a guerra) é que os ucranianos de Zelenski (e todos os que os apoiam) não podem admitir que os russos produzam cultura e génios culturais. A seguir a Tchaikovski e seguindo a ideologia da ministra da cultura de Zelenski, seriam silenciados Prokofiev e Rachmaninov, seriam proibidos os livros de Dostoievski, Tolstoi, Tchehkov ou Gogol, seriam proibidas as visitas ao Hermitage ou as idas ao Bolshoi.

Esta é a raiz do pensamento da ministra da cultura de Zelenski. A crença na superioridade como razão para combater o outro está no centro no conceito de Bildung desde a Idade Média com a ideia da imagem de Deus (Imago Dei) que penetra na alma de certos homens e povos, foi secularizada no século XVIII através da discussão sobre o papel da cultura na unidade de um grupo. Para Herder, o grande teórico secular do Bildung, a humanidade não é um estado no qual entramos ao nascer, mas uma tarefa a ser realizada por meio da disciplina e do esforço consciente de cada um daí a importância da ideologia e da cultura associada.

Uma lembrança: Logo após o presidente alemão von Hindenburg ter nomeado Hitler como chanceler, a 30 de janeiro de 1933, o aparelho nazi desenvolveu um plano para impor os seus preceitos e valores. «As revoluções nunca se limitaram à esfera puramente política», defenderia Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda, «Estendem-se a todas as áreas da existência social humana. A economia e a cultura, a academia e as artes, não estão ao abrigo do seu impacto».

Ainda em 1933 foi levada a cabo uma purga dos artistas judeus e de esquerda, aliás, de quase todos os artistas alemães com fama internacional. Hitler e Goebbels tinham as suas próprias conceções acerca da vida cultural e não iam permitir que um grupo de «charlatães» e «incompetentes» comprometessem os seus objetivos.

Na democrática opinião da ministra da cultura do regime de Zelenski, Tchaikovski cai nesta categoria mau exemplo para a sociedade que defende e que os europeus estão a pagar com língua de palmo: qualquer coisa como 300 mil milhões de europeus, mais coisa menos coisa para silenciar o compositor de O Quebra-Nozes e, já agora, a Marcha Eslava.

 

A notícia é do The Guardian — https://www.theguardian.com/commentisfree/2022/dec/07/ukraine-culture-minister-boycott-tchaikovsky-war-russia-kremlin

 


Notas

[1] Nota do editor: nome pelo qual também é conhecida a I Guerra Mundial.

[2] Nota do editor: Sobre o Bildung ver o interessante texto “A Tradição Alemã do Cultivo de si (Bildung) e sua Significação Histórica” de Alexandre Alves da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Brasil.


O autor: Carlos Matos Gomes [1946-] é coronel reformado do exército, cumpriu três missões na Guerra colonial em Angola, Moçambique e Guiné, nas tropas especiais dos “Comandos”. Ficou ferido em combate e foi condecorado com as Medalhas de Cruz de Guerra de 1.ª e 2.ª Classe.

Capital de Abril pertenceu à Comissão Coordenadora do Movimento dos Capitães na Guiné.

Investigador de história contemporânea de Portugal. É escritor com o pseudónimo Carlos Vale Ferraz. Autor de: Nó Cego (1982), Os Lobos não Usam Coleira (1995), Soldadó (1996), Flamingos Dourados (2004), Fala-me de África (2007), Basta-me Viver (2010), A Mulher do Legionário (2013), A Estrada dos Silêncios (2015), A Última Viúva de África (2017, Prémio Fernando Namora 2018), Que fazer contigo, pá? (2019), Angoche-Os fantasmas do Império (2021). Em co-autoria com Aniceto Afonso: Guerra Colonial (2000), Guerra Colonial – Um Repóter em Angola (2001), Portugal e a Grande Guerra 1914-1918 (2013), Os Anos da Guerra Colonial 1961-1975 (2010), Alcora. O Acordo Secreto do Colonialismo. Portugal, África do Sul e Rodésia na última fase da guerra colonial (2013), Portugal e a Grande Guerra 1914 – 1915. Uma História Diferente (2014), Portugal e a Grande Guerra 1914 – 1915. As Trincheiras (2014), Portugal e a Grande Guerra 1917 – 1918. Uma Guerra Mundial (2014), Portugal e a Grande Guerra 1919-. O Pós-Guerra (2014), Portugal e a Grande Guerra 1918 – 1919. O fim da Guerra (2014), Portugal e a Grande Guerra 1914- O Início da Guerra (2014), A Conquista das Almas. Cartazes e panfletos da acção psicológica na guerra colonial (2016).

 

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