CARTA DE BRAGA – “ do sobrar mês e da riqueza” por António Oliveira

Não é fácil a vida nestes tempos, um edição revista do que já se passou há uma dezena de anos atrás, mas aumentada agora pela crise do covid e por uma guerra putinesca de que não temos culpa, quando na altura só tínhamos o europeu de 2004 para pagar espero bem que já tenha sido mesmo pago porque, diz e escreve um cronista lá de fora, ‘Quanto mais aumentam os preços, pior vai para o cidadão, quanto mais custa devolver o crédito das hipotecas, melhor corre a vida para a banca, o que nem sequer é novidade’.

Também não vale a pena lembrar o mais distraído, que foi o ‘Zé pagante’ a resgatar o sector bancário e que, apesar das promessa de nada voltar a acontecer, nunca houve devoluções e aí estamos outra vez, vai ser mau para as famílias, disse ainda o ministro da pasta-; também sei que soa a demagogia, mas é a verdade, e da boa!

Por outro lado, acrescenta ainda o cronista, ‘As empresas energéticas, sem necessidade de mexer um só dedo, sem aumentar as inversões ou contratar mais empregados, estão a encher o saco. Só a Shell ganhou 40.000 milhões de dólares em 2022, mais do dobro que o ano anterior. Assim é a vida; poderíamos acreditar que se as facturas com que nos cravam pela gasolina, gás e electricidade não fossem tão brutais, eles ganhariam menos e nós viveríamos um pouco melhor; até poderíamos pensar ser benéfico um imposto transitório sobre as energéticas, mas ao dizer isto, logo te chamam demagogo e populista’, isto só, pelo menos! 

Note-se que cada vez mais gente inventa estratagemas para não lhe sobrar mês, quando nos jornais lemos notícias, ‘Em toda a União Europeia são já 1.957 os banqueiros que ganham mais de um milhão de euros por ano, mais 42% do que no ano anterior, mormente em Itália, França e Espanha, onde tal cifra quase duplica, atingindo os 70%’. 

Nada que não tenha sido tratado em Davos, no Fórum Económico Mundial, onde também esteve em análise o relatório da Oxfam Intermón, ‘A lei do mais rico’, a dizer que 1% da população mais rica, acumulou quase dois terços da riqueza gerada a nível global, de Dezembro de 2019 a Dezembro de 2021, no valor de total de 41 bilhões de dólares, quase o dobro do que os restantes 99% da Humanidade.  

Mas Davos também foi um excelente aviso para sabermos que a democracia tem um enorme poder de escala de valores e hierarquização; vão ser necessárias capacidades, instrumentos e instituições aparentemente inexistentes, para nos convocar e proporcionar uma outra visão do mundo, um nova utopia para confrontar a desordem global que nos está tão próxima vejam-se a Rússia, a Ucrânia, o Afeganistão, mais os trumpas e boçalnaros que por aí andam, só para citar alguns, e poucos bastam! 

Tudo isto decorre porque, afirma Viriato Soromenho Marques, ‘O contraste abissal entre a gravidade das questões que ameaçam o nosso presente-futuro e a vacuidade do registo de divertissment em que decorre grande parte da trama política, é confirmada pela assimetria profunda entre o poder aparente do palco político e o poder real – opaco, blindado e planetário – do complexo económico-financeiro, que destapa o seu véu em raros momentos, como é o caso dos Encontros de Davos’.

Apetece, a terminar, por a ruptura política e social atravessar praticamente todas as democracias liberais, evocar o ‘Discurso sobre a economia política’ de Jean Jacques Rousseau, onde se pode ler, talvez a propósito, ‘As leis são igualmente impotentes contra os tesouros do rico e contra a miséria do pobre; o primeiro contorna-as, o segundo descura-as, um rompe a tela outro atravessa-a’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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