O espírito de Natal, da mensagem de Cristo, da humanidade quando vestida de fraternidade — Texto 6. A Grã-Bretanha está assombrada por fantasmas dickensianos. Por Darran Anderson

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

10 min de leitura

Texto 6. A Grã-Bretanha está assombrada por fantasmas dickensianos 

 Por Darran Anderson

Publicado por  em 24 de Dezembro de 2022 (original aqui)

 

O Natal é uma época para arrependimentos. Credit: Bridget Jones’s Diary/Universal Pictures

 

Nas franjas celtas da Europa, a ideia de “lugares muito estreitos ” persiste – lugares onde se afirma que a fronteira entre esta realidade e outras está na sua maior fragilidade, mesmo permeável. Originalmente, estes lugares eram vistos como portais para o Outro Mundo da antiga crença gaélica e para o reino das fadas, ou Sidhe, e outras entidades mitológicas. Reconhecendo o seu apelo e resiliência, a igreja absorveu estas histórias e superstições na fé; as montanhas, lagos e ilhas que tinham servido como lugares pagãos muito estreitos tornaram-se gradualmente locais de peregrinação, áreas onde a distância entre este mundo e a vida após a morte do cristão poderia estar no seu ponto mais ténue. Tal como há lugares estreitos, também existem os tempos estreitos – o período, por exemplo, no final de Outubro e início de Novembro, quando o Halloween, o Dia de Todos os Santos e o Dia de Todas as Almas se sucedem e em que, é o que se diz, os espíritos caminham na terra.

Mesmo na nossa era secular supostamente racionalista, encontramos um destes lugares ou tempos muito estreitos na improvável aparência do Natal e no seu rico repositório de histórias de fantasmas. O sobrenatural não foi banido pelos desenvolvimentos da modernidade, mas sim evoluiu e adaptou-se, passando de bosques encantados a casas góticas para as ruas e quartos das cidades vitorianas. Tal como em tempos anteriores, encontraram o seu lugar onde está escuro, na calada do Inverno, quando as noites se fecham e as histórias à lareira fazem a mente pregar partidas e a gerar sombras para aparentemente andarem a mudar as suas formas.

Entre os muitos escritores que tentaram escrever histórias natalícias de fantasmas, nenhum deles é maior do que Charles Dickens que, com Um Conto de Natal (com um subtítulo Sendo uma História de Fantasma do Natal), influenciou fundamentalmente a forma como percebemos e celebramos esta quadra festiva. Para compreender plenamente como e porquê o Natal se tornou um lugar muito estreito e assim permanece, temos de mergulhar num flagelo no próprio coração da história de Dickens e ainda da nossa sociedade – a solidão.

O Natal é uma daquelas alturas em que, como disse um escritor muito anterior, Dante: “Não há maior tristeza do que recordar na miséria o tempo em que éramos felizes”. E que época é mais feliz, ou mais melancólica quando irrecuperável, do que um Natal de infância? Os escritores vitorianos sabiam que quando estamos sozinhos no Natal, uma época que parece intrinsecamente destinada aos entes queridos que se reúnem (a perpétua renovação do presépio), são os nossos fantasmas, suportados pela memória, ausência e arrependimento que em vez disso nos chegam.

Dickens conhecia o poder do mito, e como a bela mentira poderia revelar a verdade escondida. Determinado a falar sobre os horrores do trabalho infantil e da pobreza que tinha vivido e testemunhado diretamente, Dickens começou por encarar escrever uma jeremiada política estridente mas longa, até que se deu conta, corretamente, de que havia uma abordagem muito mais sedutora disponível, através do Cavalo de Troia dos contadores de histórias. Era demasiado fácil afastar-se de uma palestra ou responder com chavões e falácias, mas um conto que mexe com o coração tinha a capacidade de ficar debaixo da pele. Os seus personagens e cenários foram construídos não só a partir de observações satíricas dos poderosos, mas também de encontros que Dickens tinha tido com as pessoas muito fragilizadas, durante as suas longas caminhadas noturnas por Londres. Também estava profundamente inspirado, e assombrado, por contos macabros que a sua ama Mary Weller costumava contar-lhe quando criança – cheia de pactos faustianos, de estalajadeiros traiçoeiros, venenos “destilados dos olhos dos sapos e dos joelhos das aranhas”, o Gato Preto e o Capitão Assassino. Para aumentar o mal-estar, Weller afirmaria que os horrores eram verdadeiros e que ela própria os tinha testemunhado ou que os tinha ouvido de familiares que eram testemunhas oculares. Como Dickens relatou mais tarde, em The Uncommercial Traveller, ela “tinha um gozo diabólico dos meus terrores, e costumava começar, lembro-me – como uma espécie de abertura introdutória – arranhando o ar com ambas as mãos e proferindo um longo e baixo gemido oco”.

Um Conto de Natal tem esta tradição oral, embora entregue de forma curta e acessível, em novela. Também reequilibra a pesada inclinação de Dickens para o sentimentalismo (a figura lamentável de Tiny Tim, por exemplo) com a tática resolutamente não sentimental de aterrorizar os leitores infantis. Isto era necessário por razões de veracidade – a existência era pouco sentimental naqueles dias – mas também como uma técnica de fazer mitos. Há poucas lições que permanecem connosco mais tempo e mais profundamente do que aquelas que atingem o medo mortal em nós e depois propõem uma saída.

No centro da história e do seu extraordinário legado está a solidão. Relendo Um Conto de Natal, o seu poder vem inicialmente do seu estatuto de trato social e de fábula. O que é crucial, contudo, é a sua qualidade existencial. Mostra que o sistema então em vigor, e talvez ainda agora, não só oprime e esbanja, como também aliena. Dickens toma o tema tradicional da visita no Natal (o anjo anunciador, a estrela errante que conduz à criança Cristo, os pastores, os Magos) e torna-o sinistro. A salvação só pode vir através do doloroso processo de enfrentar a verdade (“Sem as suas visitas”, disse o Fantasma, “não se pode esperar evitar o caminho que eu trilhar”). Só pode emergir de Scrooge quando este se der conta que traiu e marginalizou não só os seus semelhantes, mas também a si próprio, quando reconhecer que pertence à “população excedentária” malthusiana que ele castiga, quando se aperceber que  está só e despojado (“Não me falas?”, implora ele ao último fantasma)  e quando perceber que a única esperança preciosa que lhe resta é ser visto através da gratidão e comunhão abnegada com os outros.

Há muitas razões pelas quais Um Conto de Natal tem ainda tanto eco no século XXI, principalmente o cenário ao vivo da caracterização feita por Dickens, mas um fator ignorado é que, embora os tempos sejam muito diferentes, continuamos a estar sujeitos à sua maldição. Em 2017, a Comissão Interpartidária Jo Cox declarou que nove milhões de pessoas no Reino Unido foram atingidas pela solidão, com todo o tipo de questões de saúde e societais a emanar desta situação (depressão, obesidade, alcoolismo, consumo de drogas, etc.).

A solidão também pode ter um lado horrivelmente brutal na sua tragédia. Antes de ser assassinada por um recluso radicalizado, um homem que, segundo a polícia, “nunca teve um emprego, nunca teve uma namorada, nunca teve amigos com quem falar”, declarou Jo Cox: “Não viverei num país onde milhares de pessoas vivem sozinhas, esquecidas pelo resto de nós”. A realidade, no entanto, é que vivemos num mundo em que a condenação (e redenção) de Scrooge não é uma condenação pessoal, mas é também uma condenação social. Ele isola-se em parte porque não consegue lidar com as complicações éticas e as exigências emocionais do mundo. Torna-se impenetrável às intempéries e à interação humana. Seu é o extrato de conta da sua contabilidade. Ele sabe o custo de tudo e não sabe o valor de coisa nenhuma. O “Bah, uma farsa” torna-se um dispositivo para cortar com qualquer pensamento altruísta intrusivo ou de afirmação da vida.

A sua autodestruição atinge uma estranha forma de perfeição. Ele representa a criação de uma sociedade inteira que se tem movido, de forma dedicada e até piedosa, na direção totalmente errada e com grandes custos. No entanto, deve haver grandes lucro a serem alcançados com a manutenção de uma situação tão miserável. Uma das cenas mais arrepiantes de Um Conto de Natal, que eu tinha esquecido por completo até o reler, é quando Scrooge olha para Londres e encontra: “O ar estava cheio de fantasmas, vagueando para cá e para lá em agitação, e gemendo à medida que iam passando. Cada um deles usava correntes como o fantasma de Marley; uns poucos (podem ser os governos culpados) estavam ligados entre si; nenhum deles era livre”.

A história parece sempre nova porque, tal como o Natal, renova-se. E convida-nos a olhar novamente para o nosso tempo, como Dickens fez com o seu, e ver que Scrooge, embora miserável, é um produto do seu tempo. Quais são os fantasmas do nosso atual Natal? Bem, o principal entre eles continua a ser a solidão, que se junta às misérias invisíveis dos bancos alimentares, pobreza infantil, abuso doméstico, aquecimento e crises habitacionais. Um culto da juventude consumista e mediático encoraja-nos a tratar, arrogantemente, os velhos negligenciados como sendo redundantes. Simultaneamente, os jovens são traídos com a atomização que vem acompanhada por uma vida de ecrãs, cada vez mais desprovidos de família alargada, sujeitos a uma aversão ao risco a curto prazo e a ansiedades apocalípticas a longo prazo, tudo isto agravado pelo impacto ainda não quantificado do confinamento sobre o desenvolvimento infantil.

Os adultos dificilmente se saem muito melhor. Um inquérito YouGov de 2019 mostrou que 18% dos homens não tinham um amigo próximo, sendo que 32% não tinham ninguém que considerassem ser o melhor amigo. As mulheres tiveram melhores resultados, mas ainda assim o suficiente para serem preocupantes, com 12% e 24% respetivamente. Apesar, ou por causa da propensão de aplicações de encontros, há uma pletora de estudos que mostram que cada geração sucessiva de adultos está a ter menos sexo do que a última (em círculos heterossexuais, pelo menos). A urbanização também desempenhou um papel significativo neste aspeto como se mostra com o estudo ” “Lonely in a crowd – Solitário numa multidão…”, publicado no ano passado na Nature, descobrindo que “estar em ambientes sobrelotados aumentou a solidão em até 38%”. Embora seja importante reconhecer os benefícios da solidão voluntária e as qualidades subestimadas da introversão, o estudo estabelece o que poderia ser uma caracterização definitiva do problema: “Solidão, definida como o ‘sentido percebido de desconexão dos outros’, refere-se à experiência emocional subjetiva de não ter a necessidade social de relações adequadamente satisfeita”. Pode-se discutir se as necessidades em que a sociedade contemporânea se concentra são aquelas de que realmente precisamos.

Ao longo dos seus livros, Dickens voltou ao tema da solidão e muitas das suas passagens sentem-se prescientes. Em Uma História em Duas Cidades, ele observa “uma multidão de pessoas, e ainda assim uma solidão”! Em Grandes Esperanças, ele aborda uma cena que acompanha a nossa atual crise dos sem-abrigo: “Olhei para as estrelas, e considerei como seria horrível para um homem virar o rosto para elas quando está a congelar até à morte, e não vê ajuda ou pena em toda a multidão cintilante”. Tanta coisa mudou e, no entanto, tão pouco.

Temos mais formas do que nunca de comunicar, exceto as formas tangíveis que realmente nos importam. Podemos ter passado das velhas fogueiras à lareira e em ambientes pan-geracionais, dos banquetes e serviços de cântico de Natal, das missas da meia-noite e dos brindes da meia-noite, para a sofisticação de salas vazias cheias de nada mais do que fantasmas tecnológicos. Scrooge, o avarento, não parece uma figura contemporânea da nossa era de desregramento, mas isto seria uma leitura errada, pois é o solipsismo do seu ego que leva Scrooge até onde ele se definhava e se transcendia, sendo isto que o redime no final e o ajuda a encontrar o seu lugar. O solipsismo assume muitas formas diferentes, mas só há um caminho para se sair dele. Esta é a natureza do verdadeiro lugar estreito, um portal através do qual deixamos as nossas câmaras de eco e egos e nos encontramos nos mundos uns dos outros. Temos de sair e vaguear fora de nós próprios, para que não nos reduzamos a sombras de nós mesmos. Como está escrito em Um Conto de Natal: “É exigido de cada homem”, responde o fantasma, “que o espírito dentro dele caminhe para o exterior entre os seus semelhantes, e viaje até longe; e, se esse espírito não o faz em vida, está condenado a fazê-lo após a morte”.

A beleza e a graça do Natal vêm porque é um alívio temporário das dificuldades e é o renascimento da esperança nas profundezas do inverno. É uma ilha, cheia de luzes, alegria, caridade e união, num mar de trevas. Ou, pelo menos, poderia ser isso mesmo. Quanto mais nos esquecemos disso como indivíduos ou como sociedade, mais corremos o risco de nos encontrarmos na escuridão, isolados do mundo, como fantasmas do que poderíamos ter sido.

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O autor: Darran Anderson escritor irlandês, é o autor de Imaginary Cities (2015), escolhido como ‘Livro do Ano’ pelo Financial Times, o Guardião, o Clube A.V. e outros, e descrito pelo Guardião como ‘uma peça vertiginosa e brilhante de não-ficção criativa’. Ele co-editou The Honest Ulsterman, 3:AM Magazine, Dogmatika e White Noise. Escreve para sítios como Atlantic, Frieze Magazine, e Magnum, e deu palestras no V&A, LSE, Fundação Robin Boyd e Bienal de Veneza. Autor também de Inventory (2020).

 

 

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