CARTA DE BRAGA – Agora, que aqui cheguei! por António Oliveira

Agora, mesmo agora, pois disse Stephen King, ‘De um estranho podes afastar-te, mas de ti mesmo é impossível’, até para juntar ao ciclo da vida aquele que agora já tenho tempo para o revisitar sempre que posso e quero e me permite entender melhor as fraquezas e as oportunidades com que me confrontei ao longo dos anos, e a reconhecer como as práticas desse viver, tiveram efeitos que agora também já sinto, porque ‘cada tempo arrasta a colheita do tempo anterior’.

Queremos sempre ser felizes, afastar o sofrimento e a dor para bem longe, desde a meninice até aqui chegar e, como dizia Álvaro de Campos e eu repito muitas vezes, ‘No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu era feliz e ninguém estava morto’, mas não podemos esquecer, que todos foram fundamentais para marcar as diferentes etapas da nossa existência e do nosso desenvolvimento, por também terem servido para definir o nosso comportamento em relação ao que nos rodeia.

Nasceu assim e com eles, a minha capacidade de criar vínculos, humanos e espirituais, sabendo também que não poderá haver qualquer certeza de ter podido construir uma vida melhor, ou ser mais feliz do que, como agora, estou a enfrentar e a olhar o mundo.

Só falo assim, porque aqui, neste lugar entre as estrelas, já vivi algumas e boas dezenas de anos, bem como por neste momento também me confrontar com os perversos interesses de uma economia que nos olha a mim e outros como eu, como viventes com um custo e um gasto sem sentido, cortando nas reformas e outros rendimentos que contratámos há anos, por termos fé numa máquina gerida por gente igual a nós, mas que parece ter esquecido que a idade também é património, uma riqueza cultural a exigir uma justiça solidária e ética, mais premente em tempos onde, mesmo agora, parece prevalecer a decadência da ética e da integridade.

Não há muitos dias, ouvi num programa da rádio que frequento quase em permanência, uma citação da poeta e escritora Sylvia Plath, ‘Só começamos a viver quando concebemos a vida como uma tragédia’, por até nos obrigar, a todos os que, agora, já chegaram até aqui, a perguntar-se, se vale a pena continuar a esforçarem-se, a fazer projectos para si ou para os seus, a procurar novos objectivos e outros espaços físicos ou espirituais.

Tragédia que todos também podemos confirmar, quando pudemos ver, mesmo durante a pandemia, as crises diversas que a acompanharam ou a sucederam, e ainda continuamos a ver, mesmo agora tanta velhice abandonada, posta de lado pela sociedade, que olha tanto para o umbigo como para o pequeno ecrã que leva nas mãos, mais preocupada com as apps do consumo e da inovação, que com as memórias e história que tem em volta.

Talvez venha a propósito uma afirmação a um jornal europeu, do poeta e cronista John William Wilkinson, ‘A história foge da verdade como da peste; dita-a quem a paga e, em muitos casos, com dinheiro público; e um amigo meu garantia a pés juntos, ‘Civismo é respeito pelo outro e há muito que deixámos de ser amáveis com elegarantindo ainda que tudo começa pela educação, para se conseguir viver livremente e ter também um pensar e um olhar livres.

Mais antiga e, se calhar, para agarrar e atirar, agora mesmo, à cara de quem a negar, esta afirmação de Gabriel Garcia Marquez, ‘O segredo de uma boa velhice não é outra coisa senão um pacto honrado com a solidão’!

Isto tudo, agora mesmo, só por até aqui ter chegado!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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