A Espuma dos Dias — O Fim da Classificação das Universidades? Por Robert Kuttner

Seleção e tradução de Francisco Tavares

4 min de leitura

O Fim da Classificação das Universidades?

Talvez as faculdades de direito iniciem uma já tardia debandada.

 Por Robert Kuttner

Publicado por  em 5 de Dezembro de 2022 (original aqui)

 

As classificações da US News [1] sempre foram suspeitas e, além disso, corromperam as universidades americanas. Agora, várias grandes faculdades de direito iniciaram um boicote. Isto poderia acabar por fazer desmoronar o sistema de classificação se as escolas de licenciatura se seguissem. Esperemos que sim.

As classificações foram lançadas em 1983, quando a U.S. News and World Report, a mais fraca das três principais revistas de notícias, apresentou o esquema para aumentar a visibilidade e a rentabilidade. Surpreendentemente, as universidades cooperaram. O momento foi perfeito. As classificações tornaram-se simultaneamente um emblema e um motor da mercantilização do ensino superior americano.

Como inúmeros críticos assinalaram, as classificações utilizam indicadores arbitrários de qualidade, nomeadamente critérios inerentemente subjectivos e circulares como a reputação. Mas muito pior do que as classificações em si são as formas como as faculdades e universidades tentam manipulá-las.

Um objectivo fundamental é atrair candidatos com notas altas e médias gerais elevadas, o que por sua vez a faz subir na classificação do próximo ano. Uma classificação mais elevada atrai então mais candidatos e um rácio admissões/candidaturas mais baixo, o que a faz subir ainda mais na classificação, e depois atrai ainda mais candidatos, e assim por diante. As carreiras académicas sobem e descem, com base nas classificações.

Desde que as classificações se tornaram soberanas, as faculdades contrataram departamentos inteiros dedicados a manipulá-las. Um objectivo financeiro relacionado é obter o maior número possível de estudantes que pagam a matrícula completa combinados com os registos académicos mais elevados.

Aqui está um truque para atrair jovens rico(a)s com mau desempenho cujos pais podem pagar a matrícula completa: Uma vez que as notas e os resultados são tidos em conta nas classificações dos estudantes admitidos no Outono, mas não na Primavera, algumas universidades conceberam o truque de criar programas no estrangeiro para esconder os caloiros durante o semestre do Outono, e depois trazê-los para o campus de origem no semestre da Primavera, quando os seus registos escolares medíocres do secundário não influenciam as classificações.

Desta forma, as faculdades podem admitir mais jovens com notas mais baixas cujos pais não precisam de ajuda financeira. Isto é anunciado como uma espécie de enriquecimento pré-universitário – um semestre sabático. Talvez funcione dessa forma para alguns estudantes; no entanto, a sua concepção não foi principalmente pedagógica, mas sim destinada a manipular as classificações.

As bolsas de estudo de mérito têm uma longa história. Mas algumas faculdades usam agora a “ajuda de mérito” como uma bolsa de estudo de prestígio simbólica para atrair estudantes com pontuações elevadas cujos pais não precisam realmente da ajuda e podem pagar a maior parte do custo total. Isto é feito em prejuízo de uma ajuda financeira mais profunda e baseada nas necessidades. Todas estas manipulações ajudam a explicar porque é que os estudantes com fracos desempenhos têm maior probabilidade de frequentar universidades de alto nível do que jovens de famílias pobres com altos desempenhos.

Estes padrões de classe social e de ensino superior estão profundamente enraizados na desigualdade intergeracional da vida americana. A ironia é que as universidades afirmam ser vias de mobilidade ascendente. A maioria das coisas que poderiam fazer para mudar esses padrões são difíceis. Boicotar as classificações da U.S. News deveria ser relativamente fácil.

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Nota

[1] N.T. A U.S. News & World Report é uma empresa americana de comunicação social que publica notícias, conselhos ao consumidor, rankings e análises. Foi lançada em 1948 como a fusão do jornal semanal U.S. News e da revista semanal World Report, centrada no mercado interno. Em 1995, a empresa lançou o ‘usnews.com’ e em 2010, a revista deixou de ser impressa. As classificações que faz das faculdades e universidades americanas são populares entre o público em geral e influenciam as tendências em matéria de candidaturas. (ver wikipedia aqui)

 


O autor: Robert Kuttner (1943-) é um jornalista americano e escritor cujos livros apresentam pontos de vista liberal/progressistas. É co-fundador e co-editor do The American Prospect criado em 1990 e professor na Brandeis University’s Heller School. Durante 20 anos foi colunista no Business Week e no The Boston Globe. Atualmente continua a escrever no Huffington Post. É também um dos cinco fundadores do Economic Policy Institute em 1986, integrando presentemente o seu comité executivo. Entre 2007 e 2014, Kuttner aderiu ao centro liberal de investigação e política Demos como ilustree membro senior. O seu último livro é Can democracy Survive Global Capitalism?

 

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