É um facto notório, tanto cá como noutros países deste que devia ser o terrestre paraíso nosso, que os poderes fáticos –administração, juízes, media e sondagens, banca, igrejas e forças armadas–, se mostram cada vez mais activos na vida quotidiana do vulgar pagante, que outro nome não me atrevo a chamar a esta vítima forçada e forçosa.
Podem ser por aquela ou por outra qualquer ordem, mas é indiscutível que, quase todos os dias, vemos, ouvimos ou lemos como todos eles parecem ecoar-se, se servem uns dos outros e, de algum modo, conseguem inibir ou influenciar uma boa parte do poder político e da vida democrática.
Este problema não é novo, já o analista Alain Minc o tratou na obra ‘A embriaguez democrática’, explicando, de algum modo, como uma parte da justiça, da administração e dos media, podem entrar em ressonância, alimentando-se uns aos outros, subvertendo a ordem democrática ao assumir também uma parte do poder político. Talvez seja conveniente dar uma vista de olhos nos arquivos públicos ou pessoais, para voltar a ler os muitos casos que encharcaram todos os media nos últimos anos.
Mas não é só um problema nosso, nem europeu, pois afirma um cronista do ‘La Vanguardia’, que Dan Quayle, ex-vice-presidente dos states, foi expulsado da política, depois de também fazer um erro ortográfico ao corrigir o escrito de um aluno, que o ex-presidente Bush Jr. chegou a afirmar que a universidade também não teria muita importância e o trumpafazia gala da sua ignorância e de ser tão inculto como os demais.
Não nos devemos igualar ‘por baixo’, até por vermos quais as causas populistas que se atrevem a celebrar a identidade a partir da comemoração da ignorância, e outras causas e coisas momentâneas e transitórias.
Talvez tudo esteja ligado ao predomínio do digital, informatizado, maleável e manipulado à vontade, responsável também pelo enfraquecimento da consciência dos factos e até da própria realidade –Na sociedade da informação perdemos a confiança básica, é uma sociedade da desconfiança, da transição da era das coisas para a era das não coisas– nas palavras dos sul-coreano Byung-Chul Han, perito em estudos culturais e professor na Universidade das Artes em Berlim; resume tudo desta maneira bem simples –Já não habitamos a terra e o céu, mas na Google Earth e na Nuvem.
Mas o impacto tecnológico desta interdependência digital, tem consequência gravosas também na paisagem política, afirma o sociólogo e professor Daniel Innerarity, ‘Com o digital, passamos de um regime liberal e aberto, a outro privativo e cerrado, da cooperação à rivalidade; e a nova ordem política caracteriza-se pela perda de legitimidade das instituições internacionais e diminuição da adesão dos estados, com uma nova distribuição entre conflito e cooperação, onde o primeiro é que ganha’.
A confusão agora é tanta que me leva a contar uma estória bem antiga, passada não sei em que tempo nem local, e que me foi contada como ‘A parábola da cabra’.
“Era uma casa extremamente pobre e humilde, onde viviam, uns em cima dos outros, avós, pais, filhos, noras, genros e netos, mas onde a falta de espaço lhes fazia da vida um inferno. Desesperado, o chefe daquele clã familiar, vai ter com o líder religioso da comunidade, a pedir-lhe conselho. Ele não foge à resposta e dá como solução para aquele problema complicadíssimo, ‘Ponham uma cabra a viver com vocês. Vão ver que tudo se resolve!’
Apesar de não conseguir entender como uma cabra poderia resolver-lhes o problema, o pobre homem seguiu o conselho e, quinze dias depois, mas a chorar, volta ao líder religioso e diz ‘Com a cabra as coisas atingiram o limite do que poderíamos suportar’, e ouve como resposta ‘Não te precipites, a cabra a viver convosco era só o começo da solução do problema. Agora já a podes mandar embora’.
Mais quinze dias, o homem volta, para falar com o tal líder, mas é este a perguntar ‘Que tal agora sem a cabra?’
‘Maravilhoso! Agora vivemos no paraíso! ”
E, agora também, a pergunta do milhão –A quem se deveria recomendar tal remédio?–
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor